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É o mesmo pichón
o que se acurruca na escuridade
e o que me cobre coas mantas
para que durma
o meu voo diminuto
do sono,
pra que non teña frío
o meu medo grande
ao que só os ollos
e a dolor lle fan caso.
Que me guíe un pichón,
corazón enteiro e só de plumas,
na escura soidade
que me acerca ao sono;
que un pichón de plumas
e un corazón de arrolo,
un son do que se arrola
a si mesmo cun son eterno,
suave, caladísimo, ronco
mar pequeno con medo
e sen medo, non sei,
me conceda o silencio
que invita, aquel
que sen que poida negarme,
me invite á oración
que pide o sono
que pide a alegría cósmica
dun pichón
que dorme co seu canto
arrolándose.
francisco candeira
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Quando é que Sartre conhece o pensamento marxista? Em 1974, recordará que se aproximou pela primeira vez de Marx no terceiro ano dos seus estudos na École e que a leitura lhe provocou “o efeito de uma doutrina socialista, que pareceu bem justificada. Disse-lhe” – continua a dirigir-se a Beauvoir – “que julgava que a compreendia, e que nao compreendia nada, nao via que sentido podia fazer nesse momento. Compreendia as palavras, as ideias, mas nao que se aplicassem ao mundo presente, que o conceito de mais-valia tivesse um sentido actual”. Terao de passar vários anos até que Sartre esteja em condiçoes de se aproximar e criar uma polémica ao mesmo tempo. A aproximaçao de Sartre ao marxismo e á política comunista leva-nos ao início da década de 50: começa a etapa do compromisso. Mas a verdade é que, antes de 1952, quando dá início á publicaçao de “Os Comunistas e a Paz”, o compromisso como actitude necessária para consolidar a liberdade individual e os direitos colectivos, já existia. Parece-me importante referir duas circunstâncias que considero incontornáveis. Em primeiro lugar, nao devemos esquecer que Sartre impulsionou a fundaçao de “Les Temps Modernes”, revista cujo primeiro número aparece em outubro de 1945: é importante destacá-lo porque a apresentaçao de “Les Temps modernes” abre com uma afirmaçao categórica. Sartre denuncia que “todos os escritores de origem burguesa conheceram a tentaçao da irresponsabilidade: há um século, esta tentaçao constitui uma tradiçao no curso de Letras”. E anuncia, para justificar a finalidade da revista, que a “intençao é contribuir para que se produzam certas mudanças na sociedade que nos rodeia”, sempre na perspectiva de analisar a liberdade, porque, embora esta pudesse passar por uma maldiçao, “e é uma maldiçao… mas também é a única fonte da grandeza humana”. A tese da “literatura comprometida”, que seria preciso entender como do “intelectual comprometido”, abre caminho. Mal compreendida com muita frequência, essa tese implica apenas a sugestao que o “escritor-intelectual” tenha em conta os problemas que o situam como cidadao no mundo: nao se trata da desvalorizaçao do “literário”, isso seria outro assunto, mas, estrictamente, do posicionamento numa referência necessária na escrita aos acontecimentos que interessam ao cidadao. Em segundo lugar, nao há dúvida de que Sartre vai levar muito a sério a intençao na criaçao da revista, que dá os primeiros passos com o apoio inestimável de Merleau-Ponty, Beauvoir e Aron, entre outros. Sartre ilustrará literariamente a tese do “intelectual comprometido”. Em 1948, estreará “As Maos Sujas”, uma peça destinada a defender a necessidade de o “intelectual tradicional” sair da “torre de marfim” – embora com uma crítica aparentemente feroz ao perfil comunista: as razoes serao compreendidas de seguida – e entregará o guiao cinematográ- fico de “A Engrenagem”, filme que insiste na tese da necessidade do compromisso. Mas o mergulho sartriano na realidade social, cuja urgência fora anunciada na conferência de 1945 a que nos referimos antes, nao tem apenas uma perspectiva literária. Por volta de 1947-1948, Sartre já se dedicou a impulsionar um mo- vimento político que baptizará com o nome de RDR – siglas do Rassemblement Démocratique Révolutionnaire – e que pretende ser uma alternativa aos compromissos gaullista e comunista.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Amália, malia dor, alía alí
no fondo da Luz a nosa Saudade
coa voz longa do Mar
e ten sempre un ar de leve e alto río
a canción que flúe prá illa da Soidade.
Dá no alto a volta o ar
dá no mar a onda a volta
canta en Amália o mar
e a Saudade vai e volta.
FRANCISCO CANDEIRA
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Investigar a ligaçao de Sartre ao marxismo nao é fácil. E nao apenas porque a sua leitura de Marx reflicta lacunas significativas no conhecimento da obra, mas porque a aproximaçao do nosso filósofo ao marxismo decorre paralelamente ás suas próprias aproximaçoes e afastamentos da política comunista. Este duplo horizonte, que inclui discussoes propriamente filosóficas e polémicas claramente políticas, dificulta qualquer análise porque, ás vezes, parece partilhar o essencial do marxismo quando se afasta da política do PCF e, pelo contrário, parece aproximar-se da política do partido, quando se afasta do horizonte teórico marxista. É realmente uma montanha-russa de subidas íngremes e descidas vertiginosas… E a questao torna-se mais difícil se tivermos em conta a diversidade do marxismo a partir do pós-guerra, com uma variedade de alternativas realmente notável: de facto, quando Sartre se afasta da política do PCF, sentir-se-á muito próximo da orientaçao dos comunistas italianos – mas de quais? -, e posteriormente da alternativa cubana, e, antes, da renovaçao maoista – de facto, Beauvoir publicará uma extensa análise da realidade chinesa em 1955, intitulada “A Longa Marcha: ensaio sobre a China”. Estas dificuldades farao com que nos centremos em alguns aspectos superficiais, embora indispensáveis da relaçao de Sartre com o marxismo, conscientes de que uma análise mais pormenorizada nos apresentaria questoes que só poderiam ser abordadas “in extenso”.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Xa non ten Historia pra contar,
xa está entregue a outro destino
o portalón da Inquisición.
Noutrora pazo, arestora fachada
medio inclinada cara a dentro.
Hoxe máscara con vertixe
cara ao interior do seu pasado.
Sentín máis emoción, e máis medo,
e máis abraio, e máis lonxanía
ao cruzar o seu limiar
-!que morra a Institución! –
que ao pasar por debaixo
do túnel da Caniza,
cos seus dous kilómetros e medio,
e que polo visto o fixo Alguén
no día da inauguración,
tras muitísimas e fatigosas visturias.
Cando crucei a Porta
dei un vasto paso cara a profundidade
dos tempos, e a vertixe
que sentin, se fora de noite,
ou en soño, podia comparar-se
ao paso que algunha vez deu
Athanasius Pernath, cando
semellaba descaír cara adiante,
obnubilado polo Golem.
Eu, ao tempo que a fachada,
pareceume cair cara adentro,
cara ao pasado das idades
e as nubes das xeracións.
francisco candeira
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Eis um Sartre na defensiva. Para responder ás críticas, organizará uma conferência que tem lugar no final de outubro de 1945, coincidindo com o aparecimento de “Les temps modernes”. Trata-se na verdade do que poderiamos chamar um “acontecimento social” a sala do Club Maintenant, em Paris, está a abarrotar. O público é tao numeroso que Sartre teve de fazer sessoes posteriormente para esclarecer problemas e responder ás críticas. Estas tinham sido apontadas no seu conjunto á trama moral sartriana: se ficara estabelecido que nao podem existir duas situaçoes semelhantes, há apenas uma possibilidade muito remota de estarmos de acordo na escolha de um possível idêntico, e neste caso o “para-si” devia esforçar-se por renegar esse possível comum, que menospreza a sua irredutibilidade, a sua subjectividade original. A afirmaçao da impossibilidade do comunitário recebe críticas dos teóricos comunistas, que qcham que Sartre se vanagloria de uma concepçao da espécie humana em que predominam os aspectos sórdidos, confusos, nao tendo em conta os destaques belos da existència – por exemplo, a evidência do espírito solidário -, e também dos cristaos, que o censuram por nao ter ligado á ideia de uma transcendência que englobaria forças e representaçoes colectivas. Todos denunciam o individualismo sartriano. Sartre responderia ás críticas centrando-se especialmente na rejeiçao fundamental. Individualismo? Sem dúvida, a leitura do tratado de 1943 e da literatura sartriana nesta altura parece levar-nos a tal conclusao. Mas Sartre vai surpreender-nos porque escreve que, “quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, nao queremos dizer que o homem é responsável pela sua estricta individualidade, mas sim que é responsável por todos os homens”. A surpresa é enorme: onde havia desencontro ontológico-ético há agora uma corresponsabilidade que entende o fervor da questao comunitária. Mais á frente, Sartre referir-se-á a “uma universalidade humana de condiçao”. A negaçao absoluta do que se tem defendido filosófica e literariamente. Como é possível esta viragem tao pronunciada? Achamos que se fica a dever a uma razao á qual dedicaremos o proximo capítulo; Sartre iniciou a sua aproximaçao á política, que requer o compromisso e a solidariedade, e consequentemente deve aceitar a suspeita de uma situaçao comum – talvez nao universal, mas que vai para além do individual -, e, portanto, de um projecto-possível comunitário. Dá-se início a uma nova aventura.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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No soño o tabuleiro de xadrez
só aparece coas pezas perfectamente
colocadas como antes do inicio
cando desperto sobresaltado.
Un día percorrín
o tabuleiro de abaixo arriba,
coma se estivera de pé,
máis, coma se cada cadro fora un cubo.
Mellor dito, tamén o percorrín ao revés,
de riba abaixo:
entraba por un orifício á miña medida
máis despois
non conseguía voltar pra riba, pra trás,
coma se non puidera saír
polo mesmo sitio que entrei,
verme obrigado a furar
continuamente cara abaixo
como única saída ou esperanza posíbel.
Percorrín, baixando, todos
os cadros do tabuleiro:
como asfixiado e con temor
ía avanzando, avanzando,
sen saber se ía dar a algún lugar
respirábel.
Despois despertei de repente, sobresaltado,
vin de novo as pezas perfectamente
colocadas no tabuleiro,
preparadas pra comezar,
o tabuleiro deitado, horizontal.
Agachei as orellas, e fun beber
café con leite, e por riba un vaso de auga
– que me entrou coma un río
pola boca abaixo, ou pola guelra se fose unha troita.
francisco candeira
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Sartre tratou na sua obra literária a situaçao humana com uma conclusao que poderiamos considerar pessimista: Roquentin e Garcin, duas das personagens recordadas no capítulo anterior, sao dela exemplos inequívocos. Mas, paralelamente, Sartre cultivou uma reflexao filosófica que é a ilustraçao teórica do que os protagonistas vivem, e empenhou-se em desenvolver argumentos filosóficos que garantam a sua abordagem inequívoca. O esforço é orientado para dar uma razao de ser ao comportamento moral, que só pode ser ontológica, isto é, procura um fundamento na análise do real, das coisas do mundo. Por isso mesmo, no seu primeiro grande tratado filosófico Sartre vincula muito acertadamente ontologia e moral. Trata-se de uma tarefa iniciada com a Segunda Guerra Mundial, com as notas e os esquemas escritos no seu posto militar e também mais tarde, durante os meses de internamento. É esclarecedor iniciar este capítulo com a tentativa de resumo de “O Ser e o Nada” levada a cabo pela sua biógrafa Cohen-Solal. Escreve o seguinte: A obra procura, retomar, expor e alimentar várias ideias-chave: o orgulho da consciência face ao mundo e, consequentemente, a liberdade absoluta do indivíduo; a consciência, ao mesmo tempo imersao e ruptura; a liberdade, ao mesmo tempo febre e disciplina; a crítica permanente; a desconfiança em relaçao aos papéis sociais cristalizados e esclerosados. (…) Onde nao havia possibilidade de moral colectiva aborda-se agora o encontro com o outro, e onde havia liberdade absoluta deparamo-nos com uma liberdade que é relativizada pela presença do próximo. Além disso, a situaçao – o mundo em que cada um vive -, que era individualizada em excesso, é agora uma situaçao partilhada. Neste ponto, interessa-nos entrar no cerne da obra. As suas partes estao claramente diferenciadas: há em primeiro lugar, uma reflexao ontológica muito dilatada, ou seja, uma análise da natureza dos objectos do mundo, e de seguida, na quarta parte, uma mais breve mas fundamental introduçao ao que devia ser o projecto moral existencialista. A reflexao ontológica, o assunto a abordar em primeiro lugar, defende-se com base em conceitos e actitudes. Os conceitos fundamentais sao o “em-si” e o “para-outro”. Entre as actividades faremos exclusivamente referência ao olhar desencadeado pela vivência de um mundo habitado por existentes inimizados e nao solidários.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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A Historia do mundo
enlázase coa historia da memoria
nas regandixas da visión e do soño.
Hai un tabuleiro de xadrez
e nós imos pousando neste ou naquel cadro,
negro ou branco. Ás veces
non chegamos a pousar en todos.
Olvidamos uns, recordamos
malamente outros, e en dous ou tres
establecemos a nosa fixación.
Pode haber unha manta de retallos,
borrosamente ou con intermitencias
lembramos uns, non tocamos
ou non vimos nunca outros,
e recordamos sempre tres ou catro.
Despois introducimos
o tabuleiro de xadrez
e a manta de retallos
en senllas bolas, horizontalmente,
no medio e medio,
xogamos un partido de fútbol, ou dous,
con esas bolas, e os dous equipos
que xogan o partido
son corroborados pola Federación,
a Federación é apoiada polo Estado,
e o Estado remítese a unha Instancia Superior
– Deus, Azar, Destino-
que parece ser rixe todo, o Todo.
?Estará así formado o Mundo, o Reino da Loucura?
FRANCISCO CANDEIRA
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A DESCOBERTA DO PERIGO DE EXISTIR
Sartre conhece a experiência de Nizan, admite que a Guerra Civil Espanhola o deixou abalado e confessa várias veces que a sua vivência da Segunda Guerra Mundial mudou a sua vida. Por tudo isso é realmente estranho que construa uma obra caracterizada, como veremos de imediato, pela indicaçao das extremas dificuldades em culminar um processo pessoal de intervençao que se ajuste ao mundo em que vive e, sobre tudo, que se mostre avesso a aceitar a proximidade do outro para elaborar uma tarefa comum solidária. É verdade que a trilogia de “Os Caminhos da Liberdade” – na verdade uma tetralogia se tivermos em conta que Sartre já tinha practicamente acabado um quarto volume, que aparecerá em “Les Temps modernes” – parece orientar-se para outra perspectiva, a do compromisso e a do encontro positivo com o outro, mas esta mesma circunstância dá lugar á perplexidade. Este capítulo centra-se em três obras literárias que justificam de maneira evidente o surgimento sartriano no mundo cultural françês e internacional a partir das perspectivas literárias e filosóficas. Refiro-me a “A Náusea”, romance que, embora tenha sido publicado em 1938, começou a ser escrito durante a estada do autor em Berlim, em 1933. “As Moscas”, estreada em Paris no início de junho de 1943; e a “A Porta Fechada”, conhecida pelo público no final de maio de 1944. As datas sao reveladoras: o romance é publicado quando Sartre já tem conhecimento da experiência niziana e sofreu o abalo provocado pelo levantamento fascista do general Franco em Espanha. Nas três obras referidas encontra-se uma consideraçao sombria e infernal da existência humana, descreve-se o mundo no qual o homem, esforçando-se por compreender, conclui que todo o esforço está destinado ao fracasso e á ruína. “Já nao posso falar, inclino a cabeça. O rosto do Autodidacta está colado ao meu. Sorri com ar fáctuo, muito perto da minha cara, como nos pesadelos. Mastigo penosamente um bocado de pao que nao me decido a engolir. Os homens sao admiráveis. Tenho vontade de vomitar, e de repente alí está: a náusea.”
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Di que si, que a vida é bela,
anque demasiado vella
e encarcerada pra calquera,
mais di que si porque pensas
anque non saibas o que digas
anque digas sen pensar
que tés xeito
e podes chegar a ser poeta
se es fino e aprendes
a intelixencia da Cleopatra
de Bernard Schaw:
a súa sintaxe, o seu efecto sorpresa,
o seu truncar a frase e o sentido
maxistralmente: a reviravolta
sen darte conta, con inocencia,
con frescura infantil, case inconscientemente.
Sabe máis ela de poesía
que todos os poetas coma min xuntos.
Di que si, que a vida é bela,
que podes disfrutar lendo a Cleopatra,
que a poesía non é retórica,
nin tontería, nin aburrimento,
nin estúpidas prisións
de verdades, bondades ou Estados ignorantes.
A poesía é a grande virtude,
xunto coa Bondade Sabia (ou Milagre)
a única virtude.
FRANCISCO CANDEIRA
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Se qualifico como “perigosas” as amizades sartrianas que vou referir de seguida, nao é apenas porque qualquer amizade seja perigosa, já que conduz ao abismo ou á alegria, mas porque os casos essenciais que se vao relatar brevemente representam um avanço ou um retrocesso na formaçao de Sartre, da sua literatura, da sua filosofia. Trata-se de Paul Nizan e de Maurice Merleau-Ponty: a eles dedicará algumas das mais belas páginas da sua literatura. Comecemos por Nizan, que conhece no liceu parisiense Henri IV e de quem só se separará com a morte deste, na batalha de Dunquerque, em 1940. Nao se trata de um amigo qualquer, Sartre homenageará várias vezes esta amizade brusca e tatalmente interrompida. (…) depois de evocar os intermináveis passeios em que ele e Nizan se perdiam pelas ruas de Paris na juventude de ambos, sem ânimo nem orientaçao, simplesmente pelo prazer de conversarem e de se divertirem, escreve: “Era Nizan, calmo e pérfido, encantador. Era assim que eu o amava” E nas conversas com Simone de Beauvoir, ao recordar a etapa do Liceu, confessa que eram “amigos íntimos”. A sua relaçao é emocionante e surpreendente. Sao tao proximos um do outro que trocarao de identificaçao, assumiriao com humor e riso a identificaçao do outro. (…) Estávamos ligados a tal ponto que nos confundiam um com o outro; Léon Brunschvicg, em junho de 1939, encontrou-nos aos dois em casa do editor Gallimard e deu-me os parabéns por ter escrito “Os Caes de Guarda” (…) Essa confusao durava há dezoito anos, tinha acabado por se converter no nosso estado social e acabámos por aceitá-la. De 1920 a 1930, estudantes de liceu e depois da universidade, ninguém nos distinguia. (…) Têm uma vida louca e jubilosa. Assim pretende retratá-los Cohen-Solal: “Um silencioso e o outro estridente, um elegante e o outro desarranjado, um calmo e o outro violento; assim se manterao, complementares e diferentes até 1927.” Dar-se-á um afastamento transitório quando os dois acabam os estudos de Filosofia na École, Sartre inicia a sua breve carreira académica no Liceu de Le Havre e Nizan parte para Aden. (…) Há uma segunda amizade perigosa. Merleau-Ponty, uma das mentes privilegiadas da filosofia do século XX, (…) Sartre concluiu o texto que lhe dedicou da seguinte forma: “Para terminar, direi que esta longa amizade, nem construída nem destruída, abolida quando renascia, permanece em mim como uma ferida indefinidamente reaberta”. (…) Sartre começa a envolver-se no imediatismo político e sobretudo nas vicissitudes da política partidária. Merleau-Ponty ensina-lhe muito, guia-o; nao se trata da amizade enlouquecida que se estabelecera com Nizan, mas Merleau-Ponty revela-lhe a precisao do marxismo para construir uma análise do real, da situaçao – nos termos sartrianos – e, por outro lado, chama-lhe a atençao para a dolorosa ligaçao histórica entre o projecto político e os seus efeitos nem sempre aceitáveis – embora necessários – , mas que convém ultrapassar em virtude de uma revitalizaçao do sujeito histórico-revolucionário. (…) No entanto, a verdade é que, mesmo afastados, continuam a sentir-se os dois optimistas fundadores de “Les Temps Modernes”. No ano seguinte, 1956, encontram-se em Veneza. Na verdade, está tudo preparado para uma reconciliaçao que so foi impedida pela morte de Merleau-Ponty em 1961. A inquietaçao tinha tendência a desaparecer – Nasceu outro sentimento; a benevolência -, esta afeiçao desolada, ternamente fúnebre, aos amigos esgotados, que se afastaram até nao terem mais em comum que a sua disputa, que um belo dia acaba por já nao ter razao de ser. (…) As amizades perigosas deram os seus frutos.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Adaíl de gracias e obscuridades
sucumbo
á memoria, á luz e ao misterio.
Unha estocada
no touro-diccionario (detido-case morto)
levanta unha estrela negra
de metal
e renazo con alborozo
para a festa
que confunde as cores.
Sería posíbel que a xuntanza
da xeometria – e a inherente proximidade-
me induciran
a olvidar todas as diversas cores
-ténues, leves porque recordadas á distancia
da visión-
non fose porque unha soa estrela
non pode reter entre as súas puntas
toda a diversa cor dun círculo
e o home selecciona -cousas, almas-
porque confunde ou olvida, ou algo lle foxe.
francisco candeira
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A denominaçao do “existencialismo” parece mais complicada, já que o termo se converteu numa miscelânea em que se incluem filósofos, poetas, e romancistas. Sem dúvida, entre Heidegger e Jaspers, por exemplo, há tanta distância como entre Sartre e Camus. Centramo-nos no existencialismo de Sartre, a partir da sua explicaçao em “A Propósito do Existencialismo”, onde estabelece que: O existencialismo defende (…) que no homem (…) “a existência precede a essência” que, no mesmo sentido, “o homem deve criar a sua própria essència”, e “define o homem pela acçao”, e, para terminar, deve entender-se que “o existencialismo nao se apraz com o que é sombrio, que é antes uma filosofia humanista da acçao, do esforço, do combate, da solidariedade”. (…) De repente, o mundo parece explodir. A Alemanha hitleriana estivera a olear a sua maquina bélica. A França entra em conflito armado com a naçao vizinha: profere-se a ordem de mobilizaçao geral a 2 de setembro de 1999. Sartre é destinado a um campo de previsoes meteorológicas. Começa o que em França se conhece como “drôle de guerre” (o que significa mais ou menos guerra tola, inútil). Mas nao é inútil para Sartre, que, de braços cruzados practicamente todo o dia, dedica o seu tempo a ler e escrever. Meses mais tarde, fatidicamente no dia em que faz 35 anos, é detido pelos invasores alemaes e transferido, pouco tempo depois, para o campo de concentraçao de Tréves, onde permanece até março de 1941. Quando é libertado regressa a Paris. É nos anos seguintes que entra em contacto com Heidegger, a segunda grande influência presente na sua filosofia. O filósofo alemao publicou em 1927 a sua obra-prima, “Ser e Tempo”. O que propoe Heidegger? Ou, por outras palavras, quais sao os aspectos da obra citada que chamam a atençao de Sartre, já que ele próprio as inclui de forma mais ou menos clara na sua própria matriz filosófica, e que se podem identificar sem muita dificuldade seguindo os apontamentos reunidos nos chamados “Diários de Uma Guerra Estranha”, a primeira parte dos “Cadernos de Guerra”? Para responder satisfactoriamente á pergunta precisamos de ter em conta varias questoes. Em primeiro lugar, parece inevitável destacar o método que vai reivindicar Heidegger para o análise daquilo que considera objecto fundamental da filosofia. (…) um retorno á análise das “próprias coisas” (…) partir de zero para restaurar a importância da filosofia, destronando as crenças estabelecidas. (…) Mas qual é o objecto fundamental da filosofia? Esta é a segunda questao; perguntar o que é o ser e acima de tudo, perguntar-se pela natureza do que está ali, em frente dos nossos olhos. (…) que o primeiro aspecto relevante é compreender que a existência precede a essência, ou seja que esvaciada a consciência, esta começa a ser alguma coisa quando se interroga sobre a essência do mundo, das coisas. Entao o que começa a consciência vazia a descobrir?
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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A separación – que ben pode ser partículas
de pole dunha mesma flor –
deriva de visións dispares
ou descoñecidas entre si.
O punto de comunicación
depende da coincidencia de retencións.
A memoria pode ser insolidaria
e, logo, o diálogo imposíbel
ou estéril (a felicidade mentira,
a guerra adulterada).
E aínda sendo a memoria
compartida, pode suceder
a insatisfacción ou o matiz
diferente: insuficiencia
onde dous puxan por distintos
extremos dunha nube para desvelar
a luz do acibeche
ou o movemento infixável
dos átomos, punto
de discordia e relatividade,
cosido dos deuses,
olvido sabio dos homes,
imprevisibilidade suposta e sorprendente.
francisco candeira
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