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O HOME NON RECORDA, NON TEN MEMORIA
.
O Home non recorda, non ten memoria
e se a memoria en algo permanece
cae na perdición do real
porque transforma o recordado,
crea algo diferente. É libre
porque comete traición
ou vive porque renova o erro,
abella afogada en mel,
bolboreta que morre aos dous días,
abella que pousou fugazmente
en catro flores e caíu
por aguillonear un corpo.
francisco candeira
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SIMONE DE BEAUVOIR (VII)
Mençao especial merece Simone de Beauvoir. Também colega de Sartre na École, iniciaram uma relaçao que duraria até á morte do filósofo, embora acordada uma liberdade afectiva que nunca foi interrompida. A diferença entre o que consideravam “amores contingentes” – aventuras sentimentais e sexuais – e o “amor verdadeiro” – que era o deles – marca a sua existência. Beauvoir é uma excelente romancista – aí estao, por exemplo, A Convidada (1943) ou Os Mandarins (1954), galardoado com o prestigiado Prémio Goncourt – e uma filósofa inesquecível, basta lembrar Por uma Moral da Ambiguidade. Mas non seria possível reconstruir a França da segunda metade do século XX sem ter em conta a sua faceta memorialista: a leitura dos quatro volumes da sua autobiografia – e do quinto, se consideramos como tal A Cerimónia do Adeus – é empolgante. Dito isto, é preciso destacar que, sem dúvida, a autora será sempre reconhecida pelo forte cataclismo que a publicaçao de “O Segundo Sexo” (1949) provocou: a mulher nao nasce, mas sim faz-se – é esta a tese central da voluminosa obra. Beauvoir levou a cabo um exercício extremo de erudiçao e reflexao para mostrar a que ponto sao as condiçoes culturais, religiosas, sociais, domésticas que configuram uma imagem da mulher como ser submisso, vulnerável e despersonalizado. A partir dessa consideraçao reivindica a constituiçao de uma nova feminidade. Todo o movimento feminista, que explode nos anos 60, é devedor das análises de “O Segundo Sexo”, próximo do seu posicionamento crítico para com o mesmo, a verdade é que Beauvoir é a referência essencial nesta história tempestuosa.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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NON HAI DISTANCIA
Non hai distancia
entre o fume e as columnas
porque non vexo diferencia
esencial entre a néboa
e a redondez pulida das columnas.
As tatuaxes (filigranas
apuradamente alcoólicas)
desta tripulación noctámbula
que me acompaña no mar
das botellas apiladas (a escuma
da onda son copas invertidas baixo luz)
veñen dicirme
que no mármore hai naturalmente
petroglifos trazados
pola man cóncava da lúa.
Un whisqui tende a ponte circular
da comuñón, que é un plaxio
oculto, sen publicar,
acaso unha canción moi compartida,
acaso unha cita.
A comuñon: ese plaxio
porque cadaquén é outros:
eu non son soamente eu
porque a amizade
ergue o vaso ás alturas dos ollos.
francisco candeira
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JEAN-PAUL SARTRE (VI)
Em “As Palavras”, Sartre é categórico e cruel: Jean-Baptiste “apoderou-se desta rapariguinha desamparada, casou com ela, fez-lhe um filho rapidamente, eu, e tentou regugiar-se na morte”. Algumas páginas á frente reconhecerá que a morte do pai “foi o grande acontecimento da sua vida”. Porquê o grande acontecimento da sua vida? Sartre responderia imediatamente a seguir a esta sentença desapiedada: Como manda a regra, nenhum pai é bom; nao nos queixemos dos homens, mas do laço de paternidade, que está podre. (…) Se tivesse vivido, o meu pai teria caído em cima de mim com todo o seu peso e ter-me-ia esmagado. (…) Foi bom ou mau? Nao sei, mas aceito com gosto o veredicto de um eminente psicanalista: nao tenho “Superego”. A referência é fundamental porque marca o alcance da liberdade na filosofia sartriana. De facto, refere-se a viver e agir á margem das imposiçoes familiares e sociais, nessa atmosfera de liberdade absoluta que pouco depois encontraria nas páginas de Nietzsche, que encarnarao as suas personagens literárias e na qual procurará uma âncora filosófica nas obras editadas a partir da década de 40. Solitário, fechado na parisiense casa da rue Le Goff, do avô materno, o menino Sartre crescerá entre livros, silêncios e os absorventes cuidados de Anne-Marie, mae excessivamente protectora, a quem o menino nao reconhece como mae, mas como uma “irma mais velha”. Um dia – tinha sete anos – o meu avô nao aguentou mais: deu-me a mao e disse-me que íamos passear. Mas mal dobrámos a esquina meteu-me no barbeiro e disse-me: “Vamos fazer uma surpresa á tua mae.” Eu adorava surpresas. (…) Em suma, vi com agrado os meus caracóis caírem ao longo da toalha branca que tinha á volta do pescoço e chegarem ao chao, inexplicavelmente sem brilho; voltei com o cabelo gloriosamente rapado. É fácil imaginar o desgosto da mae. A aceitaçao do pequeno de cabelo rapado implica uma dura mas inevitável liçao. (…) A vivência da “fealdade” nao é apenas a descoberta de uma deficiência física: será interiorizada por Sartre como marca da individualidade humana, cuja existência estará marcada pela irreductibilidade em relaçao ao outro, pela consideraçao de que nao existe cópia do “Eu”, já que toda a existência tem uma peculiaridade extrema. Como veremos mais á frente, esta ideia deverá ser reformada ou parcialmente corrigida em busca de uma semelhança que permita a conformaçao colectiva e, consequentemente, a práxis política. (…) Há um terceiro acontecimento infantil de interresse biográfico. O menino Sartre, isolado e introvertido, rodeado de livros, pó e murmúrios, encontra um feliz ensimesmamento na leitura. “Comecei a minha vida como, sem dúvida a acabarei: no meio dos livros”, recorda e promete. De facto, assim será. E atençao a este belíssimo fragmento: Nunca esgaravatei a terra nem procurei ninhos, nao fiz ervários nem atirei pedras aos pássaros, mas os livros foram os meus pássaros e os meus ninhos, os meus animais de estimaçao, o meu estábulo e o meu campo; a biblioteca era o mundo preso num espelho; tinha a espessura infinita, a variedade, a imprevisibilidade.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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HAI UN NENO QUE XOGA NUN XARDÍN NOCTURNO
Á noite os balouzos son brazos
e os escorregas pernas deslizantes
por onde o neno se fuga,
ese neno que respira como unha árbore
movente máis…
Ese neno fun eu porque nunca morrín
nun ar estranxeiro.
Ese neno nunca fun eu porque brilla
na mirada das estrelas
e no monear das flores.
Ese neno é como os outros nenos
porque sabe da alegría
e do bris
e nunca lembra chaves
e só recoñece a memoria
nunha moeda achada
nun xardín de xogos
na mendiga noite.
francisco candeira
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A REVOLUÇAO RUSSA (V)
Aferrar-se ao pessimismo? Sartre nao o fará, certamente. E se nao o faz é devido ás causas do terceiro abalo que agitará o século XX, e de cujo espectro nao se poderá libertar. Trata-se da Revoluçao Russa. Passarao uns meses sobre o levantamento de fevereiro de 1917 até que Lenine entusiasme os minoritários bolcheviques e articule o poder dos sovietes, preparando tudo para o levantamento de novembro. Este levantamento nao só afasta a Rússia da disputa mundial, como estabelece uma forma de poder absolutamente estranha aos modelos políticos estabelecidos. É difícil imaginar a estupefaçao que a revoluçao semeia entre as elites dirigentes e o assombro que provoca entre filósofos, homens de letras e intelectuais em geral. Nao existe figura representativa da década de 20 que nao se sinta fascinada pelo sucedido. E quem equacionava alguma rejeiçao espera astutamente que o temporal amaine. E Sartre, o que acha? É preciso referir duas coisas. Por um lado, contempla com certo distanciamento aquilo que acontece, embora manifeste uma íntima satisfaçao, como relata Beauvoir em “A Força da Idade”, obra em que evoca esta lembrança: O mundo estava em movimento, Sartre perguntava-se com frequência se nao nos devíamos ter solidarizado com os que trabalhavam para aquela revoluçao. (…) Mais de uma vez durante esses anos Sartre sentiu-se vagamente tentado a filiar-se no Partido Comunista; as suas ideias, os seus projectos, o seu temperamento, opunhan-se. Mas embora gostasse tanto da independência como eu, tinha muito mais sentido das suas responsabilidades. É evidente que a autora se refere ao efeito europeu, e especialmente françês, que tentava replicar o sentido da Revoluçao Russa no seu próprio território. Mas a confissao refere uma segunda questao, que diz respeito a Sartre ter começado a simpatizar com a filosofia que inspirou as conquistas de novembro de 1917, ou seja, o marxismo, que já iniciou o desenvolvimento fundamental que o transformará numa proposta filosófica omnipresente ao longo do século XX. (…) O século XX avança. Sartre assume o seu papel de testemunha e activista. Neste complexo contexto social e histórico, é preciso situar a aventura de quem, extremadamente atento aos acontecimentos que afectam a sociedade, nao para de intervir e de fundamentar a sua intervençao numa impressionante proeza intelectual.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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ONDINAS (HEINE)
Xa ouvistes as falas das mulleres
no mercado
e os berros dos homes nun xogo de balón
e o comentario dos rapaces
á saida do cine
mais ningún sonido hai máis fermoso
que as voces da xente na praia:
falan, gritan, xogan entre as ondas
e toda palabra semella moi lonxana
e allea a eles mesmos.
Como se un grito deviñera peixe
e che entrara polo ombro
che baixara ao brazo
deica á man
e se fugara
mar adiante
e só gañaras
un brillo
na gorxa e nos ollos
mentres mergullas
e despois pensas
que noutra praia
solitaria só quedara
un home
tendido, vencido, ferido,
coa súa armadura prateada
inmune á soidade
porque tres ou catro ondas
o socorren
e unha onda lle di ao oído á outra onda
(á que está máis cerca del, á que el máis quere).
dille que queres falar con el, dille.
francisco candeira
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TRISTAN TZARA E O DADAÍSMO
A partir de Zurique, Tristan Tzara começa a perturbar o tranquilo ambiente cultural da Primeira Guerra Mundial, com a fundaçao do movimento dadaista. Pouco depois do fim da guerra muda-se para Paris, onde é recebido com solemnidade pelos surrealistas. A leitura dos seus “Sete Manifestos Dadá” torna evidente a sua vocaçao crítica e extremista. O Manifesto Dadaísta de 1918 termina com uma secçao intitulada “Nojo Dadaísta” que é esclarecedora: “Todo o producto do nojo suscetível de se converter numa negaçao da família é DADÁ; (…) aboliçao de toda a hierarquia e equaçao social instalada para os valores dos nossos lacaios é DADÁ; (…) Aboliçao da memória é DADÁ. (…) Tzara entra para a resistência antinazi. Em 1947, filia-se no Partido Comunista Francês, de que se afastará devido á invasao da Hungria pelas forças do Pacto de Varsóvia. Deve chamar-se a atençao para o facto de o dadaísmo ter, desde o início, uma clara vocaçao política. Também em Tzara, mas sobretudo na sua vertente alema, em que artistas como John Heartfield, Richard Hulsenbeck ou George Grosz oferecem uma arte com uma clara motivaçao política, ao ponto de o dadaísmo aleman apoiar com entusiasmo o levantamento espartaquista liderado por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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ESTA HORA DA TARDE
ofréceme contemplar tres formigas
a evadirse prudentemente
da súa columna, que sobe e baixa
o valadiño en que estou sentado.
No chan camiñan as tres ínfimas formigas.
Móvense, sinuosas, entre o sol e a sombra,
pois un arbusto reflecte as súas follas
na grava ennegrecida
onde apoio os meus pés.
Mais un bris desloca e confunde e mistura,
presuroso, os espazos de sol e os espazos
de sombra. E así, onde antes era o sol,
agora é a sombra,
e onde hai un intre era a sombra, agora é o sol.
E as formigas reciben o sol e a sombra,
ou pasan, cando amaina, do sol para a sombra
e da sombra para o sol.
(Unha ponta de cigarro, coa cinza
moi visíbel, é algo tremendamente grande
para a vista, case unha torre derrotada).
Tras contemplar as tres diminutas formigas
e a columna toda que se dispón
(ondulante) enteiramente na sombra,
atravesando o valadiño,
podo pensar que estas tres formiguiñas
andan a xogar co sol e coa sombra,
xa recordando o sol, xa recordando a sombra,
e coa sombra no sol e o sol na sombra –
axudadas polas follas e o bris.
E tal como o sol entra no inverno
ou como as tebras poden sorprender o verán,
eu podo pensar que hai un movimento lúcido
que demuda a vida (en alegría, asombro, fermosa sorpresa)
se, transmutándose, se sublevan corazón e pensamento.
francisco candeira
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JEAN-PAUL SARTRE (III)
.
Naturalmente, por ser muito jovem em 1914, Sartre nao participou no conflito. Porém, sofreu as consequências de forma indirecta, visto que a Alsácia era a pátria dos seus antepassados- (…) Arrancada á Alemanha e anexada á geografia francesa, facilitou a mudança da família materna de Sartre para Paris. Mas sobre tudo a referência indirecta da guerra, que se transformará em objecto de reflexao para filósofos e homens de letras, semeou duas vivências em Sartre que o acompanharam muitos anos: por um lado, um pessimismo profundo quanto á possibilidade do progresso e do encontro colectivo, e, por outro, um nao menor pessimismo quanto á possível bondade do homem. Isto é visível nos seus primeiros textos narrativos – A Náusea ou O Muro- e, sem dúvida, nas suas obras teatrais. E esse estado de espírito encontrará traduçao filosófica em “O ser e o Nada”, o tratado em que a reivindicaçao da liberdade absoluta conduz á defesa de uma moral individualista e sem solidariedade, e isto apesar de, naquela altura, Sartre já ter iniciado o seu caminho rumo a uma politizaçao antiburguesa e pró-socialista. Desta forma, Sartre associava-se ao horizonte crítico com o poder social e político estabelecido. A visao sombria e angustiante da situaçao nao foi, nem de longe, exclusiva de Sartre. O tema abunda na literatura da época. As consideraçoes sobre os acontecimentos de 1914 a 1918 eram de uma acidez extraordinária. Podemos e devemos relembrar, por exemplo, Tristan Tzara, que inspirou em grande medida o projecto surrealista françês. Exilado da sua Roménia natal em Zurique, onde conheceu Lenine, provocou um dos ataques mais directos e frontais á cultura vigente, mostrando um ódio juvenil extremo aos mestres e á civilizaçao que conduziram á hecatombe que a geraçao viveu. O movimento que criou, denominado dadá, procurou o esquecimento da aventura cultural e o início de uma nova forma de entender a sensibilidade e a criaçao. Em 1920, mudar-se-ia para Paris, onde foi recebido com entusiasmo pela tribo surrealista, que assumiu alguns dos princípios que Tzara começara a expressar nos seus periódicos manifestos. Culturalmente, o dadaísmo colheu alguns dos seus mais importantes frutos na França de Sartre, tanto na sua versao literária como na sua projecçao política- e sobretudo no surrealismo. Breton, pontífice do surrealismo e militante activo do confronto cultural contra quem, na sua opiniao, conduziria a Europa ao extermínio e á banalidade, derivará para uma aproximaçao á política comunista a par de poetas como Aragon ou Éluard. Daí que o “Segundo Manifesto” incluia de forma explícita Marx como profeta, juntamente com Rimbaud, o poeta conflictuoso e radicalmente insubmisso em relaçao á cultura europeia. O resultado tem uma dupla natureza: mudar a vida (Rimbaud), mudar o mundo (Marx). E esta vontade de mudar aposta numa radicalizaçao revolucionária de sinais extremos. Sartre está situado neste horizonte marcado pela Primeira Guerra Mundial. Escreverá mais tarde, com uma contundência surpreendente, que o seu ódio á burguesia nunca se vai extinguir: é a civilizaçao que desembocou na ruína e na desolaçao.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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NO MEU BARRIO HAI UN PASEO
moi importante, moi solitário,
e un edificio que están a derrubar.
No paseo nace unha herba
moi verde entre os paralelopípedos
de pedra e entre as pedriñas:
pasa moi pouquiña xente, case ninguén.
En frente, percorrido
polo silencio de gatos noctámbulos,
hai outro paseo
limitado por un gran muro branco
entre dúas antigas farolas de rúa.
Na parte superior deste muro, na terra,
nace e trepa unha enredadeira
que avanta cara abaixo e cara arriba,
enorme, a través dunha rede alta.
Esta trepadeira con flores violetas
entra polos meus soños adentro
levándome ás rexións da miña infancia,
cando eu xogaba cunha trepadeira.
Agora, á noite, trepa tamén a miña infancia.
francisco candeira
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JEAN-PAUL SARTRE (II)
Breve reconstruçao do contexto social e histórico que alimentou o pensamento sartriano recordando a situaçao filosófica em relaçao á qual se posicionou. Para isso, temos de recuar ao coraçao do século XIX, esse momento em que o horizonte filosófico está enquadrado por Hegel, ou seja, pela força do pensamento dialéctico, essa consideraçao do real que entendia os jogos sociais como confrontos que, por fim, se resolveriam num momento esplendoroso, no previsível fim da história. Nao é apenas Hegel que se espraia nesse pensamento central. Disse já que a força do pensamento dialéctico é a marca fundamental do século XIX, e de facto, com as variaçoes que tentam juntar autores como Marx ou Bakunin, o núcleo da dialéctica permanece, como se estas variaçoes fossem secundárias. Contudo a aventura hegeliana começou a ser considerada pelas autoridades conservadoras como um adversário que convinha importunar. A operaçao de ataque tornou-se explícita em 1841, quando Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, que fora condiscípulo de Hegel, com quem partilhara quarto durante o período em que os dois estudaram em Tubingen, foi chamado por Frederico IV da Prússia á Universidade de Berlim, alguns anos depois da morte do seu velho amigo, para tentar “extirpar as sementes do dragao hegeliano”. O monarca sabia que essas sementes tinham começado a florescer na consciência e na práxis do que conhecemos como esquerda hegeliana, esse grupo de jovens estudiosos que tentavam orientar a dialéctica para uma utilizaçao política e subversiva. Tratar-se-ia de uma oportunidade tardia, surgida apenas quando as autoridades se deram conta da “perversao da dialéctica”? A dialéctica seria considerada um perigoso inimigo em 1841? Anteriormente, teria sido um saber inocente e neutro, suportável? Nao me parece que se possa aceitar essa ideia se tivermos em conta a conhecida animosidade e a antipatia que lhe era professada por Schopenhauer, concorrente de Hegel enquanto docente, ferozmente antidialéctico, e que, durante a vida do afamado filósofo, clamou continuamente contra os “disparates” hegelianos e a sua “salgalhada verborreica”. A verdade é que se fora organizando uma frente anti-hegeliana que, por outro lado, nao se apresentava como tal: tratava-se antes de apariçoes dotadas de maior ou menor fragilidade, mas que se foram propagando nas entranhas do ofício filosófico. Foi nesse espírito que apareceu Kierkegaard, que se deslocou a Berlim para estudar filosofia e se declarou partidário fervoroso da subjectividade diferenciada. Toda esta agitaçao filosófica daria lugar á filosofia nietzschiana. Para captar o seu espírito bastará a alusao a “Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral”, ensaio no qual Nietzsche, perguntando-se o que é a verdade, afirma que é “uma multidao móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos”, um conjunto de ilusoes “que esqueceram o que sao”. Como se pode perceber, a revogaçao da filosofia como saber rigoroso é absoluta e o filósofo converteu-se num literato, no sentido mais comum da designaçao-, apesar de nao se apresentar como tal, mas investido da aureóla da respeitabilidade que lhe é concedida por exercer um ofício orientado para a descoberta da natureza das coisas, do homem e da sociedade.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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CANDO CAI UNHA FOLLA
sobre outras follas caídas,
.num recinto asfaltado,
ou entre outras follas deitadas, irmáns,
xorde un silencio sublime, e un ermo.
Chega a folla ao pavimento
e, en silencio, descansa e morre.
Ou non morre, quizais non morre.
Quen morre, por un intre, é o ar.
A morte azul do ar sucede
mentres se desprende a folla e decide cair.
A morte azul do ar é un intre brevísimo,
é un paréntese de eternidade
(a folla imaxinariamente ábrese
en dous semi-ovoides
e cai no silencio).
E quen atinxiu o silencio
e a invisibilidade xa pode
adormecer sen dor,
como esta folla que cai ou caíu
ou como as outras follas xa caídas,
que aínda que mecidas polo vento
ou pisadas distraídamente por alguén,
xa non senten dor,
ou senten unicamente a dor
da súa unida e necesaria indiferencia.
FRANCISCO CANDEIRA
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JEAN-PAUL SARTRE (I)
Assim, juntamente com o que pode chamar-se retórica filosófica, há o facto de o pensamento de Sartre ter tido repercussao precisamente nessa faixa etária a quem interessa a literatura e a filosofia, que o acompanhará tanto na sua etapa existencialista como, posteriormente, quando se aproxima do marxismo como uma actitude crítica. Para compreender a magnitude da obra filosófica e literária de Sartre devemos perguntar-nos como é possível que, desde os anos 30, quando entrou em cena, até á década de 70, quando a cegueira e outros achaques começaram a perturbá-lo, a sua presença tenha sido requerida constantemente por uns e outros, e a sua voz sempre considerada como a de alguém que tinha alguma coisa a dizer. A importância filosófica de Sartre está, por isso, em ter-se convertido numa testemunha privilegiada dos acontecimentos que marcaram o século XX. E “testemunha privilegiada” nao significa literalmente que tenha participado com empenho em todos eles, mas que reconheceu a sua importância para os valorizar e o fez de uma perspectiva filosófica, que se reflectiria nas obras mais importantes que publicou, mas também nas suas inúmeras entrevistas e apariçoes públicas. (…) Convém saber a que circunstâncias permaneceu atento para as abordar numa perspectiva filosófica: em primeiro lugar, a situaçao da filosofia que Sartre encontrou na sua juventude; em segundo, as sequelas da Primeira Guerra Mundial; em terceiro, os efeitos da Revoluçao Russa.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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