
Palavras grossas. Palavra de rei, em aposento plebeu. Boatos pequenos, em alcova senhorial. Palavras grossas, em reuniao de museu. Orgia político-financeira em Portugal. Eis, o que se vive; eis o que se come; eis a realidade. A Pérola do Atlântico, languidesce pelos buracos de um cacique qualquer. Ninguém fala no vinho da Madeira ou do peixe-espada grelhado; fala-se do enterrado-vivo, em mausuléos estranhos da política. Fála-se da enorme manta que tapava ou ocultava o dinheiro público na Madeira. É pena. Mas, o Estado sabía. Soubéram do cofre-terra da Madeira, Presidentes; Juízes; camponeses de gola-alta; despachantes de botim-e-bengala; ciones do panorama português. É pena. Mas, o sistema está corrupto. O Poder, exerce de Poder, e nao é observável; nao é inspeccionável. Entre tanto, fumo, para que o fumo do meu cigarro me esconda dos buracos. Nao quero torcer um pé. Ontem, comemorou-se a implantaçao da República em Portugal. A República sangra feridas mortais, provocadas pelos abutres. Ninguém se envergonha; parece que a vergonha desapareceu com o homo sapiens. Os jornalistas que, noutrora, escreviam sentados no café, alimentados por um copo de água com açúcar, para poder revelar a verdade. Jogam ao Faceville, no Face boock e bebem groselha enjeitada, porque sao macrobióticos. A notícia que sairá, será a conveniente. O famoso “sentido de estado” encarnou, onde deveria estar o “sem sentido de estado”. Deixo de fumar. Mas, bebo água, ainda que seja sem açúcar. Nao é para alimentar-me; é para refrescar os meus lábios; a minha boca e a minha garganta. Cada palavra que escrevo é mais que uma palavra, porque sao palavras em desuso, e secam. Sao fortes, que nao rudes; sao belas, porque estao banhadas pelos regueiros da aldeia da alma. Sao palavras sem cifrao. É triste. Como sobrinho fictício de Óscar Wilde, encharcado de referências Dadá, embarco e remando forte, adentro-me no oceano catártico da palavra sonora. É triste; estamos mal. Europa está a morrer, manietada pela barbárie financeira. Os deuses, que este continente criou, emigraram e vivem lá, além onde o menino é mimado, porque é mao-de-obra barata. E os deuses, que foram nossos, hoje, sao capatazes espirituais da exploraçao do menor. Os deuses europeus, ja nao eram gente de fiar, quando aquí estavam.
JOSÉ LUÍS MONTERO