
Todas as tentativas se baldaram: non habia barco, non habia tempo, non había maré. Acabei por suspeitar de que também xá non habia rio. O caudal está assoreado em numerosos pontos. Dos quarenta quilómetros de navegabilidade, que as notícias xeográficas indicam, xá só resta pouco mais que a zona do estuário, entre a foz e Portuzelo. Tenho portanto de me contentar com a inexcusábel “volta do Lima”: percorre-se a marxem norte por Portuzelo, Serreleis, Lanheses, Ponte de Lima e aí, conforme as horas do dia que ainda restarem, ou continuo, sempre no vale do Lima mas agora na marxem esquerda, até à Ponte da Barca, ou baixo outra vez para Viana. A estrada abriu-nos o acesso às paisaxens mais fê-lo à custa de muito desperdício. O limite para que se tende é este: unha fita de asfalto pardo e tabuletas de vez em quando a lembrar que a um quilómetro e meio fica isto, a dous quilómetros fica aquilo. Pequenos lugares, voltas de caminhos poéticos e sombrios, pelourinhos, mirantes, outeiros, belas casas, fontes, trechos verdes da beira-rio, tudo isso se perde. A beleza feraz da Ribeira Lima continua a estar lá, mas nós vemo-la cada vez menos. Quando passo por aqui vêm-me sempre à lembrança os passeios do tempo de rapaz, com meu irmán António e o Germano Neves. Andávamos a pé tantos dias quantos fossem precisos. Somávamos assim muitas dezenas, passasse a centena dos quilómetros, mas ficava tudo visto. Agora ficamos a saber que o lugar é bonito e serve para voltar lá quando houber tempo. Mesmo assim, “por esse rio acima”, como diz a cançón do Fausto, há muitas cousas para ver. Os cômoros están agora, na Primavera serôdia, floridos de hortenses e de grandes corimbos que formam cachos de flor.

Em Santa Marta de Portuzelo, nome que o folclore celebrizou, ha na xente um sentimento festivo, como se hoxe todos se sentissem a fazer anos. É recente aquele cruzeiro de pedra, mas fica bem no lugar e non soa a anacronismo. Passa-se a Serreleis, entre quintais de xente anafada e um grande muro de solar que o olhar non transpón. E, durante quilómetros, os muros de alvenaria de granito som a afirmaçón de que isto é terra com dono, terra preciosa que está polo preço da prata. Num ou noutro leirón mais xunto ao rio, o verde frugal da couve alterna com o esplendor das hortas, tudo emoldurado polas latadas de vinha em que até a sombra é de verdura. Unha tabuleta recorda que um pequeno desvio leva a San Cláudio de Nogueira, unha igrexinha que alí se encontra desde o ano 568, e que está ligada com os esforços de San Martinho de Dume para evanxelizar e domesticar os Suevos. O visitante pergunta sempre se aquelas pedras ainda som as primitivas; é como querer saber se estes ossos que cargamos ainda som os mesmos com que nascemos. Os primitivos ermitérios eram pequenos abrigos de barro e de colmo, que com o tempo foram, exactamente como nós, crescendo e robustecendo. Hoube muitas obras, e nesta bela igrexinha românica ainda existe, num cunhal de capela-mor, a data de unha das reconstruçóns: 1183, tempo de D. Afonso Henriques, xá ván feitos oitocentos anos. Mais adiante fica Lanheses, terra antiga recoberta de vestidos novos, sinal de que está viva. Xá perto de Ponte de Lima ficam sempre os olhos presos no Solar de Bertiandos, que é, com toda a razón, tído como unha das obras-primas da arquitectura tradicional portuguesa.

JOSÉ HERMANO SARAIVA E JORGE BARROS













