SIGMUND FREUD (VIDA)

.

               Muitas das fotografias que conservamos de Freud mostram-nos um homem de barba farta, geralmente grisalha, e de olhos penetrantes, por vezes delimitados por uns óculos circulares.  Também, quase sem excepçao, vemo-lo de testa franzida.  Este estricto porte poderia fazer-nos pensar num intelectual arrogante, soberbo e dogmático.  Mas nada mais longe da realidade.  Sigmund Freud era um homem acessível, sem nenhum tipo de afectaçao e nada altaneiro (de facto, com muita frequência dizia que nao estava dotado de grandes capacidades intelectuais!).  Rodeado das suas pessoas de confiança, Freud mostrava- se sempre jovial e exibia o seu sentido de humor.  Decididamente, na defesa das suas ideias, era tenaz, inclusive teimoso, mas em nenhum caso dogmático ou intransigente.  Por isso, o seu carácter tolerante e o seu íntrego amor pela verdade tornaram-no muito querido entre os seus amigos e muitos dos seus colaboradores…  Nasceu a seis de maio de 1856, em Freiberg, uma pequena cidade de maioria católica situada a uns duzentos quilometros a nordeste de Viena…  No que diz respeito ao seu pai (comerciante de lan, de origem xudáica), nao era o protótipo de pai dogmático e autoritário tao habitual nesse momento, muito pelo contrário.  Passado pouco tempo, a família de Freud sentia necessidade de abandonar Freiberg. A localidade atravessava uma crise económica – sobretudo, no sector da lan – e,…  Também um crescente antissemitismo,…  Assim, em 1859, aos três anos de idade, o pequeno Sigmund mudou-se com a família provisoriamente, para Leipzige, mais tarde, para Viena.  Os primeiros anos de Freud em Viena nao foram fáceis.  Porém o pequeno tinha bom carácter e era muito estudioso.  Com o tempo tornou-se um estudante brilhante, que se destacava sobre tudo no campo das línguas.  Curiosamente, quando foi o momento de decidir um curso, Freud nao mostrou uma grande predileçao pela medicina…  a sua vocaçao era a de indagar os mistérios do homem e da natureza, uma inclinaçao filosófica que o acompanhou em toda a sua história de vida.  Apesar de ter obtido o título de doutor em 1881 com excelentes notas, a medicina continuava a nao lhe inspirar demasiada paixao.  Para além das fronteiras da conservadora e intransigente Viena, os seus estudos também começavam a suscitar certo interesse e alguns debates.  A estas primeiras associaçoes, revistas e simpósios seguiram-se muitas outras por todo o mundo.  Contudo a psicanálise ainda estava muito longe de ser profusamente reconhecida.  E, entao, chegou a guerra, a Primeira Guerra Mundial.  Foram tempos muito duros para Freud: á escassez de alimentos e recursos básicos, como luz e aquecimento, era necessário sumar as preocupaçoes pela vida dos seus filhos…   E a sua lúcida mente ainda foi capaz de dar luz a importantes teses e livros, se bem que já marcados por um carácter decididamente mais filosófico.  É assombroso pensar que um homem de 70 anos, submetido a constantes operaçoes traumáticas para atenuar um cancro dolorosíssimo, obrigado a trabalhar entre cinco e seis horas diárias como terapeuta para se sustentar económicamente, pudesse prosseguir o seu trabalho de investigador, agora já quase plenamente filosófico.  Entretanto, a progressao do cancro e as suas consequentes dores nao seriam o único motivo de preocupaçao para Freud nos anos vindouros.  Fruto da perseguiçao nazi, Freud viu-se obrigado a abandonar Viena para se refugiar na sua bem-amada Londres.  De facto, respondeu com ironia á notícia de que os seus livros e os de outros psícanalistas tinham sido queimados publicamente em Berlim;   “Quanto progredimos!”  – exclamou-  “Na Idade Média ter-me-iam queimado a mim;  agora conformam-se em queimar os meus livros”.

 

marc pepiol martí

        

PORQUE NON HAI OLVIDO

.

           “Kalimera, pensó absurdamente”

           J. Cortázar, en “La isla a mediodia”

 

             “Si tivésemos todos

             unha palabra esacta, unha somente”

             C. E. Ferreiro

                         I

Un devora delirios, insomnios infernais

verdadeiras mentiras, ruídos e noticias.

Un nunca cruza a ponte que vai ata o Silencio:

quédase sempre a medio camiño, sobre a ponte

porque un ten medo, medo.

E se chegamos á outra banda aínda nos queda

o eco dos nosos pasos na memoria

porque non hai Olvido

porque non hai Olvido.

 

 

                        II

Por unha palabra escondida

que tal vez non coñecerás xamais

avantas por barrancos, pasas freitas

que che dan os camiños coma ós lobos.

 

Por unha palabra que inda non hai

unha palabra exacta

correrías congostras, e por ela

ferverían os ollos cansos

de xa naceren tanto.

 

(Por moi certa palabra palpitante

que ha nacer un día para tódolos homes

e que non será a Morte).

 

FRANCISCO XOSÉ CANDEIRA

SIGMUND FREUD (CONTEXTO)

.

               Para compreender a filosofia de um autor com todos os seus matizes, é imprescindível analisar a sua vida, bem como o contexto social e histórico no qual desenvolveu o pensamento.  No caso de Freud, esta exigência conduz-nos directamente á  necessidade de reflectir sobre a cidade que viu nascer as suas ideias médicas e filosóficas, Viena.   Na verdade, Freud nasceu em Freiberg ( cidade que, no seu tempo, pertencia á Morávia, uma parte do Império austríaco, e, actualmente, pertence á República Checa), e nao em Viena, mas foi nesta cidade que estudou e se doutorou, onde também desenvolveu toda a sua práctica terapêutica e formulou as suas teorias sobre a estructura do psiquismo humano.   Assim, Viena é um lugar incontornável se quisermos compreender o pensamento de Freud.   Como em breve descobriremos, a esplêndida Viena de fim de século fez todo o possível por dissimular, sob um manto de luxo e de refinadas convençoes sociais, uma crua realidade:  a sexualidade.  E foi precisamente a ânsia de revelar e compreender esta realidade oculta – mas muito real! – que estimulou, em grande medida, o pensamento de Freud.   No imaginário popular, Viena associa-se de imediato ao ritmo das alegres valsas de Johann Strauss – sobre tudo, o filho (1825-1899) -, com os refinados cafés e a magnificência da corte dos Habsburgo.   Assim, a monumental Viena apresenta-se-nos com frequência como o paradigma de uma cidade requintada e entregue ao gozo de viver.  Por tudo isso, é surpreendente comprovar até que ponto os sempre educados e sensíveis vienenses resistiram com firmeza, e a maioria das vezes com insolência, ás teses do nosso autor.   Até mesmo no momento em que o mundo começou a acolher as revolucionárias ideias de Freud, Viena respondeu com uma eloquente indiferença.   Talvez este repúdio fosse motivado pelo facto de Freud, como diriamos coloquialmente, ter ousado meter o dedo na ferida?   Sem dúvida, a ostentaçao e o hedonismo da Viena de finais de século encobriam uma sociedade bastante fracturada e repleta de penosas contradiçoes.   Viena era a capital do grande Império austríaco, resultante da dissoluçao do antigo Sacro Império Romano-Germânico, em cujo seio convivian as diversas nacionalidades que povoavam o vale do Danúbio.   Porem, as recorrentes reivindicaçoes nacionalistas da Hungra,… propiciarao po fim, ja no ano 1867, o Compromisso (Ausgleich) que deu origem ao Império austro-húngaro.   Este novo Império foi, de facto, uma monarquia dual:  compunha-se em dois reinos, Austria e Hungria, com os seus respectivos parlamentos, códigos e línguas, dispostos sob uma mesma bandeira e um mesmo monarca.   O imperador Francisco José I, da casa dos Habsburgo, que já dirigia o Império austríaco desde 1848, assumiu o governo do Império austro-húngaro, e fortaleceu a sua posiçao ao casar-se, em 1854, com Isabel da Baviera, a famosa imperatriz Sissi.   Viena foi a sua residência oficial e a capital teve de responder dignamente a esse privilégio.  Por isso, sobretudo entre 1858 e 1888, a cidade foi reedificada practicamente por completo:  erigiram-se palácios, belos edifícios, monumentos e amplas avenidas.  Todavia este palco de sonho mal podia esconder as formas vazias de uma monarquia artrítica e anquilosada.   Nao por acaso, o escritor austríaco Robert Musil, autor da monumental obra “O Homem Sem Qualidades (1930), designou irónicamente o vasto Império dos Habsburgo como “Kakania”, alcunha que abrigava o duplo “K” que articulava o título nobiliário do Império. “Kaiserlich-Königlich”, isto é, Imperial-Real, mas que também aludia a um sentido escatológico.  Em todo o caso, a longa linhagem dos Habsburgo exaltava esta sociedade plural.  A monarquia estava muito presente na vida social vienense, embora quase como se fosse uma realidade mítica.  A sua existência concebia-se como uma espécie de Olímpo atemporal.  Na práctica, eram os valores bastante puritanos da burguesia que realmente regiam a sociedade vienense.  Em Viena, apenas importavam a estabilidade do conjunto e as aparências formais.  A ordem, uma rígida hierarquia totalmente imóvel e a nao estravagância foram, durante muitos anos, um credo tácito e inquestionável.  Este formalismo burguês tao petrificado fazia de Viena uma sociedade aparentemente plácida;  daí  que Stefan Zweig, na sua obra “O Mundo de Ontem – Recordaçoes de um Europeu” – um extraordinário retrato da sociedade vienense do virar do século -, definisse a Viena anterior á Primeira Guerre Mundial como  “o mundo da segurança”.  Curiosamente, o escritor austríaco valorizava este facto a partir de um ponto de vista positivo e, ao mesmo tempo, negativo.  Por um lado, os valores burgueses que guiavam a sociedade eram claros, sólidos e imutáveis.  O caminho que um indivíduo tinha de percorrer para conseguir um certo reconhecimento social estava bem traçado, só tinha de ter a paciência de o percorrer.  Por outro lado, esta sociedade evitava qualquer acçao ou decisao que pudesse conduzir a alguma mudança.  A novidade podia pôr em causa ou romper esse equilíbrio tao conveniente…   Certamente, por esta razao, a juventude vienense e os seus novos talentos encontraram-se imediatamente sob suspeita, já que o seu ímpeto podia ser a semente da transgressao e, finalmente, da temida desagregaçao social.  Viena fazia o possível para serenar os ânimos dos jovens.  A constriçao era tao forte que os jovens se viam forçados a esconder a sua verdadeira idade e a fazer o máximo possível para parecerem mais velhos;  por exemplo, deixavam crescer longas barbas, vestian casacas e moviam-se com sobriedade.  De facto, até a instituiçao escolar vienense estava firmemente concebida para consolidar este rígido “statu quo” e conducir ao conformismo da juventude;  imperavam a autoridade, o dogmatismo cego. a dureza, a apatia e a pouca humanidade.  A pior parte desta grande  dissimulaçao programada com tanta paciência recaiu sobre a condiçao feminina.  A mulher foi forçada a representar um ideal impossível:  o da mais absoluta inocência e pureza espirituais.  Por essa razao, os vestidos das mulheres estavam concebidos para esconder todas as formas femininas.  Por dentro, estas indumentárias eram uma esécie de armaçao ou couraça que oferecia um belo e sempre asséptico aspecto exterior.  Tinham uma infinidade de espartilhos e anáguas, um facto que obrigava as mulheres a mover-se de maneira totalmente artificial e a adoptar posturas forçadas.  Por exemplo, uma mulher educada nunca podia cruzar as pernas em sociedade, por medo de que num descuido, pudessem ver-lhe o tornozelo.  É evidente que a repressao sexual, como qualquer tipo de repressao, acentuou ainda mais o desejo.  Assim, a sociedade vienense, ao evitar o sexo por todos os meios possíveis, tornou-o ainda mais presente.  A força desse “eros” reprimido deixava-se sentir por todo o lado, e com uma força, se possível, muito maior.  Nao em vao, como veremos, Freud começou a sua carreira trabalhando com jovenzinhas burguesas que apresentavam síntomas muito agressivos de histeria, uma doença que a ciência, em “petit comité”, reconhecia como de origem sexual, embora nunca o dissesse oficialmente.  De facto, esse grande enredo de silêncio em relaçao ao sexo chegava inclusive á esfera científica, antes de Freud ter conseguido fazer mossa nesse alto e sólido muro…

 

marc pepiol martí

 

EN VIGO UNHA CIDADÁ SOÑA CO BOSQUE

.

Aínda que a cidade te retén

de certo fura as túas noites

un vougo corazón de lata e máquina

e xa non che abonda

esta música e ámbito de rock & roll

nin a presencia do mar presentido

 

porque sabes que hai alá no bosque,

onde un bris alixeira e eleva,

unha palabra cômplice que agarda

escondida nas cousas ínfimas, na araxe,

na silenciosa luz,

e tamén sabes

que nacen as cousas tantas veces

debido a un pulso telúrico

ou a un rumor de fronda;

 

sen embargo ti quedas aquí

afincada

cidadá a carón de tanta máquina

sempre lembrando

o silencio habitado dos piñeiros

e algún modo de Olvido.

 

FRANCISCO XOSÉ CANDEIRA

 

SIGMUND FREUD

.

              Se é inegável a influência de Freud na compreensao de nós mesmos como sujeitos movidos por obscuros desejos inconscientes, também teremos de reconhecer que a sua influência nas artes visuais contemporâneas foi particularmente significativa e fecunda.   Em primeiro lugar, encontramos Freud na arte de vanguarda, concretamente no surrealismo, um movimento artístico que, em rigor, situaríamos entre os anos 1924 e 1945.   Se alguma coisa caracterizava os pintores e os escritores surrealista era a sua enérgica reivindicaçao da liberdade criativa.   Fizeram o possível por fugir do anquilosado modo de vida burguês e por conquistar outros mundos completamente inverosímeis a partir da estreita órbita da lógica racional.   A sua reivindicaçao era o ilógico, o original, o estranho, o desconexo.   De facto, nos seus escritos e pinturas respirava-se um mundo tao irracional, original, estranho e desconexo como o sonho.   Nao deve surpreender-nos, pois, que André Breton, conhecido como o pai do surrealismo, reivindicasse, em repetidas ocasioes, a figura de Freud como precursora ideológica do movimento.  “Quando chegará, senhores lógicos, a hora dos filósofos dormentes?”, perguntava-se, provocadoramente, o artista françês no Primeiro Manifesto do Surrealismo (1924).   Nos episódios oníricos, como Freud tinha revelado, manifestavam-se os apetites humanos mais obscuros e inconfessáveis:  assim, reconhecian os surrealistas, o sonho obscuro podia penetrar no verdadeiro eu de uma forma mais autêntica do que a razao clara.   Valham-nos as numerosas paisagens oníricas pintadas por Salvador Dalí – com quem, diga-se de passagem, Freud teve um breve encontro em julho de 1938 – ou a escrita automática praticada pelo mesmo Breton – uma técnica surrealista que reproduzca fielmente o método de associaçao livre, um procedimento inventado por Freud para ludibriar as defesas da razao e poder acceder a estractos mais profundos e genuínos da psique dos seus pacientes – como exemplos paradigmáticos desta herança freudiana.   Dalí conseguiu uma viragem favorável na opiniao de Freud sobre os surrealistas:  como este confessou a Stefan Zweig numa das suas cartas, antes de conhecer o pintor do Ampurdán, chegou a considerar os surrealistas uns “loucos absolutos”.   Além das artes, podemos constatar que Freud está muito presente no nosso dia a dia:  perante um “lapsus linguae” revelador dos nossos verdadeiros propósitos, sao poucos os que nao exclaman:  isto é freudiano!   E quem nao pensou em alguma ocasiao, em ir ao livro A Interpretaçao dos Sonhos, de Freud, para procurar o significado de um sonho que o inquieta? Porém,  o facto de Freud estar frequentemente na boca de todos torna-o víctima de muitas imprecisoes e de más interpretaçoes e, inclusivamente, converte-o em objecto de uma certa banalizaçao. Nesta breve monografia, pretendemos desfazer todas as confusoes que existem em relaçao á figura de Freud e elaborar uma leitura completa, embora rápida e accessível, das suas teorias sobre o homem e a cultura.

marc pepiol martí  

 

DE LÚAS E SILENCIO…

.

De lúas e silencio tece un niño o meu insomnio

-aquel que guinda as tebras de tantísima noite

só de ollar o segredo do teu van-

un insomnio de outeiro aluarado, tamén papiro nu.

 

E se ela ve que penso:

 

Enlouquece este meu alento que trepa

que xa recrea séculos e séculos

de folgos magoados pra lembrarche

un canto da intrahistoria silenciada.

E se chove que chovan ceos leves

toxeiras nosas, fontes, utopías sen líderes

 

entonces ela entrégame o cerne do seu alento,

carballo e rio xuntamente, e lume.

 

FRANCISCO XOSÉ CANDEIRA

 

POEMA PARA ELA

.

Cantas veces pregunto polo resplandor

que despiden os teus ollos noviños

demorándose ceibes nas paisaxes

lonxanas do horizonte fuxidío

vendo correr a nidia auga das fontes

por cativos regatos coma serpes.

Cantas veces presinto as túas mans

intentando apreixa-la luz do abrente

ou as cores confusas do solpor

ou as herbas das veigas verdegantes.

!Cantas veces pensei nas túas mans

e nos teus ollos doces coma uvas!

 

FRANCISCO XOSÉ CANDEIRA

 

XEÓRXICAS

.

I

!Ouh mociña, regatos e montañas!

É agreste o meu canto e mañanceiro,

e son ledicias tantas e tamañas

que deixan labio de viño algareiro

neste val verde, inmenso en que te bañas.

!Quizais un pouco pole muiñeiro

en min as saibas, ríos e fontes deixan

e así amores ardentes xa me apreixan!

.

II

A ti che canto, moa muiñeira:

roda, pedra e mundo deste país.

Ouh musa eterna, fada cantareira:

¿son eu quizais ventureiro Amadís

fiel por sempre a unha Oriana garuleira,

muiñando verde soño en celamís?

(A vida é un soño – cria Segismundo-.

!Poesía é broa para este mundo!)

 

III

A ti che canto, hórreo, igrexa da eira:

sol, espigas, castañas e centeo

gardas na túa nave milagreira.

Nos teus aleiros fan o niño arreo

as pombas e unha rola altaneira.

Un galo espreita e algún rato feo.

!Alégrate toliño vagamundo!

Versos e pan farán un grande mundo.

 

francisco xosé candeira

 

HA SER TEU CORPO

.

Ha ser teu riso turxente ondeando alto en teu peito.

a abrolla-lo breve abrente infindo sorriso afeito.

 

Ha ser teu corpo un olvido por rúas cegas de luz

un corpo esguío, tal bido, coa calor a contraluz.

 

Será unha ra e unha barca

reabre o teu ollar salobre

e nos teus portos, ribeiras

abertas á noite dobre,

 

arribarán quizais fontes

ou trémulas eguas albas

chegadas dos irtos montes

ata este ermo de ondas malvas.

 

francisco xosé candeira

.

QUE MUYTO MEU PAGO

.

Que muyto meu pago d’este verao

por estes rramos e por estas flores,

e polas aves que cantan d’amores,

por que ando hy led’e sen cuydado;

e assy faz tod omen namorado:

sempre y anda led’e muy louçao.

 

Cand’eu passo per alguas rribeiras

so boas arvores, per boos prados,

se cantan hy passaros namorados

log’eu con amores hy vou cantando.

 

AIRAS NUNES

.

.

INÊS

.

No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercibida;

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que nao se arme e indigne o Céu sereno

contra um bicho da terra tao pequeno?

 

Tu, só tu, puro amor, com força crua,

Que os coraçoes humanos tanto obriga,

Deste causa á molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna nao deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e ás ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

 

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que depois de morta foi Rainha.

 

LUIS DE CAMOES

 

PRÓCULA EN COMPOSTELA

.

.

Talmente as illas polas augas

saberte rodeada por um mar de frondes

sempre vivas de brisa e luz

saberte nena con pombas muller

Nereida harmoniosa ou Afrodita

quererte illa helénica no Mundo

tamén Koré risoña e Amazona

Ménade danzante Lemnia de Fidias

saberte deusa estatua de Amelung

si ó menos saberte áurea de riso

hoxe e sempre proxenitora de albas

mentirosamente lonxana e ausente

tal unha Oseira herexe saberte aquí ancorada

ó mundo de aquí e ó mundo celeste

tal un Sobrado avesedo saberte

cómplice das montañas e das fontes

ledamente unida ó corpo da Terra

tal unha Compostela eterna por sempre saberte dona

do corazón dos deuses no medio do banquete ebrio dos homes.

 

francisco xosé candeira

 

PONHA UM TESOURO SEM ESCAVAR NA SUA VIDA

.

                    É como um amor.  Algo que permanece aí latente.  Estimula e acelera o andamento.  O ensonhamento galopa, e a imaxinaçao transborda, ditirâmbica e hiperbólica.  Afastando o tédio da nossa frente, e tendo o poder de banalizar tudo.  Um sempre pode sorrir secretamente, enigmáticamente (com verdadeira sorrisa Etrusca).  ¿Se souberas que eu, encontrei um tesouro?   Tudo aconteceu sem querer, como sempre, quando o destino se confabúla com os ástros, e as estrelas mais lonxanas, e as linhas, as tanxentes e as secantes, e a maxía de Prisciliano que advem do Multiverso quântico.  Estava eu, plantando um castanheiro no monte, quando inesperadamente algo gritou !!cráck!!  Pois, muito a meu pesar, tinha partido um cacharro de negro barro prehistórico, que dormia o seu sono eterno, rodeado de pedras d’algunha tumba perdida para sempre, da memória das xentes e das coordenadas quadridimensionais de Minkovski.  A partir d’enton, estabeleceu-se unha heroica rivalidade, entre o admirável povo Chinês (que ainda hoxe em dia, conserva invioladas várias tumbas de Imperadores, apesar dos tesouros arqueolóxicos que se adivinham no seu interior), e eu.   ¿A ver quém aguanta mais?   País meu, a tua riqueza é tanta e tamanha, que aparece por qualquer rua, até brota do chan em lugares recônditos, cheios de Fado e bem-aventurança.  “!!Meu país!!  !!Meu país!!   ¿Nao sei, se te cante ou chore?   ¿Nao sei, se te grite um dia?   Rasgo a alma, e digo em pranto.   !!Que eu por ti, ainda morria!!”

 

antónio argibay sebastián

 

SANTIAGO DE COMPOSTELA

 

.

   OU POEMA PARA CELSO EMILIO FERREIRO

.

Compostela demórase  e resoa

en longo eco de pedra, en eco longo

vai na noite estrelada camiñando

 

e tarda camiñando

por entre a noite longa

Celso e a cidade soa

 

Pois un gato infindable afogado

maiando a Eternidade, Celso Emilio,

trae pedra pendurada á gorxa, o eco

 

resoa o paso seco

de andar excelso, idilio

en reixa aferrollado

 

que nos volve lonxana chuvia lenta

loita esteada en cárceres

torres xuntando estrelas e reclamando xente anterga, xente

felina liberdade, ese camiño…

Entre Rúas de soños, fero azul da Quintana ergueita, arcadas

en pedra retumbando un berro longo.

 

francisco xosé candeira

 

ROOSEVELT – O CARISMA DA TRANSFORMAÇAO

.

               Ao contrário de Lula, o carisma de Roosevelt nasce da emergência e da instabilidade política.  A sua liderança teve de enfrentar nao apenas um, mas dois momentos de crise intensa: a Grande Depressao e a Segunda Guerra Mundial.  Ganhou nos dois – salvou a América do colapso económico e venceu a maior guerra de sempre.  Roosevelt ganhou, mas nao com base na astúcia ou na virtude táctica.  Pelo contrário, apostou sempre no desafio e na luta, enfrentando os seus adversários com energia e pouco procurando o compromisso ou o entendimento.  É com ele que o Keynesianismo triunfa, que a esquerda americana constrói o seu programa reformista, e que o Estado social encontra o seu tempo.  Por um momento, a América parece ultrapassar a Europa no desenvolvimento das políticas públicas e no papel do Estado na economia.  Nunca na história da América tinham sido adoptadas reformas tao corajosas e radicais tendentes á reduçao dos privilégios e das desigualdades:  investimento público, impostos progressivos, segurança social, negociaçao colectiva.  O “new deal”, para os padroes políticos dos Estados Unidos, representou uma profunda e definitiva transformaçao democrática.  Roosevelt foi dos primeiros políticos a perceber a importância dos meios de comunicaçao de massas.  Criou as suas “conversas á lareira” (fireside chats), forma com a qual podia contactar directamente com cada um dos milhoes de americanos que esperavam do presidente um programa de acçao para vencer a depressao económica.  Através dessas emissoes de rádio, o presidente explicava as suas políticas e as suas decisoes, recorrendo a uma linguagem simples e a metáforas convincentes. O êxito dessas conversas foi tao forte que se transformaram numa tradiçao política.  Ainda hoje o presidente se dirige semanalmente aos Americanos através de uma emissao de rádio. Mas, naqueles dias, todo esse novo mundo da comunicaçao de massas foi mobilizado, dando novo vigor e uma nova potência á palavra e á acçao política.  Arthur Miller, no delicioso ensaio que escreveu de comparaçao entre o político e o actor, dirá que “só conheci um único dirigente a que pudesse chamar com toda confiança “o Presidente dos Estados Unidos”, e esse alguém foi Franklin Roosevelt.  Eu seria tentado a afirmar que ele nao era um actor, mas certamente porque ele o era excelentemente”.  No entanto, como o próprio conta, o laço que o ligou para sempre ao presidente nada teve a ver com a imagem, mas com a acçao política.  A criaçao do fundo de empréstimo aos proprietários fez aumentar para o dobro o período de pagamento e baixar para um quarto os pagamentos mensais, o que evitou o despejo de muitas famílias americanas, entre as quais a de Arthur Miller.  Diz ele, recordando esse período:  “Depois de eleito, e durante os seus primeiros cem dias, mudou de alto a baixo a Administraçao, suscitando novos serviços destinados a lutar contra o desemprego, o empobrecimento das classes médias, a fome real que se espalhava no país.  O tempo da Lucidez sucedia ao da Negaçao”.  A importância que normalmente se atribui á fabricaçao da imagem e, em consequência, do carisma pessoal deve ser relativizada.  Afinal de contas, a acçao acaba por contar muito mais do que a ilusao.  As novas técnicas de comunicaçao permitiram a Roosevelt sobre tudo criar um forte e dinâmico movimento social de mudança – o seu movimento carismático.  Sempre fez questao de liderar pessoalmente a mudança, nunca delegou o que era sua responsabilidade, nunca se esquivou e, pelo contrário, sempre que teve oportunidade fez-lhe frente, encarando sem receio os ataques mais violentos.  É verdade que a comunidade carismática, formada pelos milhoes de desempregados marginalizados socialmente, e que mantinham os seus anseios e aspiraçoes, há muito que existia.  Mas nao tinha consciência de si nem da sua força.  Foi preciso dar-lhe voz, juntá-la, dinamizá-la, para que existisse como realidade social.  Essa força social foi a do homem comum americano.  O povo mais humilde e mais abandonado pelas instituiçoes viu num filho do privilégio o seu defensor e o seu líder.  Nada mau para o aristocrata de Hudson River.  Também na guerra, a primeira grande decisao foi contrária ao sentimento dominante na América de vingança sobre os japoneses.  Roosevelt decidiu o que parecia impossível impor aos Americanos depois de Pearl Harbor:  “Germany first” – a guerra ganha-se primeiro na Europa, só depois no Pacífico.  O que é hoje considerado como uma das mais lúcidas decisoes estratégicas enfrentou sérias reservas na cúpula militar e na opiniao pública americana, pelo que significou de prioridade na alocaçao de recursos – tropas, armas, navios, avioes – ao teatro de guerra europeu.  O mesmo aconteceu com o controverso programa “lend-lease”, que permitiu fornecer armamento á Gra-Bretanha durante o período em que esta, isolada, lutou corajosamente e numa situaçao desesperada contra a ameaça nazi.  Esta decisao de ajudar a Gra-Bretanha esteve longe de ser fácil, já que o consenso isolacionista americano era muito forte e o próprio Roosevelt tinha prometido ás famílias americanas, durante a sua campanha eleitoral, que os Estados Unidos nao se envolveriam nas loucuras das guerras europeias e que nenhum dos seus filhos seria arrastado para o campo de batalha.  Mas se um método nao resulta, como el próprio dizia, adoptemos outro, porque o importante é continuar a tentar até ser bem-sucedido.  Com rapidez, mudou o plano e dedicou-se a convencer os Americanos que era preciso fazer alguma coisa.  Numa das suas intervençoes radiofónicas, punha as coisas desta forma:  se a casa do meu vizinho está a arder, nao será melhor emprestar-lhe a mangueira antes de o fogo atingir também a minha casa?  Os Americanos, ainda relutantes e desconfiados, admitiram.  Essa decisao evitou a derrota da Gra-Bretanha.  A história do século XX mostra-nos a evidente ligaçao de situaçoes de crise política e económica com o aparecimento de fenómenos carismáticos autoritários.  Este costuma ser o momento dos apelos providencialistas e da demanda dos “escolhidos” para a salvaçao pública.  Tal foi, sem dúvida, o caso das carreiras políticas de Hitler ou de Mussolini que marcaram todo o século XX.  Mas a presidência de Roosevelt mostra também que nem sempre é assim, e que a saída da crise pode também ser fruto de um carisma baseado numa proposta progressista, inovadora e democrática.  O seu triunfo fez-se, é certo, numa aliança forte entre o povo e o presidente, e muitas vezes em confronto com as intituiçoes jurídicas e com as forças económicas dominantes.  Cometeu erros, sem dúvida, e talvez o pior tenha sido ignorar as garantias constitucionais quando obrigou milhares de americanos descendentes de japoneses a abandonarem as suas propriedades e bens, declarando a costa leste como teatro de guerra.  O congresso só muitos anos depois reconhecerá o erro e o abuso.  Mas nao há dúvida de que a sua presidência teve como resultado um aprofundamento democrático e um progresso social assinalável.  Quando o supremo tribunal americano quis declarar inconstitucionais as medidas económicas do “new deal”, Roosevelt ameaçou com a modificaçao das regras de nomeaçao dos juizes.  A ameaça, apesar de derrotada no congresso, acabou por ter o efeito pretendido, pois o tribunal decidiu aprovar as reformas.  Ackerman chama a estes momentos – o “new deal” ou a posterior luta pelos direitos cívicos – “quase constituintes”, porque, embora a Constituiçao americana continuasse inalterada, eles mudaram para sempre a forma como esta é lida e interpretada.  O legado de Roosevelt representou uma extraordinária mudança na cultura política americana.  Roosevelt liderou na guerra como na reforma económica – com um inquebrantável e contagiante optimismo num futuro mais próspero e pacífico.  No entanto, a sua vida política foi tudo menos fácil.  Também ele, como sempre acontece com a autoridade carismática (como já referimos a propósito da vida política de Lula da Silva), foi continuamente chamado a prestar provas. Provas perante o sofrimento físico; provas nas mudanças políticas e sociais que empreendeu e que insistiu sempre em levar até ao fim;  provas na conduçao da guerra.  Foi o único presidente a ser eleito quatro vezes seguidas, mas os seus adversários nunca lhe deram tréguas e ele sempre os enfrentou com uma serena confiança que surpreendeu muitos dos seus contemporâneos.  Na última campanha, já visivelmente enfraquecido, os seus opositores lançaram um venenoso ataque, acusando-o de ter mandado um barco de guerra buscar a sua cadela, esquecida em férias, á residência de Warm Springs.  Em resposta, Roosevelt dirá que os republicanos já o tinham insultado antes, a ele e á sua família, mas que isso nunca o tinha afectado.  No entanto, a sua cadela, Fala, essa estava muito ofendida e nada disposta a esquecer o assunto porque era… irlandesa.  O espirituoso e superior discurso de resposta ficará para a história da boa retórica política americana.  Mas talvez o facto mais extraordinário na sua vida política seja ter feito tudo isto paralisado da cintura para baixo e sem poder andar nos últimos vinte e três anos da sua vida.  A América consagra-lhe, com justiça, um lugar de destaque entre os presidentes mais influentes da História do país:  Washington, que o fundou, Lincoln, que o preservou, e Roosevelt, que o livrou da crise económica e venceu a guerra.

.

josé sócrates

.