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Arquivo por autores: fontedopazo
Ó POVO DE VALHASCOS
A rainha dos Valhascos, é a couve. Considerada como a melhor do mundo, tendo em conta que estamos em Portugal, e que sempre há necessidade de afirmar-se. Aquí mantenhem-se vivos algunhs usos e costumes ântergos, nomeadamente da cozinha, bastante interesantes. A matéria-prima é a do costume por estas bandas, azeite, pan, vinho, e as fermosas couves dos Valhascos. Costuma-se cozinha-las em migas, fervidas com bacalhau, entrecosto e feixons. Mas este lugar, tamém é famoso por ser um fortíssimo bastion da República, e pelo seu fervor anticlérical. O deçoito de agosto do ano 1912, o vigário de Sardoal, é expulso dos Valhascos apesar da sua tenáz resistencia. O padre Silva Martins, foi intimado a non mais alí voltar para dizer missa. Alí estava um verdadeiro baluarte, com que a República podia contar para a sua defensa e consolidacion. Ainda quando da última incursion paivante, que foi necessário fazer ronda nas estradas, lá estava o povo dos Valhascos sempre, embora só em parte lhe coubesse o serviço, apareceron trinta homes armados. Foi o povo que comprou e ofereceu o mobiliário para unha escola (que infelizmente até hoxe ainda non abriu). Dizendo-se, “ser Valhascos um canto do inferno, xente de má raça, e incitando ás mais fanáticas que mandassem os filhos aprender doutrina, em prexuizo da escola”. Xá o amigo vê, que nos Valhascos há unha firme opinion consciente para defender a nossa Rex-Pública, sempre que preciso sexa.
A. M. N.
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UM BOM CANDIDATO PARA O PRÉMIO NOBEL
Há quem afirme, que como maldicion por ter descoberto a dinamita, a memôria do Senhor Nobel, foi condenada a ir acompanhada por unha récua formada pelos piores escritores do planeta terra.
“Miguel Leitao de Andrada, estudante de leis, militar, cativo em Alcácer Quibir, assassino, aventureiro, escritor, rico proprietário e mais um punhado de coisas. Nasceu em Pedrógao Grande em 1553, nono de unha família de 10 filhos, depois das primeiras letras rumou a Coimbra para estudar na Universidade. A morte do pai quando tinha 15 anos colocou-o debaixo da alçada do irmao Frei Joao de Andrada, da ordem de S. Bernardo, partindo com el para Salamanca para cursar Jurisprudência. Regressa a Coimbra matriculando-se em Direito Canónico, mas abandona o curso para seguir D. Sebastiao no desastre de Alcácer Quibir. Bastante ferido, é preso, mas consegue fugir, chegando a Portugal em 1580. Alinha na causa de D. António Prior do Crato, que é derrotado na batalha de Alcântara, pelo que se passou á causa espanhola. Casa-se com D. Inez de Atouguia, mas a mulher morre repentinamente, e ele é considerado suspeito do seu assassinato, e preso. Moveu montanhas e lá conseguiu influências para non ser xulgado, conseguindo ser posto em liberdade. Volta a casar-se com a sua prima Beatriz de Andrada, filha de Nicolau Altero de Andrada, o homem que loteara e construíra a Vila Nova de Andrada, o primeiro nome do lisboeta Bairro Alto. Ficando rico e proprietário de um dos melhores pedaços de Lisboa. Casou ainda unha terceira vez. Escreveu o livro Miscelânea, de seu nome completo “Miscelânea do Sitio de Nossa Senhora da Luz em Pedrógao Grande, Aparecimento da sua imágem, Fundaçao do seu Convento da Sé de Lisboa. Expugnaçao dela. Pedra D’el Rei D. Sebastiao. E que seja Nobreza, Senhor, Senhoria Vassalo d’el rei, Rocohomem, infançao, Côrte, Cortesia, Mesura, Reverência e tirar o chapéu e prodígios. Com muitas curiosidades e prodígios diversos”. Aprimeira ediçao desta obra foi em 1629, pelo livreiro Matheus Pinheiro, em Lisboa. A segunda e a terceira ediçoes foram impresas por iniciativa da Imprensa Nacional e da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, respectivamente em 1867 e 1993. Morreu na sua casa da Calçada de Sant’Ana, em Lisboa, em 1630 e no seu testamento deixou um bom pecúnio em dinheiro á Santa Casa da Misericórdia de Pedrógao Grande… mas apenas na condiçao da sua alma entrar no céu! Nao sabemos quem terá passado a certidao comprovativa ou testemunhado sobre o sucedido”
ANTÓNIO MENDES NUNES
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O CíRCULO SEM ALTERNÂNCIA É UNHA PORTA ABERTA Á DESIGUALDADE
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Qualquer sistema de representacion simbólica do mundo é unha unidade dotada de sentido na qual influie o mais mínimo câmbio. Com o advenimento da sociedade feudal, seguida da Ilustracion com o seu anhelo de progresso, acompanhados pela debida dose de represion, surxiron inevitávelmente modos de organizacion social e ideoloxias novas com as que a mentalidade primitiva dos povos vascos non soubo competir. Como a continuacion veremos, nasceron puntual e localmente situacions de compromiso e de cohabitacion, mostras do processo de dexeneracion da esência comunalista. Falaremos primeiramente de certas relacions sociais circulares nas que a falta de alternância levou á desigualdade entre os participantes nela, considerando o caso da rexion do Aubrac, no Macizo Central (França). Esta zona montanhosa de mais de cinquenta mil hectáreas, basaltica e rodeada de ântigos vulcans, é um bosque de titularidade estatal e de propriedade comunal. Tamém tem pastos de montanha, a novecentos metros de altitude média, utilizados por rebanhos bovinos. No Aubrac, o sistema de trashumância e de exploracion da cabana de montanha atribuie (organizada de maneira circular) quatro funcions diferentes ós seus pastores. O responsável das vacas e do equipo de pastores, encargado de ordenhar e de fabricar o queixo. O pastor, que ordenha e toma parte na primeira fase da fabricacion do queixo. O responsável dos terneiros, que ademais frega os utensilios do ordenho assim como os da cozinha. E por fim, o “niño” ou “niña”, que é nada mais nem menos que unha “criada para tudo”. Valendonos de um símil xeométrico, diremos que a organizacion circular sem alternância volta-se simplesmente horizontal e o horizontal tende a tornar-se vertical. Se a comparamos com a plenitude do “círculo das montanhas” que se dá em Santa Grazi, a circularidade de Aubrac perdeu toda a sua esência igualitária e solidária. Ainda que non dispomos de informacion suficiente para referir-nos a um possíbel processo de decadência da dita organizacion, sabemos que a propriedade comunal, do Aubrac conheceu agressions históricas. Unha delas tivo lugar por volta do 1870: ” os proprietários do Macizo Central que se reservavan a exclusividade dos comunais venden quando do éxodo rural que fixo que todos os obreiros agrícolas se foran, é dicer, no momento em que estavan seguros de poder repartir-se as terras entre eles. É que paradoxalmente, a propriedade comunal non é garantia de comunalismo nem de igualdade. Se chega a escindir-se a comunidade que o sustenta, nasce unha sociedade constituida por classes de intereses antagónicos. Mas parece que o principio da ruina da circularidade comunalista pode alcanzar um grau superior. Se de unha organizacion circular sem alternância pode derivar unha horizontal e non igualitária, assimesmo pode ver a luz unha organizacion completamente pirâmidal. Ese é o caso dos pastores de Huesca. Existen innumeráveis vestixios para poder assegurar que as formas de vida, costumes, crenças, ritos, mitos, etc… dos habitantes do Pirineo parten dunha raiz comum. Como noutros lugares da Montanha pirenaica, os pastores da província de Huesca fabrican machados de pedra para protexer os rebanhos do raio, realizan os ritos específicos do solestício de vrán contra as doenças que puideran afectar os seus animais, colocan ramas bendecidas nas portas, etc. A importância da casa, a assâ mbleia como lugar de decision e eleiccion dos seus organismos administractivos, a organizacion dos vales, etc… son comparáveis aos que existem na Montanha Vasca. Apesar do enorme peso do cristianismo, mantenhem-se infinidade de crenças, ritos e festas paganas, ó igual que nos povos vascos. É á raiz da privatizacion das terras comunais, polas desamortizacions do Estado espanhol no século deçoito, quando os habitantes dos vales altos de Huesca ficaron sem terrenos de pastos para os seus rebanhos. Encontrando-se obrigados a converter-se em pastores a soldo dos donos dos grandes rebanhos que se formaron trás as usurpacions dos referidos comunais. Em Pastores do Pirineo, Severino Pallaruelo acerca-nos á organizacion do pastoreo trashumante do alto Huesca. Observamos unha division por tarefas parecida á do cayolar em Santa Grazi: existe o pastor xefe chamado “mayoral”, o segundo xefe ou vice-mayoral, tamém chamado “rapatan” em alghuns lugares, e o “chulo” ou “zagal” que alimentava os cans, cuidava o gando enfermo e preparava a comida dos pastores. Nembargantes, á grande diferença entre Santa Grazi onde primava a igualdade, entre os pastores oscenses resalta-se a xerarquia. Primeiramente as diferenças salariais, que reflexavan os diferentes escalafons da pirâmide. Mas estava sobre tudo a figura do mayoral, xefe supremo do rebanho assim como dos pastores. Entre os pastores do alto Huesca, a autoridade do mayoral ritualizava-se em cada momento. Tanto é assim que nas comidas, ningum pastor começava a comer do caldeiro até que o fixera o mayoral. Ninguem debia beber se o pastor xefe non bebia. Á vez, que ninguem comia mentras el bebia. Infrinxir éstas prohibicions acarreava duras sancions. “Se algum pastor come mentras o mayoral bebe, este golpealhe a culher, tirando-lhe a comida (Vale de Ansó)”. “Se um pastor desobedecia ó mayoral era castigado e debia dar voltas correndo em torno do fogo (Gistain)”. Observamos que o processo de destruccion dos modos de vida basados na comunidade e no indiviso, provistos de unha ideoloxia igualitária e por conseguinte alheios ó proveito pessoal, é progressivo. A “ideoloxia do circulo” desaparece quando se vé colonizada pela ideoloxia da pirâmide, o deber de correspondência para com a comunidade é um freio á expansion e ascension privada. Mas observamos que em um processo de desintegracion o círculo logra manter-se parcialmente, como nos montes de Aubrac ou em Huesca. Podemos deducir com isto que para a sua sobrevivência, “a ideoloxia do círculo” necesitava de toda a sua forza no âmbito das crenças, assim como da organizacion social e política. Unha vez debilitadas éstas, caíu a peculiaridade económica de rechazo a qualquer tipo de propriedade. Despois como unha sorte de efeito “dominó”, a sociedade do “círculo” da Montanha Vasca derrubou-se irremediávelmente. Ficava a pirâmide com o seu séquito formado pela desigualdade, a propriedade privada, a centralizacion do poder, a exploracion humana e medioâmbiental, etc…
SALES SANTOS VERA
ITZIAR MADINA ELGUEZABAL
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O ESPIGUEIRO
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Canastro!! Templo da Eira! Dios do culto solar! Perfeuta Sebastian, os brazos levantados á cálida luz do crepúsculo, falando fermosas verbas de agradecimento para um sol dourado. Do fundo da arca da memória, afloran enton estórias passadas de fai xá muitos anos. A minha nái Herundina, e a minha tia Olinda, unha galega e a outra lisboana, levadas pelas frescas loucuras da xuventude, roubavan gran do pecúnio famíliar que vendian em Pont’areas, com a honesta intencion de satisfacer os seus pequenos luxos particulares. Maria do Pazo, que era unha mulher de armas tomar, ao dar-se conta que o seu património mermava, deu parte á Guardia Civil para que lhe axudara a colher os ladrons. Minha nái e minha tia, alarmadas, pois que aqueles eran tempos duros e perigosos para a pequena ladroaxem. Decidiron por isso usar a “táctica da avestruz”, que consistia em enterrar a cabeza e deixar passar o tempo, até que a cousa se desvanecera. Afortunadamente para âmbas as infráctoras, as autoridades désta vez estiveron á altura das circunstâncias, e souberon sacar unha xusta e acomodaticia sentência
!!Senhora, si robaron és porque tenian hambre!!
A IRMANDADE CIRCULAR
A PIRÂMIDE CONTRA O CIRCULO
. “Trata-se de descubrir as razons polas que a “ideoloxia do circulo” deixou de ser imperante na Montanha Vasca. Para isso, vamos analizar primeiramente os sustentos básicos do referido sistema, fixando-nos nas suas crenças naturalistas. A ruptura do equilibrio produciu desencaixes económicos e demográficos que terminan por facer derrubar todos os pilares da sociedade primitivamente igualitária, comunalista e “sem Estado”. Aparece enton a pirâmide, sorte de metáfora xeométrica da xerarquia, atacando o circulo até ferilo de morte. Cabe tamém destacar que indagamos na non-estória da Montanha Vasca como nunha sucesion cronolóxica de feitos. Apoiando-nos em descripcions e em crónicas diversas para tratar de ver quais son as realidades que delatan a existencia de actividades humanas que a nosso entender contribuiron a manter as ânsias de autonomia das sociedades da Montanha Vasca respeito da centralizacion do poder, e a mercantilizacion e exploracion xeral. Partindo do final do neolítico e alcançando os anos oitenta de século vinte. Resaltados os ditos períodos estóricos basandonos em datos documentados sobre a realidade da Montanha Vasca. Mas tamém nos atrevemos a interpretar algum conceito particular da cultura e da fala vasca, assim como certos textos. Finalmente, há que dicer que Comunidades sem Estado na Montanha Vasca desexa facer pender a reflexion libertária em Euskal-Herriak mas tamém mais alá, no seio de qualquer comunidade indixena ancestral ou recén nascida, e mais ainda por nascer. Chamamos comunidades ós grupos de pessoas que orixinalmente vivian ou viven baixo um conxunto elexido e igualitário de regras, antitéticas do poder estatal, alonxadas do sistema económico, social e cultural por el organizado. Referimo-nos ás ocupacions rurais ou da cidade, de Europa, de América ou de qualquer outro continente, a todas as experiências humanas que se separaron da propriedade privada, da exploracion dos recursos naturais com fims productivistas, assim como da xerárquia. Queremos deixar claro que, estóricamente as comunidades foron e son despoxadas do seu sentido orixinal por unha colonizacion interna ou externa, quando non por âmbas. E que só recuperaran o seu ser quando saiban separar o que as define essencialmente de toda contaminacion ideolóxica do âmbito rizómico do poder.
SALES SANTOS VERA
ITZIAR MADINA ELGUEZABAL
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COMUNIDADES SEM ESTADO NA MONTANHA VASCA
COMUNIDADES SEM ESTADO NA MONTANHA VASCA
O DOMINIO NON APARECE ATÉ QUE SE EXERCE
“Plasma-se a problemática do poder. ¿ Como consegue este instalar-se nunhas comunidades autárquicas que lhe son completamente alheias e que non o necesitan? Trás descreber os estamentos de socializacion das comunidades sem estado na Montanha Vasca, centraremo-nos no papel xogado pela cristianizacion e o Caminho de Santiago em xeral, e em particular, os mosteiros. Através destes analizaremos o choque producido entre a estructura comunalista existente e o sistema monacal que introduciu a propriedade privada, o servilismo, a xerarquía e a obediencia ó Estado feudal. Pouco a pouco as comunidades primitivas foron perdendo a sua autonomia política, recuperada por unha élite que nasceu da segregacion social entre “vecinhos” e “residentes”. A consequencia disto, as estructuras primitivas igualitárias e non xerarquizadas foron desaparecendo. Assim a “batzarre” ou “assambleia popular” foi suplantada pela “xunta”. Esta ultima tinha um numero restrinxido de participantes e ademais eran elexidos por critérios sociais élitistas. Pola sua parte o “auzolan”, sistema de trabalho destinado o bem da comunidade e á axuda recíproca entre vecinhos, quedou desvirtuado. Desaparece o “auzolan” que fora dictado pela necessidade real de apoio mútuo. Aparece a privatizacion dos recursos naturais, algo inimaxinábel no sistema primitivo em que prima o comunal. De tal maneira, ganhou a batalha o Estado. Denominamos este processo de “colonizacion interna” da sociedade vasca. Á par, trataremos de analizar em que medida as reivindicacions libertadoras dos seus povoadores son sinal da vontade da Montanha Vasca de resistir ás embestidas da colonizacion ou de minimizar o seu impacto sobre a organizacion social, económica, política e cultura orixinal.”
SALES SANTOS VERA
ITZIAR MADINA ELGUEZABAL
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DEFINICION DO TURISMO E O TURISTA
DEFINICION DO TURISTA
Antes de começar ésta excursion através de algunhas ideias, abramos o diccionário, como quem consulta unha guia de viaxes, e busquemos nas suas páxinas o significado xusto do termo que temos que explorar. “Turista” é unha palabra nova no léxico espanhol; sinal de que a modalidade designada tem de ser unha costume recente entre nós. Turista é, no efeito, “o que viaxa pelo seu gosto” e, ainda que o povo espanhol e como el os da sua descendência non tenham sido dos menos viaxeiros, só extremando a interpretacion se pode afirmar que tenham viaxado por gosto. A fé os levou a percorrer a terra com o bordón na man unhas veces, com a pica ou o mosquete, outras; e assim , peregrinando e guerreando, foi âmpliando o horizonte familiar até rodear o mundo. Despois da fé, a cobiça, como essas manadas de selvaxems alanos que trouxeron consigo os conquistadores, seguiu o rastro glorioso. Trás o apóstol, o bigardo; e xunto ó capitán que baptizava com nomes devotos os lugares que descubria ou as villas que fundava, o traficante buscador de tesouros. Com frequência, a fé divina e a avaricia terrenal compartiron a alma dos conquistadores, cuxa fisionomía moral nos aparece tal como a viron os americanos autóctonos: um homem sobre unha besta. Peregrinos, guerreiros ou emigrantes, os colonizadores espanhois nunca viaxaron por gosto, nunca foron “turistas”. Tampouco o fixeron por prazer os navegantes ingleses que foron desenhando pouco a pouco a carta do mundo dando á Gran Bretanha o domínio dos mares. Nin menos, os exploradores que no século passado descubriron as intimidades do continente africano. Estes cabaleiros andantes da xeografia queriam encher os claros que ainda ficavam nos seus mapas (tantos espaços brancos no “continente negro” era algo intolerável). Em realidade, a costume de viaxar sem obxecto, só por recrear os olhos e descansar a mente, é unha costume nova. Fai apenas cem anos, um viaxe era unha aventura que se sabia como comezaba, mas non como podia terminar. O viaxeiro de hoxe, o “turista”, sabe de anteman quando vai a chegar, que é o que vai ver, como vai ser tratado e quando regresará. Libre de inquietudes materiais, pode disfrutar beatificamente do espectáculo que desfila ante seus olhos. Acodado á barandilha do barco, sentado xunto á xanela do comboio ou acomodado na traseira do seu automóbil, o viaxeiro moderno conhece o prazer das mudanzas de paisaxem, um prazer puro, sereno, do que nunca puideron gozar completamente nim os peregrinos, nem os aventureiros e muito menos os traficantes. É um prazer novo, a forza de limpo e com razón a palabra que o designa “turismo” é unha verba nova.
arturo cancela
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OS FILÓSOFOS DO PERIPATO
os filósofos peripatéticos.
O meu tio era um filósofo peripatético de terceira ordem. Com esta classificacion non quero rebaixar o seu mérito como pensador, senon simplesmente indicar que era um filósofo ambulante desses que se paran a cada passo para expor as suas ideias. Porque, segundo um trabalho inédito do meu pai putativo, a classe dos peripatéticos abarca tres ordems claramente diferênciadas: 1. Os dinâmicos, como Aristóteles, que pensam e expresam-se em plena marcha. 2. Os estáctico-dinâmicos, como Sócrates, que concíbem na inmobilidade, mas necessitam o movimento para expressar-se. 3. Os dinâmico-estácticos, como D. Eremita, que lucubram em marcha, mas debem deter-se para descargar os seus pensamentos. Meu tio era, pois, um pensador – non um disertador . peripatético. As ideias ocurriam-se-lhe caminhando; mas iva-as soltando a chorrinhos nas pausas do caminho, como esses comboios que deixam merdadoria em cada estacion do traxecto. Obeso e sudoroso, aquela tarde do fim do verán,, D. Eremita assemelhava-se, verdadeiramente á máquina de um comboio de carga, de tal modo resolhava e acezaba. De volta a casa, as estacions foron numerosas, porque o meu tio concebía e dava á luz unha ideia cada dez passos. (Poderia intentar-se unha classificacion deste ordem dos peripatéticos, segundo o tempo que, á marcha normal, necessitam para cada cogitacion. Os pensadores de “tres passos”, isto é, os que cada dous metros, mais ou menos, se detenhem para explicar algo ó seu interlocutor, son unha calamidade nas cidades, porque obstruiem a circulacion nos passeios. Abundam entre os artistas líricos e houbo um tempo em que floreciam na rua Paraná, á volta do Politeama. Os pensadores de “tres passos” – non os há de menos – , pois cada passo corresponde, verossímilmente, a um dos termos do siloxismo – os pensadores de “tres passos”, repito, apressentam um rasgo característico: para compensar a diferença do seu “tempo” con o do seu interlocutor, ponhense-lhe diante e agarram-lhe de um boton do chaleco.) A minha tia dona Trânsito pertencia, em câmbio, á categoria dos pensadores dinâmicos. Era realista, como Aristóteles. (-Non me fales desse individuo – dixo-me certa vez que eu lhe citei a Platon -, que inventou a forma de facer perder o tempo ás muchachas.) E circulava velozmente pela casa repartindo ordems e amonestacions, que surxiam como ásperos corolários de unha continua disertacion sobre a conxénita estúpidez da metade do xénero humano. Mas emquanto se detinha, era como um senador que cessa no seu mandato: perdia a eloquência e as ideias abandonavam-na.
ARTURO CANCELA
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O LUGAR DE SACRISTAO
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Nao estava no propósito do príor desgraçar o rapaz. Pelo contrário. Quando o chamou, e com grande argumentaçao o convenceu a ficar a substituir o pai, cuidava até que lhe facia um especial favor. Homem prático, embora tivesse por ofício tratar de coisas do céu o seu forte eram assuntos cá deste mundo. Negociar em minério, granjear bons lameiros, criar gado. E dizia-lhe: -Bem vês, numa terra pequena, onde nao há ganhos, um vintém que seja faz sempre arranjo. Ora tu sabes muito que o lugar de sacristao é unha pingadeira. Sao as missas, os casamentos, os baptizados… -E os enterros…. -Evidentemente! Mas que tem lá isso? -Nao sei, nao gosto. -Oh! homem de Deus, olha que tudo é preciso neste mundo. Se nao morrêssemos, comíamo-nos aqui uns aos outros. -Deixá-lo! Antes quero ganha-lo á enxada. -Nao dês respostas á toa! Pensa primeiro. Está pensado. Abrir covas, nao… E tu a dar-lhe! Nao plantas bacelo? Nao saibras? -Pois saibro. -Entao? -É muito diferente. -Parece-te. Tudo é terra! O Felisberto ouvia aquelas heresias, a olhar o padre com desconfiança. Estás admirado? -Se quer que lhe fale franco… Eu compreendo. Mas nao há motivo para espantos. O corpo, quando a alma o deixa, é um monte de estrume a apodrecer. -Será Eu é que nao tenho feitio… -Qual nao tens! Acostumas-te, que é um regalo. Depois já nem reparas. -A modos que até o estômago se me revira só com a ideia… -Mau! Que diabo de homem és tu ?! Cabeçudo, o mal era o prior pensar numa coisa. Enquanto nao levasse a sua avante, nao sossegava. E tanto teimou, tantas voltas lhe deu, que o pobre do Felisberto acabou por se conformar. -Pronto, seja. Bem me custa….
-E nao te arrependes, verás. Eu tinha outros que queriam o lugar. Bastava acenar-lhes. Mas prefiro que fiques tu… -Muito obrigado. -Portanto, estamos entendidos. Posso contar? -Pode. Naquela aceitaçao resignada, via o padre a luz do bom senso a reluzir no espírito do rapaz. Quando na verdade, ela significava apenas uma renúncia impotente a felicidades futuras que o instinto do Felisberto pressentia. -Sempre te resolveste? – quis saber, logo a seguir, a Filomena Velha, a beata mais categorizada da aldeia, que de longe vigiava a conversa. -Resolvi. -Custou! Tolo, que ias atirando com a sorte pela porta fora! -Se calhar atirei mas foi com outra coisa… -Que coisa? -Sei lá… Era um presságio vago, um pavor difuso que o afligia. A causa verdadeira de tal medo, nao a sabia dizer. Quando na conversa com o prior insistia na repugnância que sentia pelo serviço no cemitério, agarrava-se a uma tábua de salvaçao. A realidade da sua recusa tinha raízes mais fundas. -Acredita que fizeste bem! – teimava a Filomena. -Nao sei se fiz bem, se fiz mal. -Quem anda no serviço de Deus faz sempre bem. -Veremos. Tempos depois, ainda o sacristao mantinha no espírito e nas palavras a mesma incerteza quanto á excelência do emprego. No fim de uma semana de missoes, quando a santanária se babava de felicidade, e queriq lógicamente compartilhar a sua alegria com o Felisberto, ouviu esta enormidade: -No dia em que me meti nisto, se tenho quebrado uma perna… Eu benzo-me! Pareces maluco. Olha que os tempos vao ruins! -Ás vezes sabe melhor uma malga de caldo comida com gosto, do que… -É o que te parece. Avisado pela devota, o prior acudiu ao desânimo do rapaz. Também a ele lhe custara engrenar naquela vida de incensos, velas, pecados e agonias, que tinham sempre um desfecho tumular. Mas fez-se forte, que remédio, e agora nem dava conta.
Grato ás palavras de estímulo que ouvia, o Felisberto começou também a lutar. E com o andar do tempo já lhe nao metiam tanta afliçao as missas intermináveis, a gritaria dos miúdos ao pé da pia da água benta, e as caveiras que ia desenterrando sempre que abria uma campa nova. E quase se esquecera da relutância com que aceitara o lugar, quando teve, finalmente, a chave dos seus misteriosos e aparentemente absurdos pressentimentos. Morrera sempre pela Deolinda. Desde garoto que sentia um gosto particular ao vê-la passar, muito ruiva e muito espevitada. Ambos da mesma criaçao, sem saber como, a imagem da rapariga foi-o acompanhando no crescimento. E, naturalmente, acabou por integrá-la na sua própria realidade. Sem nunca sequer lho dar a demonstrar, sempre que olhava o futuro via-se na companhia dela. Por isso, uma vez que ia ganhando o suficiente e podia pensar em arrumar-se, na primeira oportunidade que teve, abriu-lhe o coraçao. Encontrou-a por acaso no caminho da igreja. Toda desenganada, vinha de levar o almoço ao pai, que andava a lavrar no Borrajo. Depois de lhe falar do tempo e das sementeiras, habilidosamente foi encarreirando a conversa para o ponto que lhe convinha. A princípio, a cachopa fez-se desentendida. Mas apenas ele, claramente, lhe declarou que a pretendia, deu-lhe um nao redondo. Como um animal pacífico que recebesse uma chicotada, ficou petrificado de espanto e de pavor. Sem ela, a sua vida perdia todo o sentido. Contudo, passado o momento de dolorosa surpresa, sem despeito, humanamente, aceitou o desencontro amoroso. Agora quando a moça lhe explicou o motivo por que nunca o quereria, é que lhe caiu de todo a alma aos pés. -Nao. O homem que me levar, nao me há-de abrir a cova, se Deus quiser. Ah, que bem lho dizia o coraçao! Burro, que se deixara perder! Passou a noite em branco, a cismar na resposta da rapariga. E se abandonasse o lugar? Se nunca mais… Mas nao. O mal já nao tinha remédio. Nem ele seria capaz de lhe falar outra vez. No dia seguinte, a auxiliar o prior a paramentar-se, deu-lhe tal repelao na alva, que o bom homem perguntou, entre duas oraçoes: -Tu que tens? -Nada. E cada vez mais triste, o Felisberto continuou a sua vida de sacristao. Sempre soturno, foi ele que ajudou a casar a Deolinda e a tornar-lhe os filhos cristaos. Com a sua paixao recalcada, tocou-lhe a repique todas as vezes que foi preciso. .
O padre só dizia: -No domingo temos o baptizado de mais um crianço da Deolinda. -A que horas? -Depois da missa. E, acabada a celebraçao, lá estava el a puxar á corda do sino. -Porque nao casas também? – perguntou-lhe um dia o prior, depois de prender com a estola a mao do Ramiro, o último solteiro da geraçao do Felisberto. -Agora! -Entao, que idade rens? -Sei lá! A idade nao é o que faz. O padre nao compreendeu, mas nao quis aprofundar. A sua própria castraçao solidarizava-se mais fácilmente com um Felisberto mutilado e solitário. Contudo, passados anos, já quando o vento do outonoos abanava, gemeu: -Envelhecemos para aqui ambos como dois infelizes… O sacristao encolheu os ombros, resignado. -Calhou assim… E nunca o prior soube se a resposta do Felisberto era uma censura velada, nem o Felisberto se as palavras do prior eram um desabafo de alma. Evidente, só a velhice que os mirrava, cada vez mais enrugada e branca. O padre, trôpego, subia com dificuldade os degraus do altar, e quase que adormecia a ler o missal. Quanto ao Felisberto, esse tinha uma ronceira no peito que se ouvia do fundo da igreja. -Eles nao perdoam… -queixava-se o prior, cheio de reumatismo. -Já cá cantam setenta e très. Apesar de mais novo, o Felisberto parecia andar nos oitenta. Tais eram os estragos da doença e da solidao! -E tu, quantos? -Perdi-lhes a conta. Desde que a Deolinda o desprezara, o tempo para el deixara de ter medida. Ou era uma eternidade baça, ou aquel segundo nítido em que ela lhe dissera que nao. E a própria bronquite como que já facia parte dessa monotonia sem quebras. -Vai ao médico, homem! Trata disso! – teimava o prior, agarrado á vida, apesar dos achaques.
É crónico. Nao vale a pena. E o triste, acompanhado da gataria do peito, ia arrastando como podia o seu latim de coadjutor. Ás veces os acessos de tosse quase que o sufocavam. Mas lá continuava a mudar o missal e a chegar as galhetas, sem o amparo sequer dum coraçao condoído. No ramerrao da igreja, a gosma acabou por já nem causar impressao aos fiéis. -Temos um enterro amanha. -De quem é? -Da Deolinda. Teve um ataque há bocadinho, chamaram-me á pressa para lhe dar a extrema-unçao, e quando lá cheguei estava morta. É preciso tocar a sinais. Ficou pensativo, mas o prior nem deu conta. Saiu da sacristia, foi á torre anunciar a desgraça, e nesse mesmo dia, á tardinha, tratou de abrir a cova da que nao quiserq ser sua mulher por essa razao. Começou a cavar sem ânimo, aflito por dentro e muito infeliz. Iam saindo ossos, farrapos, tábuas, – o espólio habitual dos hóspedes passados. Mas nem reparava. Só os braços é que trabalhavam. A sua atençao estava ausente daquelas misérias. Ou se alheava para atender a um apelo insistente da memória, ou se concentrava no alvoroço do coraçao, a bater descompassado dentro do peito. Um suor frio, como nunca sentira, começou a humedecê-lo todo. Gotejante a princípio, alargava-se numa inundaçao. Pesadas as ferramentas pareciam de chumbo. Contudo, continuava a manejá-las, numa espécie de automatismo, como uma máquina em movimento que por sí só nao pudesse parar. Já fundo, quando a campa lhe dava pelo pescoço, o esvaiamento aumentou. Um garrote invisível apertava-lhe a vida. Pousou a pá e encostou-se á trincheira. -Estou pronto. O lusco-fusco embainhava de tristeza maciça os quatro ciprestes que guardavam os cantos do cemitério. Nos buxos alinhados havia uma paz cansada, de sono. -Acabou-se o fadário… Num adeus quase indiferente, rolou a cabeça á superfície do mundo, como um roberto que nao tivesse corpo. Cruzes e mais cruzes… Valeu a pena!… Depois, sem forças para sair do buraco, aninhou-se nele o melhor que pôde. -Esta é para mim… -murmurou. -A dela que lha faça quem quiser. Escusava de ter medo , afinal…
miguel torga
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O COMÉRCIO
O comércio é talvez indispensável nas formas de sociedade que conhecemos. Cria riquezas, desperta invejas, dá lugar a guerras grandes e pequenas, dá trabalho a milhoes. Todavia, para mim, numa escala de valores das actividades humanas, o comércio nao ocupa um lugar de destaque. E se num futuro remoto, por milagre ou engenho, o mundo conseguir realizar os ideiais da liberdade, igualdade e fraternidade, e o homem deixe de ser o lobo do seu semelhante, é bem possível que o comércio desapareça. Entretanto, poderosos ou humildes, negociando em música, platina ou agrioes, os que nele se ocupam desunham-se a comprar, a vender, a trocar, a revender, a enganar, a roubar, empurrados pela ânsia do lucro e pela satisfaçao do instinto. Mas talvez porque Deus me negou as qualidades precisas para, mesmo de forma simples, negociar com êxito, o comércio sempre exerceu sobre mim um singular fascínio. E perco-me a imaginar que sonhos viverá o comerciante que hoje deixou este folheto na minha caixa do correio.
EXÓTICA – Centro de Serviços
Grande sortido de cosméticos para cabelo preto
Cartoes pré-pagos para telemóveis
Bilhetes de aviao para todos os destinos
Transporte aéreo e marítimo de mercadorias para o Suriname
Câmbio de moeda estrangeira
Transferências de dinheiro
Venda de caixas em vários tamanhos
Conservas e bebidas
J RENTES DE CARVALHO
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PUNTUALIDADE E DEMOCRACIA
Puntualidade portenha.
O professor Katzenmayer estivo com nós o domingo pola tarde e prometeu-nos com teutónica solemnidade voltar o dia seguinte. Mas transcurridas segunda, terça e quarta feira, do ilustre antropólogo e folklorista xermano-arxentino non tivemos notícias; parecia um aviador sudamericano em pleno “raid” continental. Por fim onte, o professor Katzenmayer fixo-nos passar a sua tarxeta, unha tarxeta de sete por quatorce centímetros que qpenas alcança a conter a mitade dos seus títulos académicos. -Non puiden assistir puntualmente ó meu encontro -dixo-nos a guisa de disculpa -porque estiven estudando a question da puntualidade portenha. Asombre-se você: descubrin que os portenhos son tan puntuais como os ingleses. Non se lhes nota: mas son-no. O que passa é que o portenho non acredita na puntualidade dos demais; enton, por cortesia, chega unha hora ou duas mais tarde. Apresentar-se á hora convida seria obrigar a outra pessoa a oferecer escusas humilhantes. A sua delicadeza obriga-o assim a retrassar-se. Os portenhos bem educados son de unha cortesia somente comparábel á dos xaponeses. Y de essa combinacion entre a cortesia nipona e a puntualidade britânica resulta a aparente informalidade arxentina.
O portenho na rua
– Você cré ser aparente a nossa clássica impuntualidade? Sim, senhor. É o resultado d’unha suxestion colectiva. Todos acreditamos que os demais non concurrirán á hora e, em consequência, non nos apressamos, para non deixá-los em descuberto. -Observe Você Doutor Katzenmayer, que está falando em primeira pessoa do plural ó referir-se aos portenhos. -É que eu sou xermano-arxentino. Sinto-me alemán pelas minhas qualidades e portenho pelos meus defeitos. -Muitas graças. -Non há de qué. É a maneira como nos naturalizamos os extranxeiros. Mas non me arraste você, ó vício arxentino da divagacion. Estabamos falando da puntualidade. O portenho é puntual. mas é um homem que cede fácilmente ás tentacions. Quando sai á rua está decidido a chegar onde se propon; mas a rua está pragada de amigos que o palmeian e o detenhen a conversar. Um, dous, tres amigos no espaço de poucas quadras. Ó quarto amigo, o homem que vai a este encontro perdeu quince minutos e recibiu quatro versions diferentes do último chisme político e outros tantos datos contradictorios para as carreiras. Xá perdeu todo entusiasmo por chegar a tempo: detem-se ante as vidreiras e deixa ir os seus olhos e a sua imaxinacion detrás das mulheres. Por sua parte, ó outro concurrente á entrevista tamém lhe passou o mesmo. E quando por fim, os dous se encontran, unha hora e meia despois do convido, trocan um saúdo e unha mentira. O portenho é puntual por natureza, mas non acredita na puntualidade; assim como é demócrata por temperamento sem crer na democracia. De ahi que se retrase nos encontros, despois de importunar na sua casa a todo o mundo para non chegar tarde; e que falando de política todo o ano, deixe de votar quando chegan as eleicions. O portenho é um ser contradictorio, e eu como investigador, lamento muito que a sua raza se vá extinxindo. Porque non todos os habitantes de Buenos Aires son portenhos. Despois deste exordio, o doutor Katzenmayer entrou em matéria. Falou largamente sobre as abelhas selváticas da zona subtropical da República, sinalando o cronista a impossibilidade de extrair cera dos panais das lechiguanas. Mas como o doutor Katzenmayer fixo várias citas, e como por própria confession é portenho nos seus defeitos, por conseguinte as referencias equivocadas son um vício portenho, necessário será ratificar os seus datos antes de dar-lhes publicidade.
ARTURO CANCELA
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OS LIBROS
Na minha sala de trabalho haverá cerca de cinco mil libros. Muitos deles poderiam ser atirados ao lixo e nao seria perda. Mas eu, que me sei sem espírito de coleccionador, nao consigo separar-me de libro nenhum. Alinhados nas estantes como campas num cemitério, corro-lhes as lombadas com os olhar e todos eles, bons ou maus, chamam uma recordaçao. Difícil é o nao entristecer com tantos autores geniais que nunca fui capaz de seguir nem apreciar – ó miséria das correntes, das escolas e das modas! – , mas a quem era devido prestar homenagem, e prudente, porque de boa política, copiar o exemplo dos seus nebulosos escritos. No essencial do mundo, pouco ou nada muda, razao por que as mais das veces o rei ainda vai nu, e continua a ser de bom aviso nao dizê-lo de modo que todos oiçam.
J RENTES DE CARVALHO
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UM ROUBO
Foi numa noite medonha, cheia de água e gelada, que o Faustino assaltou a Senhora da Saúde. Há tempos já que a ideia desse roubo o obcecava, mas a mulher e o demónio duma hesitaçao imbecil tinham-no afastado disso. Ainda bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que ele pudesse finalmente realizar o sonho. Punha-se a deitar contas á vida, ás casas da povoaçao onde lhe fosse possível arranjar meia dúzia de vinténs para matar a fome naquela grande invernia, e nada, a nao ser a Senhora da Saúde. Mas é que nada! Abaças era uma terra pobre. Dinheiro , do contado, só o Albertino. Infelizmente, ao Albertino, tudo menos mexer-lhe num gravelho. Forte e valente como um toiro, ainda por cima dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. É claro que havia o recurso de alargar os olhos pelas aldeias vizinhas. Sómente: além de o temporal tolher os passos ao mais honrado, como o ano ia de fome, todos viviam de olho aberto e de porta trancada. De resto, nao se sentia já com forças para repetir a façanha de Freixoedo. Cinco costelas partidas sao muitas costelas. Sem contar – e aqui é que a porca torcia o rabo – com o aviso solene do juiz: -Dou-lhe apenas quatro meses, atendendo a que já foi bem convidado e que é esta a primeira vez que aqui me aparece. Mas nao volte! De contrário, perca o amor á liberdade. Ora, uma coisa é passar uns dias na cadeia. de Alijó, e outra ver-se um homem metido numa penitenciária a vida inteira. Apertada por tal arrocho, a imaginaçao do Faustino sucumbia. Até que,ressuscitada por aquele buraco no estômago que nenhum aguaceiro enchia, começou de novo a namorar a Senhora da Saúde, rica e desamparada na serra. Nem juiz, nem testemunhas, nem o delegado a berrar… Nada. Decididamente, o grande tiro era ali! Naquela noite, depois dum caldo que nem a caes, e de todas as demais hipóteses arredadas, a miragem voltou, mas já sem a indecisao das tentaçoes anteriores. Nao havia que ver. O sítio nao podia ser melhor; á porta, bastava-lhe um empurrao; o resto, quê? Acender uma vela das do altar, forçar a fechadura da caixa das esmolas, encher o bolso, e ala morena.
A mulher, sem migalha de pao na arca e sem pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o remédio habitual daquelas penúrias era ir buscá-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, á meia voz, começou a repisar a ideia, desaprovou mais uma vez o projecto sacrílego. A outro lado qualquer, estava de acordo. Á Senhora da Saúde, nao. O Faustino nem a ouviu, ocupado como estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos últimos escrúpulos. Debruçado sobre as pernas, com os dedos dos pés a espreitar das meias rotas, continuou a aquecer-se aos tiçoes apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enumerar uma por uma as mil vantagens do negócio. Coisa realmente fácil, sem nenhum perigo, e que trazia a soluçao do aperto em que estavan. Por ser capela?! Valha-nos Deus! O essencial é que na caixa houvesse algum… Ao menos cem mil réisinhos! Ha?! Pois nao teria sequer cem mil réis?! Interpelava a companheira, que nao colaborava já de nenhum modo naquela luta. Embrulhada no xaile puído, aninhara-se quase em cima do borralho, e fechava os olhos. O Faustino teve de responder ás suas próprias perguntas. Cem mil réis, e a contar muito por baixo. Até era ofender a Santa, supô-la com menos capital na arca. Á medida que ia pondo na balança as justificaçoes do seu desejo, o Faustino via oscilar o fiel da decisao, e pender para o lado que lhe convinha o prato reluzente da fortuna. Nao havia que ver. As coisas eram o que eram. A evidência metia-se pelos olhos dentro. Por volta da meia noite as derradeiras amarras da consciência acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! Há certas alturas em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutiço! Ergueu-se. Do Faustino titubeante, quase a deixar fugir a sorte que tao generosamente lhe sorria, já nao restavan sinais. Agora estava de pé um homem magro, baixo, de barba restolhuda e olhos de azougue, vivo, flexível, decidido como uma doninha. A mulher nem dormia nem velava. Continuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse por dentro. Ele também lhe nao falou. Ladrao agora duplamente culpado diante da desaprovaçao dela, foi á loja buscar os precisos e desapareceu na escuridao do quinteiro, sombra muda a esgueirar-se na sombra.
O temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia-se a nortada a pregar nos braços dos castanheiros e as bátegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um taró de repassar fragas. Faustino, vencidos cautelosamente os cem metros da quelha em que morava, meteu-se á serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trás, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara forças para tomar a única resoluçao acertada, era preciso nao demorar. Infelizmente, a Senhora da Saúde nao ficava logo ali. Quase no termo de Valongueiras, distava de Abaças, uma boa meia hora. Ainda por cima, caminhos maus. Ou lajes com relheiras que lembravam rugas em coiro de atanado, ou entao saibro ensopado e atoladiço. Trilhos escomungados! Mas desembelinhava as canelas o melhor que podia, , e meia hora, que afinal queria dizer meia légua, passa depressa. É questao de um homem ir deitando contas á vida enquanto as pernas passeiam. Cem mil réis, na pior das hipóteses, estavam-lhe no papo. Só muito azar. Mas nao. A Senhora da Saúde governava-se… Nem havia outra tao agenciadeira nas redondezas… Na carvalhada da Arca os pensamentos mudaram-lhe de rumo. A tosca memória erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado naquele sítio, chamou-o a uma realidade mais dura. O Joaquim Teodoro, ao cabo, era ladrao também. Nao de caminhos nem de igrejas, é certo, mas de roletas, que dá mais e sem nenhum trabalho. Basta lume no olho e dedo. Justamente o forte do Joaquim Teodoro… Que habilidade! Isso entao na vermelhinha nao havia segundo! O mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as maos o último tostao, jurou-lhe que no ano que vinha nao vigarizava ele mais ninguém. Dito e feito. E ali estava agora a alma do Joaquim Teodoro pintada a branco no granito, entre linguas de fogo, de maos erguidas a pedir um padre-nosso! E se ele, Faustino, tirasse o chapéu e atendesse a imploraçao? Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Saúde, tinha a sua graça! Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa. E, á medida que a carvalhada foi ficando para trás, a imagem do Joaquim Teodoro começou a desvanecer-se.
Insensívelmente, todo ele ia aderindo á realidade erma e negra que o cercava. Também onde o raio da Santa viera fazer o pouso! Era mesmo desafiar um homem. O pior é se,… Mas nao. A sorte dele havia de ser tao caipora, que encontrasse a caixa sem um vintém? A esta íntima interrogaçao, os olhos responderam-lhe bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da ermida a reluzir Embora gatuno de profissao, pois que nao se podia chamar cesteiro a quem só lá de tempos a tempos fazia um cesto por desfastio, Faustino, mal deu de chofre com a capela, teve um baque no coraçao. E parou. Nunca assaltara nenhum lugar sagrado. Sempre era roubar a Senhora da Saúde! Mas a hesitaçao durou um minuto apenas. Molhado da cabeça aos pés, o próprio organismo é que o impeliu para a frente, para dentro de uma casa com telhado. Nao havia tempo a perder de maneira nenhuma. Nem o corpo, nem o espírito lhe podiam consentir uma fraqueza em semelhante ocasiao. Para diante é que era o caminho! Num ímpeto, chegou-se á porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto… Escancaradinha! Com a respiraçao suspensa e todo num formigueiro, entrou de rompante no poço de escuridao. Dentro, o primeiro impulso do seu instinto foi fechar a porta de novo. Mas a razao, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo nao, deixar o trânsito desimpedido! Riscou um fósforo, de cabelos em pé. Até se desconhecia! Ninguém as calça que as nao borre, bem se diz lá!… Na luz incerta que se fez, pôs-se a olhar febrilmente para todos os lados e a ouvir ao mesmo tempo, de orelha fita, o silêncio pesado da capela. Felizmente, nada. Imóveis e espantados, os santos pareciam surpreendidos, mas nao faziam um gesto para defender a moradia. Realmente, todos de pau! Que sossego! Chegava a parecer mentira que uma casa de Deus tivesse de noite um ar tao desgraçado. Nos palheiros, ao menos havia ratos! Deu alguns passos. Como o fósforo estava no fim e já lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S. José, logo á entrada. E, quase serenamente, acendeu a vela dum castiçal.
A igreja clareou quanto a luz pôde. E, mais iluminada, tornou-se ainda mais simples, mais natural. As imagens já nem sequer o ar atónito de há pouco conservavam; e o resto, francamente, sem nenhum ar divino. Toalhas, bancos, jarras… O trivial. Tanta mortificaçao inútil! Voltou-se. A caixa das esmolas estava ao fundo, enterrada na parede que ligava o templo ao cabido. Era do lado de fora, pela fresta cavada na cantaria que os devotos deixavam cair a boa massinha. Pinga que pinga… Uma mina! Com passos de lâ, chegou-se. Caramba, seria que nao estivesse a abarrotar?! Pôs a luz no chao, e meteu maos á obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa á martelada… Mas nao é que a fechadura parecia de papelao e cedia ao cinzel sem resistência nenhuma?! Tudo ás mil maravilhas… Um mês de tripa forra njnguém lho tirava. Desgraçadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na véspera, ou entao ja nao havia fé neste amaldiçoado mundo. Ah! mas ele, Faustino, nao se deixava enganar assim. Nao. Tivesse a Senhora da Saúde paciência. Lá pouco dele, isso vírgula! Vinha com boas intençoes. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse, e passava tudo a patacos. Pegou de repelao no castiçal e avançou indignado para o altar mor. Nao acreditava que no sacrário a miséria fosse também assim. Era. Os dois SS entrelaçados na portinhola queriam dizer apenas um buraco escuro, vazio, onde os seus dedos resolutos tactearam em vao. Ladroes! Filhos duma grande… Nem ao menos o cálix! O que vale é que havia ainda a sacristia para revistar. E que nao estivessem lá os apetrechos devidos! Ia á casa do do abade, que lhe havia de pôr ali o que pertencia á santa… O cálix, a cruz, o turíbulo, tudo. E a bagalhoça, claro. Pouca vergonha! Investiu pela sacristia dentro. Queria ver quem levava a melhor. Mas qual o quê! Estava mesmo roubado. Flores desbotadas de papel, tocos de círios, um crucifixo partido… Que cambada! Desanimado, pegou na luz. Larápios! Á medida que o desespero tomava conta dele, perdia o resto duma precauçao que a prudência lhe aconselhara. Falava alto, rogava pragas, caminhava pela capela abaixo com a indignada razao de quem andava na sua propría casa a verificar os danos dum assalto de bandidos! Canalhas! Até que chegou ao fim da nave. Olhou ainda os altares num relance. Os santos lá continuavam parados como há bocado, e a olhá-lo agora a modos de caçoada. Sim senhor, uma linda figura de pedaço de asno que fizera diante deles! Pôs o castiçal no chao, soprou á vela, puxou a porta e saiu.
O temporal redobrara de fúria. A atravessar o adro, com a desilusao a percorrer-lhe as veias, é que via bem como a escuridao era cerrada e como a chuva lhe trespassava o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro! Na carbalhada da Arcâ já os ombros, de entanguidos, se lhe queriam meter pelo pescoço dentro. Filhadinho! A roupa ia-lhe tao colada ao corpo que parecia que era a pele. Cadela de sorte! Na curva, lá estava outra vez a alma do Joaquim Teodoro a pedir o padre-nosso. Para que lambesse o Joaquim Teodoro! Padre-nossos, padre-nossos, ia-se a ver, e a caixa da Senhora da Saúde sem um vintém! Ah! mas o abade punha-lhe ali a massa e o resto com língua de palmo. Oh, se punha! Ás quatro da madrugada entrou em casa. Como um pitinho! A mulher lá estava ainda no mesmo sítio, calada, triste, longe da vida. Nao lhe falou. A escorrer água, gelado, foi direito á cama, despiu-se e meteu-se entre as mantas a bater os dentes. Pela manha ardia em febre. E daí a seis dias, depois de um cáustico lhe abrir no peito uma bica de matéria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso chamar o confessor, a ver se ao menos se lhe podia salvar a alma. Veio entao o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou os olhos, inteiriçou-se no catre, apontou-o á mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da bronco-pneumonia, rouquejou:
-Ladrao! Prendam-no, que é ladrao!
MIGUEL TORGA
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A TERRA
Nascido de gente que através dos séculos amanhou terra, viveu da terra, gente que via na posse de terra nao somente uma garantia de vida mas também uma forma de felicidade, sinto-me estranhamente desapegado do campo.
As emoçoes que me dá uma serrania, um vale fértil, um lusco-fusco no monte, a alegria que me causam as cores do Outono, tudo isso sou capaz de pôr em texto mais ou menos escorreito (hélas, sempre insatisfatório). Todavia, esse descrever é uma arte, nao é um sentimento. E embora goste de subir a um pico, descer uma encosta, aspirar os cheiros dum pinhal, nao me peçam para podar uma vinha ou colher azeitona.
Essa aversao ao esforço físico que o trabalhar a terra exige, levo-a á conta do muito que as geraçoes dos meus antepassados sofreram na lavoura. Sacrificaram-se eles para que eu me pudesse libertar, e tao radicalmente me libertei que até da carga genética me desfiz.
J RENTES DE CARVALHO
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