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dispostas no chan con azarosa placidez, xuntas,
se un bris as fai vibrar, saberán arrastrar
os homes cara a un sitio incerto, máxico, levemente.
Levarán o mundo cara a Ningures,
alí onde os cetros e as espadas, vigorosas,
sen misericordia aniquilarán á Morte.
Depois renacerá alborozadamente a Vida
chea de sons, herbas, estanques estrelados e levidade intensa.
francisco candeira
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O LUGAR DAS IDEIAS
O Erasmo de carne e osso, marcado pelas dificuldades que teve de enfrentar desde o berço, pelos seus problemas de saúde, pelo risco de cair na pobreza e pela sombra contínua de ver-se obrigado a regressar a Steyn, vai dando lugar ao Erasmo de papel, um homem que, á força de perseverar, consegue transformar-se no erúdicto mais reconhecido de toda a Europa numa época de gigantes da erudiçao. Duas décadas prodigiosas, 1511 – 1531, vê-lo-ao moldar-se e modelar um mercado editorial que recebe o que publica com uma voracidade inaudicta, só superada por Lutero. Tudo o que Erasmo escreve é um éxito comercial quase antes de a tinta começar a secar sobre o papel e o ritmo de produçao, revisoes e reediçoes de cada uma das suas obras vai requerer uma infraestructura editorial que possa dar um impulso á procura e que lhe ofereça uma plataforma eficiente a partir da qual enfrentar o maior dos seus males e, talvez, o mais inesperado: a sua fama e as polémicas que traz associadas numa das épocas mais convulsas da história da Europa. Johann Froben (1460 – 1527), o editor escolhido para esta difícil tarefa, já tinha feito nome no mercado livreiro europeo dos princípios do século XVI pela beleza e cuidado com que imprimia cada um dos seus títulos. A partir de 1514, os destinos literários de ambos os homens estarao a tal ponto ligados, que Erasmo acabará por instalar-se em Basileia para poder escrever, supervisionar a composiçao e rever os ariginais ao ritmo que o mercado, o seu projecto intelectual e, paulatinamente, as circunstâncias lho exigem. Froben e Erasmo, e o círculo que se forma á volta de ambos, serao os responsáveis por converter Basileia numa das capitais do humanismo europeu e, (…) Da sua popularidade, da sua productividade, da sua tendência para a revisao e para a ampliaçao continua das suas obras e, porque nao dizê-lo, do seu estatuto como fetiche literário, fala o pedido que Johann von Botzheim (1535) dirige a Erasmo em 1522: gostaria que lhe indicasse as melhores ediçoes de cada uma das suas obras para poder incorporá-las á sua já magnífica biblioteca. Em janeiro de 1523, Erasmo remete-lhe uma extensa carta onde se encontra um catálogo organizado e comentado de toda a sua produçao. Johann Froben, sempre atento ás possibilidades de negócio, imprimirá uma versao ampliada e actualizada em 1524 e o seu filho e herdeiro, Hieronymus (1501 – 1563), outras duas: a primeira um ano depois da morte de Erasmo (1537) e a última e definitiva é incluída no material introductório da ediçao de Basileia das Obras Completas (1540). No Catálogo, Erasmo divide as suas obras em nove grupos distintos: as obras filológicas e humanísticas, os Adágios – que deveriam entrar na categoria anterior, mas que pelo seu volume e entidade firmam uma categoria própria-; a correspondência, os tratados educativos, as obras de carácter piedoso, a ediçao anotada e traduçao do Novo Testamento, as Paráfrases ao Novo Testamento, os textos de carácter polémico e apologético e uma selecçao de ediçoes e traduçoes dos padres da Igreja. É importante referir, para o leitor atento, que Erasmo destribui as sua obras por áreas temáticas, além de estas seguirem “grosso modo” uma ordem temporal estreitamente vinculada á sua biografia. Por outro lado, a divisao da sua obra por âmbitos de interesse pode dar a impressao – correcta em geral – de que Erasmo nao era um pensador sistemático de acordo com os cânones actuais, mas há que acrescentar que para um leitor medieval ou renascentista a visao de conjunto oferece uma estructura coerente: a progressao a partir da humilde gramática, ponto de partida e assistente de todas as disciplinas do saber, até ao cume para o qual todas elas preparam e a que todo o conhecimento se deve dirigir, isto é, a teologia. Assim, os dois últimos blocos constituem na verdade uma espécie de apêndices ao pensamento de Erasmo, onde as polémicas mantidas com os seus numerosos críticos durante as duas últimas décadas da sua vida vao lado a lado com a cultura dos padres da Igreja, que servem como autoridade indiscutível e luz sob a qual estas devem ser lidas.
JORGE LEDO
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presidida, fóra, por un cácano (os froitos
son moi doces e da cor das laranxas).
Beixo as paredes deste pardiñeiro
con tellas novas
querendo rubir como ascende
unha avelaíña de luz ou unha barata
só disposta a procurar no escuro.
Beixo estas paredes (esta única parede perdida)
e non beixo unha sombra
nin a ausencia dunha sombra
(non podo beixar as sombras
das persoas que coñezo:
a miña avoa, que recitaba versos
de Rosalía
-nunca saberei por qué non souben bicala
cando me acenou o último adeus-,
o meu bisavó que no retrato
usa barba sen bigode)
Debo de estar a beixar unha presenza oculta
do tempo: a pura ausencia
da ausencia de sombras.
Debo de estar a beixar un carreiriño de terra
feito destraidamente no interior desta estancia
tal como un neno modela para un belén
un riacho con papel de prata.
Creo que estou a beixar esta parede
(estas paredes recuperadas)
e creo que estou beixando un exército
desarmado de sombras,
ou desarmado e armado de sombras:
isto é, non estou soñando,
estou a beixar un exército de nubes,
chorando, e case non me avergoño
de estar chorando
porque estou beixando
unha nube,
ou unha nube gris
e unha patria branca, moi branca, branquísima.
FRANCISCO CANDEIRA
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POR FIM, ITÁLIA
Na primavera de 1506, o genovês Giovanni Battista Boerio, médico pessoal de Henrique VII de Inglaterra, consulta Erasmo sobre a sua disponibilidade para ser preceptor dos seus filhos, Giovanni e Bernardo, durante os estudos que estao prestes a empreender na Universidade de Bolonha. A sua tarefa, neste caso, parece puramente testemunhal, dado que os rapazes já contam com um tutor a seu cargo, Clyfton, que Erasmo unicamente terá de supervisionar, servindo-lhe de apoio durante o seu primeiro ano em Bolonha. Assim, como um cargo pouco exigente que lhe permite dedicar-se aos seus estudos, por fim estarao reunidas as condiçoes favoráveis que lhe permitirao realizar, perto dos 40 anos, o sonho de toda a sua vida: visitar Itália. Mas antes de a tipografia de Bade começar a trabalhar para Erasmo, este reúne-se a 8 ou 10 de agosto nos arredores de Paris com os seus pupilos, com Clyfton e um grupo de criados. Daí partem em direcçao a Turim. (…) Erasmo olha para trás para contemplar o longo caminho que tivera de percorrer para adquirir uma formaçao que em caso algum dá por terminada. A primeira paragem do grupo é Turim, cidade cujas gentes Erasmo destaca a afabilidade, e cujo “Studium generale” lhe concederá o doutoramento em teologia a 4 de setembro. …O grupo continua a sua marcha rumo a Bolonha fazendo uma paragem em Milao, onde Erasmo tem a oportunidade de ver “A Última Ceia” de Leonardo da Vinci. Quando por fim chegam a Bolonha, constatam que a cidade está prestes a sofrer um cerco, o que os obriga a dirigirem-se a Florencia. O papa Júlio II, á cabeça do seu próprio exército e em aliança com os franceses, assedia Bolonha e derrota os Bentivoglio rapidamente, Erasmo terá a oportunidade de observar, entre a incredulidade e a indignaçao, a entrada triunfal do papa em Bolonha a 11 de novembro de 1506,(…) nao sem antes ter aproveitado o tempo em Florença Erasmo, para traduzir alguns novos diálogos de Luciano… “Neste momento os estudos estao parados em Itália, enquanto as guerras prosperam. O Papa Júlio está a chamar para a guerra, conquistando e encabeçando marchas triunfais; de facto, está a tornar-se num Júlio (César) em vida.” (…) quem deveria evitar que os cristaos se matassem entre sí e exercer como lider espiritual da Europa, em vez de ser mais um senhor feudal. A sua adversao face a Júlio II ainda se verá exacerbada quando tiver a oportunidade de ver em primeira mao Roma e conhecer membros do cardinalato e da cúria papal. (…) Entre a decepçao desponta uma luz: Paolo Bombace (Paulus Bombasius, 1476 – 1527, um jovem professor de poética e retórica que está quase a receber uma cátedra de grego na universidade. Bombace oferece-se para ajudá-lo nos seus estudos e devido á afinidade intelectual que surge entre ambos, (…) Em 1533, seis anos depois do falecimento de Bombace e três antes do seu, Erasmo recordá-lo-á com grande carinho e retratá-lo-á como uma das mentes mais puras que teve ocasiao de encontrar. (…) Em 1507, com a chegada do outono, Erasmo vê-se por fim eximido das suas obrigaçoes como supervisor de Clyfton e tutor dos irmaos Boerio, o que lhe permite movimentar-se á vontade pela península. A 28 de outubro escreve uma carta a Aldo Manuzio (c. 1449 – 1515), o maior editor de Itália e o pai do livro moderno, ó que faz acompanhar das suas traduçoes latinas da Efigénia e da Hécuba de Eurípides (…) Erasmo remete-lhe as correcçoes do texto e decide mudar-se para Veneza. Um mês depois, o seu Eurípides aparece reimpresso e livre das numerosas erratas da primeira impressao a cargo de Josse Bade. As normas entre os muros da “Academia aldina” eram estrictas. Todos os residentes deviam comunicar-se unicamente em grego, e qualquer erro no idioma, ou a mudança intencionada ou inconsciente para o vulgar, era sancionada com uma multa. (…) Ó paraíso do conhecimento une-se a muito menos idílica pintura da vida naquelas paragens, que Erasmo retrata no seu colóquio “Opulentia Sordida” (1531): sujidade e ar viciado pela utilizaçao de aquecedores, abundância de pulgas nas camas, comida rançosa e mal cozinhada, pior vinho e separaçao estricta de homens e mulheres. (…) A publicaçao da obra representa o fim da sua estada veneziana. No início de novembro de 1508, Erasmo muda-se para Pádua para se transformar em tutor de Alexandre Stewar (1493 – 1513), filho bastardo de Jaime IV da Escócia (1473 – 1513), e do seu irmao Jaime. Um mês depois vê-se forçado a abandonar Pádua com medo de uma guerra iminente; o destino agora é Ferrara, e depois virao Siena, Roma – onde a fama dos “Chiliades” o precede e recusará numerosas ofertas para estabelecer-se na cidade -, Nápoles e, de novo, Bolonha, para partir rumo a Inglaterra encorajado pela prometedora ascensao ao trono de Henrique VIII.
jorge ledo
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A morte puidera non existir.
A morte existe porque existe
o Poder
o Diñeiro
o Sistema
a Economía
o Estado
o Capital
o Idioma
a Patria
a Escola
a Universidade
a Familia
a Historia
a Relixión
e outras cousas máis polo estilo
(e con esta enumerazón
non quero ofender a ninguén – !Coidado! !Quede claro!)
Mais a morte podia ser cousa distinta, podia non existir…
ou melhor: podía existir doutra maneira.
O morrer inesperado sería moi doloroso, non tráxico.
E quen vai morrendo preso ás mans dos amados – máis que vellísimo –
sentiría tristura e pena, e dolor pura, non dolor tráxica.
Mais a morte, se non existise, é un traspaso
dunha nube pequeniña a outra nube diminuta
que, entrechocando, acenden un sol humano (divino):
acéndese un sol visíbel (pequeniño e grande) e non se deixa
nada: vai crecendo a irmandade, a igualdade, a fraternidade
e a sabeduría. Deixamos moito, todo: alegría.
Abandonamos a liberdade con pena (comprensón) – non con dolor.
A nosa desaparizón sería celebrada
no cume dun monte, vestidos os irmáns con togas frouxas, negras,
co rostro oculto (cuberto), e só se vería un círculo inmenso
de mans, entrelazados os dedos, baixo unha noite de luar intenso:
e as mans todas brillando como nunca. E en silencio
unha coruxa de catro rostros diante.
E todos saberían que mañá danzarían xuntos,
traballando e rindo, batallando, baixo un sol bo e poderoso.
FRANCISCO CANDEIRA
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ESTUDOS EM PARÍS
Graças a uma carta de recomendaçao de Van Bergen, dos cerca de quarenta colégios – centros onde muitos dos estudantes residiam e estudavam – que no final do século XV dependiam da Universidade de París, Erasmo ingressou no Collége de Montaigu. O centro tinha sido fundado em 1314 por Gilles Aycelin de Montaigu (1252 – 1318), bispo de Rouen, e diversas razoes o tinham levado ao estado practicamente ruinoso em que Jan van Standonck (1453 – 1504) o encontrou quando se tornou no seu reitor em 1483, Van Standonck tinha sido educado pelos Irmaos da Vida Comum em Gouda e tinha-se douctorado em teologia pouco tempo depois. Ele e Van Bergen conheciam-se porque aquele o tinha ajudado a levantar várias escolas em Malines e em Cambrai, antes de se mudar novamente, para París. Van Standonck era um homem severo, austero e com uma tenacidade admirável, e era também um homem sem medo, Erasmo recordará que em 1499 tivera coragem para sugerir a falta de ponderaçao de Luis XII (1462 – 1515) quando o monarca quis levar para a frente o seu divórcio, mesmo que isso lhe custasse o seu exílio de França: A regra pela qual se regia Montaigu dependia directamente dos estatutos dos Irmaos da Vida Comum, mas era particularmente severa em aspectos da vida monástica e do ascetismo medievais, Assim, desde a sua entrada submetiam-se os estudantes a um estado de jejum practicamente perpéctuo, com uma dieta mínima que consistia num copo de vinho avinagrado reduzido com água, farinha de arenque e ovos habitualmente podres. Todos os alunos deviam estar de pé ás quatro da manha, mas nao era raro obriga-los a levantar-se á meia-noite para orar, açoitá-los por qualquer infraçao insignificante ou encorajá-los a denunciarem os seus companheiros se detectavam algum comportamento fora da norma. A recordaçao de Erasmo três décadas depois no seu colóquio “Ixtiofagia ou comer peixe” (1526) nao é muito mais amável: O colégio era regido por Jan van Standonck, um homem cujas intençoes estavam, longe de qualquer censura, mas que teria encontrado totalmente carentes de bom juízo (…) Num ano tinha conseguido matar muitos estudantes muito capazes, dotados e prometedores, e a outros, conhecidos por mim, reduziu-os á cegueira, a ataques de nervos ou contagiou-os com lepra. Nao havia nem um único estudante que nao estivesse em perigo. Após um ano académico, que posteriormente denominará “escola do vinagre”, Erasmo, encontra-se doente e consideravelmente debilitado pelas condiçoes de vida em Montaigu. Decide mudar-se no início do verao para casa de Van Bergen de modo a poder recuperar, embora durante toda a sua vida atribua os seus problemas de saúde ao seu primeiro ano de estada em París. No final do verao, decide nao repetir a experiência e alojar-se com os seus próprios recursos numa pensao, com a resoluçao de que nada, e muito menos o regime de vida, interferisse nos seus estudos.
JORGE LEDO
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acumúlanse as pombas
entre as bufardas.
Máis arriba, na torre da igrexa,
a campá balancea e toca.
Unha pomba, ou tres ou catro,
ensaian, namentres, un efémero voo.
Voltan a pousar. Outras pombas
se elevan de novo.
(De todo provén a sustancia
do irreal).
A música, que non os toques,
abrangue todo:
é de todas as pombas,
ou de ninguén, nin do poeta,
ou quizais unicamente, neste poema,
do edificio baleiro
e da árbore á retaguardia,
que, contida, só ás veces
se move, trémula, pracenteira, suave
e para min lonxana, tan lonxana
como o edificio baleiro,
misteriosamente ocupado por
unha franxa de sol
e unha faixa de sombra.
FRANCISCO CANDEIRA
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Durante o século XIV, as províncias de Frísia e de Groninga, juntamente com a cidade de Deventer, foram os territórios dos Países Baixos mais assolados pela peste negra, com registros que remontan a 1350 e 1351. De todos os surtos, talvez o mais severo para a ordem dos Irmaos da Vida Comum tenha sido o que decorreu no verao de 1398, ao ponto de muitos dos seus membros, furtando-se aos seus deveres de cuidado a doentes e necessitados, um dos preceitos fundamentais da ordem, abandonarem a cidade para evitar o contágio. O século XV foi, se isso fosse ainda possível, pior em Deventer. Os surtos continuaram e em certas ocasioes foram até mais virulentos. Os anos de 1483 e 1484 foram especialmente difíceis. Basta recorrer aos testemunhos da época para ter uma ideia da intensidade do surto desses dois anos. Em 1483, dois amigos, ambos contagiados pela epidemia, tentaram encontrar um magistrado em Deventer para se tornarem mutuamente testamentários em caso de falecimento. Foi em vao. Todos os funcionários e cargos oficiais tinham abandonado a cidade com medo de contrair a doença. Em 1484, ano que marcaria definitivamente o destino de Erasmo, o golpe da peste foi tao violento em Deventer, que de um grupo de vinte e cinco estudantes de Sao Lebuíno só sobreviveram cinco, As aulas, é evidente, foram suspensas e os estudantes que estavam hospedados na residência dos Irmaos da Vida Comum, abandonam-na; no caso de Pieter e Erasmo, aquando do seu regresso a casa encontram a sua mae a agonizar. Sozinhos numa cidade assolada pela peste, percorreram os 113 quilómetros que separam Deventer de Gouda para se refugiarem na casa paterna. Ao chegarem lá, descobrem que o seu pai também tinha contraído a doença e que, pouco tempo depois, morreria… para prosseguirem os seus estudos, ficariam alojados na “domus pauperum scolarium (casa dos estudantes pobres) dos Irmaos da Vida Comum. Naquela que é conhecida como carta a Grunnius, redigida por Erasmos em 1516 – mas só publicada na sua colecçao epistolar (Opus Epistolarum) de 1529 – recordará este período num tom sombrio que já se torna familiar: “Se os irmaos, veem um rapaz cuja inteligência é mais elevada e activa do que é habitual – como costuma ser o caso dos rapazes dotados e capazes -, a sua meta é quebrar-lhe o espírito e submetê-lo a castigos corporais, ameaças, recriminaçoes e várias outras artimanhas – discipliná-lo, chamam-lhe eles , até o fazerem encaixar na vida monástica. Por isso sao tao populares entre os dominicanos e os franciscanos, que afirman que as suas ordens ficariam sem monges se nao fosssem os jovens que os irmaos lhes disciplinam. Uma “educaçao” de tal calibre, baseada no medo e no doutrinamento, opunha-se diametralmente ao que tinha, atraído Erasmo para o estudo, isto é, o carácter libertador que reside em toda a cultura, na possibilidade de acceder á grandeza da antiguidade clássica através das suas obras mais elevadas – aquilo que ele denomina como “os melhores autores”-, e a oportunidade de ver o mundo através da lente que estas concedem e, ao imitá-las alcançar uma voz própria merecedora dessa mesma grandeza. Deste ponto de vista, o mosteiro era para ele pouco mais do que uma fábrica de embrutecimento.
JORGE LEDO
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dun chisqueiro antigo, Vin antes as faíscas
e a man en acción, aberta, firme. Un pito
acéndese como renace un rito
remoto, total, mítico.
Do fondo da estancia chega o xesto
dun rostro escuro, anónimo,
non discirno os seus rasgos,
unánime como a luz fatigada
da estancia.
Procedo a irme, digo até á mañá
e nestas precisas e afeitas palabras
xa presinto as luces da noite
na rúa, as sombras movedizas,
a soidade do meu cuarto, un fume
perseguido con poutas,
e probabelmente aquilo que máis
sospeitosamente olvido:
o Barco dos Loucos a discorrer fantástico
no mar do mencer.
E presinto estas cousas porque aquelas faíscas
primeiras na sala nocturna e indecisa
xa anunciaban de golpe o mencer, por un intre
lumeira que renace día tras día
porque á noite atingue
verbas de liberdade, seiva ardente.
FRANCISCO CANDEIRA
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Tranquilidade, boa mesa, e unha das melhores cozinhas de Lisboa e arredores. Ainda que fica nos arrabaldes da cidade, é um dos meus restaurantes mais queridos. Fica em Carnide, e é um dos grandes embaixadores da cozinha dos “terratenentes do Alentejo”, sendo o seu prato bandeira o cozido de gran com enchidos e carnes. Há sempre vários entrantes tradicionais da rexión do sul do Texo, e atesoura tamém unha boa garrafeira, para quem sabe apreciar estas cousas banais. O meu melhor banquete nesta casa, á que venho várias vezes por ano, foi unha soberba “Açorda de Perdiz”, cuxo pecaminoso sabor, afoguei com um condenado “Pera-Manca”, vinho tinto superlativo da Cartuxa de Évora. !!Amén!!
léria cultural
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“Plinio el Joven, en el libro tercero de sus Epístolas,
escribe que no hay libro tan malo que no tenga algo bueno.
Este dictamen, que Cervantes leyó, confirma mi sospecha
de que la belleza es común.”
J. L Borges
A beleza fainos tremer. É repentina, insólita.
En certo sentido a beleza parécenos repentina, sublime.
E cando falo de beleza
falo de certas persoas, dalgúns libros, de precisas paisaxes,
de escolleitas obras de arte, de luces e sombras, de cidades…
Quizáis para min a beleza sexa un Exceso.
Pero a beleza en sí non é un Exceso: é simplemente
unha deslocazón no Espazo e no Tempo.
Tamén ten que ver coa miña limitazón.
(Agora si que vos fastidiei.
Agora con esta sentencia
rarefeita, boquiaberta, intransmisíbel
si que vos amolei, e ben amoladiños, ¿non si?)
E cando falo de beleza
non falo de min, evidentemente, falo de outros seres e de cousas alleas.
E non quero dicir que eu sexa insoportábel,
xa se sabe que non o son…
mais a mitoloxía que busco – a mitoloxía que leo a diario –
quizais sexa INQUIETANTE:
odiada – por vós -, atractiva – para vós (os poucos que me facedes caso).
!Ai daqueles que naceron para correr
tras ríos subterráneos!
!Só os ríos que van dentro tremen.
E porque corre moi lonxe, unicamente o(s)
Río(s) Negro(s) ilumina(n) a LÚA
a FESTA
a SANTA COMPAÑA
a RAZÓN
a PATRIA
TODO O QUE NON É
NOSO MÁIS BRILLA
EN NÓS!
E como odiades as miñas leituras
voume quedar por aquí. Ide, ide
tomar baño prós rios de verdade,
en calzoncillos chupade xelados,
e mirade pró sol cos ollos pechadiños…
!Fai unha calor que até o sol anda coa boca
aberta!
francisco candeira
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Zana nasceu na Bahia, mas é no Porto onde agora moura, aí dá a conhecer os pratos típicos do Salvador. Tem man para os temperos? Tem! Tem unha alegria que contáxia? Tem! Tem boa conversa? Tem! Rosana da Hora, ou Zana, para os amigos, non se aproximava da cozinha quando vivia em Salvador da Bahia, no Brasil, com a família, a sua nái a chamava para axudar e non podia porque tinha feito a unha, confessa. Mas as saudades da comida da terra fizeram com que começara a cozinhar. E non foi preciso ler livros, nem experimentar receitas. Aprendeu sozinha, enquanto via a família nos fogoes. Em 2012, veio para o Porto, e há dois meses decidiu xuntar o útil ao agradável, abrir a sua casa a quem quisesse provar os pratos típicos da Bahia. Tinha sempre a casa cheia. As pessoas vinham, comian feixoada quase sempre, por ser mais práctico e mais barato, e xuravan que a comida era boa. Na mesa podem sentar-se entre seis a oito comensais, é a “casa do povo”, como Zana lhe chama: dadinhos de tapioca, fritos com azeite de palma e dêngue, moqueca de peixe com arroz branco e pirao, para sobremesa “cocada-de-forno”, um prato de coco fresco ralado, ovos e leite condensado. Tudo o que é bom na Baixa do Porto, entre 18 e 25 euros por pessoa, e é um lugar recomendado para quem ainda poida gostar de conhecer xente.

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léria cultural
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A luz de arriba, do teito, está apagada.
Entro no cuarto de baño como quen entra
nunha bocarribeira.
Axiña abro a villa do meu lavado.
E entón xorde de socato un río,
un río á noite, escuro, correndo
con todo o silencio dos deuses á noite,
rodeado de plantas e perfume de champú,
con palabras en círculo e rectas sonoras.
Estou na ourela do río da miña villa
mollando a sombra do meu corpo,
a carne en sombra do meu corpo,
non o meu corpo branco que aman
mulleres moi brancas na sombra,
non o meu corpo que entra escuro
nas albas máis isoportabelmente
brancas de outros homes condenados.
Estou na bocarribeira da miña villa
espreitando as sombras dun río fondo
a través destes canos invisíbeis
que van do meu cuarto de baño
aos ríos subterráneos da cidade.
E unha certa sombra de min escapa
pola canería: solitaria, sobrante,
case allea. (Estudiarei a morte de Antínoo).
(E estudiarei, e non serei quen de medir
o Tempo branquísimo que, sen eu saber,
habitaba na sombra dos xoguetes da infancia).
Estou pois na ourela dun río profundo
cando, escuro, estou á beira do meu lavabo.
Estou nun bosque verde, oloroso, en sombra.
Mais axiña acendo as luces de apliques, tan próximas,
a cada lado do espello, primeiro unha, despois outra.
Non acendo a luz do teito, a central.
E entón véxome enseguida entrando
pouco a pouco na alba dun Hospital.
Este Hospital sería un Hospital de verdade
se acendera a luz de neón do teito.
Pero non a acendo. Estou na alba.
Estou na alba dun falaz Hospital.
Aínda non saín á rúa: non hai xente.
francisco candeira
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O lugar, é de unha beleza deslumbrante, vento e mar conxurados, para penetrar adentro na alma nossa. Depois de algunha desconfiança, a portugalidade da cozinha de Miguel Rocha Vieira, xa entrou nunha segunda fase de evolución. Recriando pratos de base tradicional e popular portuguesa, unha inusitada “sopa de pedra”, outra refrescante pré-sobremesa, com pinha, pinhoes e resina. “Habitat de percebes”, servidos sobre um seixo polido, “carabineiros do Algarve”, com cenouras e citrinos. Pargo, com cevadinha e funcho-do-mar, e por fim, porco, acompanhado com xerém. Podem, xustificar apuradamente, o pecado da gula nestas fermosas costas do Guincho.
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LÉRIA CULTURAL
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Mirade:
A palmeira divide a cidade en dúas bandas.
Semella soster o ceo, tan alta e esguía é,
mais só sostén a cor azul do ceo…
E un numen azul do ceo caído
separa os seus ramos, esas raíces no aire,
para que eu sen querer minta
e diga que a palmeira
afonda a súa raigame, tal vez ramos na terra,
en colores arcanas.
Mais acaso non minto moito se vos digo:
Cara arriba respira aínda con espanto
a miña mocidade, esa amiga louca
que buscaba pillar por un extremo
o relampo máis bo pra debuxar
con el unha palabra que de seguro sairía chinesa,
e tamén aquel tempo en que un xa cría
que as árbores estremecían e abaneaban
soas, sen axuda do vento,
pois que o vento da cidade só proviña
das mozas que rente a nós pasaban,
alleas ou pícaras.
Era outro tempo…
heroes, ignorabamos a morte, e tamén que morrer
de vello, de moi velliño, é cousa inxustamente natural.
E falabamos de Arquetipos sen nada comprender aínda.
E incipientes poetas, os ollos das putas eran “pasteis de nata”.
E recordaba un parásitas Dictaduras,
nós, que non foramos leitores torturados
nin guerrilleiros en país estraño.
E ese tempo pasou…
Cara abaixo arestora o mar é outro, xa non é aquel
de caranguexos e ínfimos peixes en rochosas praias,
tampouco é de todo aqueloutro de bravos océanos virxes
buscadores de tesouros.
O mar de hoxe, o mar meu, soña sempre
con lonxanos volcáns, columnas dóricas e peixes
abisais a falsos punteiros docemente desatentos.
E anque non me escoitedes, podo contarvos
que alá no fondo a cidade segue fiel ao gran Desconcerto:
Hoxe mesmo, baixo terra, nalgunha Estazón de Metro,
un painel en azulexo graba uns versos de Cesáreo Verde:
“Se eu nao morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeiçao das cousas!”
e entretanto, polo andén, un home aballoado de alcool
repite para o faro do convoi, ao lonxe, aínda na outra Estazón:
!Viva Frei Hernando da Cámara!
!Viva Víctor Mendes, toureiro-artista!
francisco candeira
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