A APROXIMAÇAO TEÓRICO-POLÍTICA AO MARXISMO (XV)

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               Quando é que Sartre conhece o pensamento marxista? Em 1974, recordará que se aproximou pela primeira vez de Marx no terceiro ano dos seus estudos na École e que a leitura lhe provocou “o efeito de uma doutrina socialista, que pareceu bem justificada.  Disse-lhe” – continua a dirigir-se a Beauvoir – “que julgava que a compreendia, e que nao compreendia nada, nao via que sentido podia fazer nesse momento.  Compreendia as palavras, as ideias, mas nao que se aplicassem ao mundo presente, que o conceito de mais-valia tivesse um sentido actual”.  Terao de passar vários anos até que Sartre esteja em condiçoes de se aproximar e criar uma polémica ao mesmo tempo.  A aproximaçao de Sartre ao marxismo e á política comunista leva-nos ao início da década de 50:  começa a etapa do compromisso.  Mas a verdade é que, antes de 1952, quando dá início á publicaçao de “Os Comunistas e a Paz”, o compromisso como actitude necessária para consolidar a liberdade individual e os direitos colectivos, já existia.  Parece-me importante referir duas circunstâncias que considero incontornáveis.  Em primeiro lugar, nao devemos esquecer que Sartre impulsionou a fundaçao de “Les Temps Modernes”, revista cujo primeiro número aparece em outubro de 1945:  é importante destacá-lo porque a apresentaçao de “Les Temps modernes” abre com uma afirmaçao  categórica.  Sartre denuncia que “todos os escritores de origem burguesa conheceram a tentaçao da irresponsabilidade: há um século, esta tentaçao constitui uma tradiçao no curso de Letras”.  E anuncia, para justificar a finalidade da revista, que a “intençao é contribuir para que se produzam certas mudanças na sociedade que nos rodeia”, sempre na perspectiva de analisar a liberdade, porque, embora esta pudesse passar por uma maldiçao, “e é uma maldiçao…  mas também é a única fonte da grandeza humana”. A tese da “literatura comprometida”, que seria preciso entender como do “intelectual comprometido”, abre caminho.  Mal compreendida com muita frequência, essa tese implica apenas a sugestao que o “escritor-intelectual” tenha em conta os problemas que o situam como cidadao no mundo: nao se trata da desvalorizaçao do “literário”, isso seria outro assunto, mas, estrictamente, do posicionamento numa referência necessária na escrita aos acontecimentos que interessam ao cidadao.  Em segundo lugar, nao há dúvida de que Sartre vai levar muito a sério a intençao na criaçao da revista, que dá os primeiros passos com o apoio inestimável de Merleau-Ponty, Beauvoir e Aron, entre outros.  Sartre ilustrará literariamente a tese do “intelectual comprometido”.  Em 1948, estreará “As Maos Sujas”, uma peça destinada a defender a necessidade de o “intelectual tradicional” sair da “torre de marfim” – embora com uma crítica aparentemente feroz ao perfil comunista:  as razoes serao compreendidas de seguida – e entregará o guiao cinematográ- fico de “A Engrenagem”, filme que insiste na tese da necessidade do compromisso.  Mas o mergulho sartriano na realidade social, cuja urgência fora anunciada na conferência de 1945 a que nos referimos antes, nao tem apenas uma perspectiva literária. Por volta de 1947-1948, Sartre já se dedicou a impulsionar um mo- vimento político que baptizará com o nome de RDR – siglas do Rassemblement Démocratique Révolutionnaire – e que pretende ser uma alternativa aos compromissos gaullista e comunista.

J. L. RODRIGUEZ GARCIA

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