
Non pudemos voar: recebemos a notícia de que o tempo non apresentaba condiçóns de perfeita segurança, e resolveu-se a viaxem por estrada de ferro. Chegámos à estaçón às dez horas da noite. Aí nos disseram que o trem de Sukhumi partiria às onze, e ficámos a passear na gare, perto das bagaxens. De repente me achei tolhido: os movimentos decresceram, findaram, a voz esmoreceu, os queixos cerraram-se. O frío me atacou de chofre, pior que um acesso de maleita. Xá me había sentido pouco mais ou menos assim em Moscou, certa manhán, quando me arriscaba a andar nas ruas sem agasalho; mas aí podia mexer-me, embora tivesse as orelhas insenssíbeis. Agora me achaba paralisado; nem tremia. Alguém me pôs um sobretudo em cima dos ombros. Com enorme esforço, levantei a gola e meti os botóns nas casas, mas a alxidez continuou. Era aquêle desgraçado vento do Cáucaso. Num país de clima temperado a cruviana descía de golpe e nos pregava unha peça, como se as neves eternas, vistas com respeito dias antes, decidissem abandonar a montanha clássica, entrar na roupa de infelizes americanos desprevenidos. — Com a breca! Esse trem non sai? Afinal saíu. Entrando no carro, mostrei as máns: — Vexam que miséria. Os dedos, até as palmas, estavam brancos, de um branco amarelento, côr de marfím; non había nêles unha gota de sangue. Kaluguin temeu conxelaçón, levou-me ao restaurante. Um copo de vodka. Pouco a pouco a lividez cadavérica atenuou-se, a sensibilidade voltou, os membros emperrados mexeram-se. A temperatura subíu rápida, e o comboio mergulhou na treva. Recolhi-me. Um dormitório confortábel. Por detrás de xanelas e portas bem fechadas, esqueci as perfídias lancinantes que desciam do Cáucaso e adormeci logo. Desembarcámos em Sukhumi pela manhán. Dias antes, de passaxem, tinhamos estado meia hora, enquanto o avión descansava, na cidadezinha de cinquenta mil habitantes. Assim pequena, recebeu título pomposo: é capital da Abkhasia, rexión encravada na Xeórxia. E aqui vemos como é difícil entenderem-se os homes da Unión Soviética. Na Abkhasia quinhentos mil indivíduos servem-se de unha língua muito diversa do xeorxiano. E em certo lugar da Abkhasia surxe um novo idioma. Assim, nunha diminuta república de três e meio milhóns de pessoas usarem-se três línguas. Se o russo non fosse obrigatório nas escolas, teríamos a confusón. E realmente foi por estas bandas, ali à direita, que se ergueu a tôrre de Babel. O impedimento bíblico permanece. Sukhumi é estaçón de repouso. Largas ruas de prédios modernos, sanatórios, balneários; e cardos, palmeiras, unha vexetaçón tropical absurda nestas paraxens, fazem-me achar duvidoso o frío intenso da véspera. Excelentes hoteis. Almoçámos num dêles. E, entrando em automóveis, seguimos viaxem por unha estrada que ciprestes marxinam. Um mosteiro caduco se arruinava num dos contrafortes da serra. Como se chamava? Deram-me o nome, espicharom datas e sucessos; com certeza grafei tudo errado — e non me aventuro a expor conhecimentos arranxados à pressa, nunha carreira de oitenta quilómetros por hora, quase ilexíveis. Oliveiras, bananeiras, figueiras, tânxerinas, eucaliptos. As oliveiras eram-me desconhecidas, mas as outras prantas, familiares, mostravam-me pedaços do Brasil. Para bem dizer, non me sentia estranxeiro; êsses conterrâneos verdes ambientavam-me depressa; tive a ilusón de que a terra hospitaleira me convidava a ganhar raízes também. Rodámos noventa e cinco quilómetros, e à tarde alcançámos Gagra, na marxem do mar Negro. É um lugarexo arrumado a capricho, onde passam as férias numerosos trabalhadores da Unión Soviética. Um grande parque. Os edifícios novos de colunas altas, feixes de colunas, fizeram-me pensar nos palácios vistos em Tbilissi. No xardinzinho do restaurante, quebravam a monotonia das flores algunhas bananeiras enfezadas, magras, insignificâncias que non dariam frutos. Vendo essa beleza dexenerada, um brasileiro xulgou-a decorativa. Em frente ao pequeno hotel, próxima, estendia-se a praia escura. Necessário descer, pisar nela, ver com respeito as águas que trirrêmes gregas percorrerom. Seriam na verdade trirremes? De qualquer forma os gregos andarom por aqui, isto é um mar histórico em excesso, precisamos dedicar-lhe reverência. As ondas fabricaram obras de arte curiosas que ranxem debaixo dos nossos sapatos americanos, bárbaros. Difícir marchar sobre essas cousas venerandas, instábeis: pedrinhas esféricas, ovais, chatas, unhas negras cobertas de elipses brancas, certinhas, a exibir unha xeometria digna de aprêço. Non resistimos ao desexo de guardar alguns calhaus cheios de curvas e trapalhadas. Bons para segurar papéis. Meses depois, em nossa terra, à banca, revolvendo os miolos, suspenderíamos o trabalho às vezes e, olhando os traços claros em fundo prêto, lembrar-nos-íamos de Kaluguin, da sra. Nikolskaya, das lendas homéricas.
GRACILIANO RAMOS (4 DE AGOSTO DE 1952)













