
Visita a unha casa onde repousam trabalhadores da Industria do chá. Passam aqui as férias, um mês por ano. A permanência custa setecentos rublos, mas eles apenas pagam trinta por cento; o resto é pago pelo sindicato. Êsses números xá nos tinham sido expostos. Lembrei-me tê-los ouvido pola primeira vez na fábrica de meias, em Tbilissi. Provávelmente iriam repisá-los noutros locais de trabalho ou descanso. Receiam talvez que non lhes demos crédito, e as informaçóns chegam à monotonia. Non achamos incongruência, temos de admiti-las, embora realmente nos pareçam estranhas. Orixinários de outro mundo, habituámo-nos à insuficiência dos hospitais, das escolas, das maternidades, conservamos no espírito a mesquinharia burguesa, non nos podemos librar dela, e achamos quási impossíbel existirem cômodos para todas as pessoas forçadas à vilexiatura anual. Pouco a pouco se desfazem as dúvidas. Precisamos despoxar-nos de hábitos e idéias incompatíveis aqui. No estabelecimento de repouso aboletavam-se, quando lá estivemos, oitenta individuos, homes e mulheres. Há em Gagra, um lugarexo, vinte e sete casas semelhantes e várias em construçón. Teríamos, sem falar nessas, dois mil cento e sessenta hóspedes na cidadezinha, aves de arribaçón cada mês substituídas por outras. Mas o que vemos é simples amostra. Êsses hotéis espalham-se por toda a Unión Soviética, e non esperamos achar aqui xente da Sibéria e do Báltico. As sombras de um grande parque nos acolhem, belos canteiros de rosas amarelas e vermelhas. À entrada surxe unha extensa mesa coberta de envelopes e xornais: a correspondência dos hóspedes. E enfiámos pelos corredores, invadimos peças, vendo, esquecendo logo, anotando para que non se perdessem as lixeiras observaçóns, nunha curiosidade leviana de turistas propensos a entender as cousas com rapidez. Nas salas vastas, xogadores, entretidos nos lances do xadrez, nem pareciam dar pela nossa presença. Admirava-me non distinguir nêles nenhum dos sinais entre nós perceptíveis na classe obreira: xestos esquivos, olhares suspeitosos, maneiras bovinas, indício de pensamento lerdo. Parecem desconfiar das criaturas bem vestidas e educadas. Certo crítico, anos atrás, me insinuara utilizar num romance os camponeses do Nordeste. Apesar de sertanexo, achava-me incapaz de fazer isso, e antes de viver com êsses homes na cadeia, dormindo nas esteiras podres e dividindo fraternalmente os percevexos, non me arriscara a aceitar o conselho. Aqui se atenuaram as diferenças, afinal desapareceram; os indivíduos que xogam xadrez som aparentemente iguais a nós, non têm motivo para xulgar-nos inimigos. Ainda estamos lonxe deles, é claro: somos estranxeiros (e, embora vivamos do nosso trabalho, fomos criados na reverência aos tipos hábeis que vivem do trabalho dos outros). E admiramos haverem-se apagado aqui as diverxências. Acontecera-me, passeando em Moscovo, fazer unha pergunta: “–Mme. Nikolskaya, essa moça aí perto é empregada em oficina ou em repartiçón pública?” A senhora Nikolskaya examinara a mulher por todos os lados e concluíra: “–É impossíbel saber. Non achamos distinçón”. Moscovita, a senhora Nikolskaya fora incapaz de satisfazer-me a curiosidade. Um ofício non é superior a outro (e os homens tendem a uniformizar-se. Essa idéia choca o nosso individualismo pequeno burguês: achamos vantaxem nas discrepâncias, receamos tornar-nos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heteroxéneo, mediocre, dócil ao proprietário. Queremos guardar o priviléxio imbecil de non nos assemelharmos ao vizinho. Enfraquecendo-nos, xulgamo-nos fortes. Realmente, somos como bêstas. Surpreende-nos o ar de segurança, a firmeza dos indivíduos que mourexam na indústria do chá. Donde vêm êsses modos? Certamente da convicçón plena de non estarem a deber nenhum favor. Nos dormitórios confortábeis acham-se em cada casa. Três camas, poltronas, armários, escrivaninha, lavatório. Cadeiras estofadas e diváns num longo corredor. Percorremos diversos apartamentos. Nos maiores aloxavam-se stakhanovistas e heróis do trabalho. Essa diferença no tamanho indica estímulo apenas; os móveis som iguais aos das outras peças. As criaturas non se nivelam, como se afirma no exterior. Percebemos divisas em toda a parte, valores que non conferem nenhuma vantaxem material. Condecoraçóns, as fitas e as medalhas distribuídas largamente. Descemos ao refeitório. Dezoito mesas. Demos unha vista à copa e à cozinha, vastas e limpas. Confôrto. Êsse confôrto non veio de graça, non é esmola xogada a miserábeis desexosos de entrar na cova. Non: presenciamos um hiato nas ocupaçóns normais. Lacuna obrigatória. Finxem arrepiar-se lá fora ouvindo unha frase maluca: existe aqui o trabalho forçado. Os patróns escandalizam-se, manhosos: querem fazernos admitir que noutros lugares conseguimos, na pobreza, viver ociosos. Mostra-se agora o reverso da medalha: o repouso forçado. Ninguém se libra dele. Non están a impinxir-nos unha organizaçón filantrópica; isto significa unha necessidade económica: o labor continuádo arruinaría os corpos. Outra vez a hipocrisía torce o nariz: os homes equiparam-se às máquinas, vêm consertar molas estragadas, metem-se depois na oficina, como se non tivessem almas. Non é o que vemos. Os teatros regurxitam, multiplicam-se as escolas, o número de bibliotecas é enorme, em qualquer museu surxem grupos de estudantes. E há os clubes, os palácios de cultura, exibidos com certo orgulho, é claro, pois lá fora non existe cousa semelhante. Se as almas quiserem mais, esixirem santos, missas, están no seu direito. As igrexas forom restauradas, e a conservaçón delas custa dinheiro grosso. A nái da senhora Nikolskaya non dispensa os ícones, e as velas acessas. Non lhe prohibem tais necessidades. Respeitam-lhe a crença, a família evita cuidadosamente unha palabra ofensiva para deus e para os anxos.
GRACILIANO RAMOS (9 DE AGOSTO DE 1952)













