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Á noite os balouzos son brazos
e os escorregas pernas deslizantes
por onde o neno se fuga,
ese neno que respira como unha árbore
movente máis…
Ese neno fun eu porque nunca morrín
nun ar estranxeiro.
Ese neno nunca fun eu porque brilla
na mirada das estrelas
e no monear das flores.
Ese neno é como os outros nenos
porque sabe da alegría
e do bris
e nunca lembra chaves
e só recoñece a memoria
nunha moeda achada
nun xardín de xogos
na mendiga noite.
francisco candeira
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Aferrar-se ao pessimismo? Sartre nao o fará, certamente. E se nao o faz é devido ás causas do terceiro abalo que agitará o século XX, e de cujo espectro nao se poderá libertar. Trata-se da Revoluçao Russa. Passarao uns meses sobre o levantamento de fevereiro de 1917 até que Lenine entusiasme os minoritários bolcheviques e articule o poder dos sovietes, preparando tudo para o levantamento de novembro. Este levantamento nao só afasta a Rússia da disputa mundial, como estabelece uma forma de poder absolutamente estranha aos modelos políticos estabelecidos. É difícil imaginar a estupefaçao que a revoluçao semeia entre as elites dirigentes e o assombro que provoca entre filósofos, homens de letras e intelectuais em geral. Nao existe figura representativa da década de 20 que nao se sinta fascinada pelo sucedido. E quem equacionava alguma rejeiçao espera astutamente que o temporal amaine. E Sartre, o que acha? É preciso referir duas coisas. Por um lado, contempla com certo distanciamento aquilo que acontece, embora manifeste uma íntima satisfaçao, como relata Beauvoir em “A Força da Idade”, obra em que evoca esta lembrança: O mundo estava em movimento, Sartre perguntava-se com frequência se nao nos devíamos ter solidarizado com os que trabalhavam para aquela revoluçao. (…) Mais de uma vez durante esses anos Sartre sentiu-se vagamente tentado a filiar-se no Partido Comunista; as suas ideias, os seus projectos, o seu temperamento, opunhan-se. Mas embora gostasse tanto da independência como eu, tinha muito mais sentido das suas responsabilidades. É evidente que a autora se refere ao efeito europeu, e especialmente françês, que tentava replicar o sentido da Revoluçao Russa no seu próprio território. Mas a confissao refere uma segunda questao, que diz respeito a Sartre ter começado a simpatizar com a filosofia que inspirou as conquistas de novembro de 1917, ou seja, o marxismo, que já iniciou o desenvolvimento fundamental que o transformará numa proposta filosófica omnipresente ao longo do século XX. (…) O século XX avança. Sartre assume o seu papel de testemunha e activista. Neste complexo contexto social e histórico, é preciso situar a aventura de quem, extremadamente atento aos acontecimentos que afectam a sociedade, nao para de intervir e de fundamentar a sua intervençao numa impressionante proeza intelectual.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Xa ouvistes as falas das mulleres
no mercado
e os berros dos homes nun xogo de balón
e o comentario dos rapaces
á saida do cine
mais ningún sonido hai máis fermoso
que as voces da xente na praia:
falan, gritan, xogan entre as ondas
e toda palabra semella moi lonxana
e allea a eles mesmos.
Como se un grito deviñera peixe
e che entrara polo ombro
che baixara ao brazo
deica á man
e se fugara
mar adiante
e só gañaras
un brillo
na gorxa e nos ollos
mentres mergullas
e despois pensas
que noutra praia
solitaria só quedara
un home
tendido, vencido, ferido,
coa súa armadura prateada
inmune á soidade
porque tres ou catro ondas
o socorren
e unha onda lle di ao oído á outra onda
(á que está máis cerca del, á que el máis quere).
dille que queres falar con el, dille.
francisco candeira
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A partir de Zurique, Tristan Tzara começa a perturbar o tranquilo ambiente cultural da Primeira Guerra Mundial, com a fundaçao do movimento dadaista. Pouco depois do fim da guerra muda-se para Paris, onde é recebido com solemnidade pelos surrealistas. A leitura dos seus “Sete Manifestos Dadá” torna evidente a sua vocaçao crítica e extremista. O Manifesto Dadaísta de 1918 termina com uma secçao intitulada “Nojo Dadaísta” que é esclarecedora: “Todo o producto do nojo suscetível de se converter numa negaçao da família é DADÁ; (…) aboliçao de toda a hierarquia e equaçao social instalada para os valores dos nossos lacaios é DADÁ; (…) Aboliçao da memória é DADÁ. (…) Tzara entra para a resistência antinazi. Em 1947, filia-se no Partido Comunista Francês, de que se afastará devido á invasao da Hungria pelas forças do Pacto de Varsóvia. Deve chamar-se a atençao para o facto de o dadaísmo ter, desde o início, uma clara vocaçao política. Também em Tzara, mas sobretudo na sua vertente alema, em que artistas como John Heartfield, Richard Hulsenbeck ou George Grosz oferecem uma arte com uma clara motivaçao política, ao ponto de o dadaísmo aleman apoiar com entusiasmo o levantamento espartaquista liderado por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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ofréceme contemplar tres formigas
a evadirse prudentemente
da súa columna, que sobe e baixa
o valadiño en que estou sentado.
No chan camiñan as tres ínfimas formigas.
Móvense, sinuosas, entre o sol e a sombra,
pois un arbusto reflecte as súas follas
na grava ennegrecida
onde apoio os meus pés.
Mais un bris desloca e confunde e mistura,
presuroso, os espazos de sol e os espazos
de sombra. E así, onde antes era o sol,
agora é a sombra,
e onde hai un intre era a sombra, agora é o sol.
E as formigas reciben o sol e a sombra,
ou pasan, cando amaina, do sol para a sombra
e da sombra para o sol.
(Unha ponta de cigarro, coa cinza
moi visíbel, é algo tremendamente grande
para a vista, case unha torre derrotada).
Tras contemplar as tres diminutas formigas
e a columna toda que se dispón
(ondulante) enteiramente na sombra,
atravesando o valadiño,
podo pensar que estas tres formiguiñas
andan a xogar co sol e coa sombra,
xa recordando o sol, xa recordando a sombra,
e coa sombra no sol e o sol na sombra –
axudadas polas follas e o bris.
E tal como o sol entra no inverno
ou como as tebras poden sorprender o verán,
eu podo pensar que hai un movimento lúcido
que demuda a vida (en alegría, asombro, fermosa sorpresa)
se, transmutándose, se sublevan corazón e pensamento.
francisco candeira
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Naturalmente, por ser muito jovem em 1914, Sartre nao participou no conflito. Porém, sofreu as consequências de forma indirecta, visto que a Alsácia era a pátria dos seus antepassados- (…) Arrancada á Alemanha e anexada á geografia francesa, facilitou a mudança da família materna de Sartre para Paris. Mas sobre tudo a referência indirecta da guerra, que se transformará em objecto de reflexao para filósofos e homens de letras, semeou duas vivências em Sartre que o acompanharam muitos anos: por um lado, um pessimismo profundo quanto á possibilidade do progresso e do encontro colectivo, e, por outro, um nao menor pessimismo quanto á possível bondade do homem. Isto é visível nos seus primeiros textos narrativos – A Náusea ou O Muro- e, sem dúvida, nas suas obras teatrais. E esse estado de espírito encontrará traduçao filosófica em “O ser e o Nada”, o tratado em que a reivindicaçao da liberdade absoluta conduz á defesa de uma moral individualista e sem solidariedade, e isto apesar de, naquela altura, Sartre já ter iniciado o seu caminho rumo a uma politizaçao antiburguesa e pró-socialista. Desta forma, Sartre associava-se ao horizonte crítico com o poder social e político estabelecido. A visao sombria e angustiante da situaçao nao foi, nem de longe, exclusiva de Sartre. O tema abunda na literatura da época. As consideraçoes sobre os acontecimentos de 1914 a 1918 eram de uma acidez extraordinária. Podemos e devemos relembrar, por exemplo, Tristan Tzara, que inspirou em grande medida o projecto surrealista françês. Exilado da sua Roménia natal em Zurique, onde conheceu Lenine, provocou um dos ataques mais directos e frontais á cultura vigente, mostrando um ódio juvenil extremo aos mestres e á civilizaçao que conduziram á hecatombe que a geraçao viveu. O movimento que criou, denominado dadá, procurou o esquecimento da aventura cultural e o início de uma nova forma de entender a sensibilidade e a criaçao. Em 1920, mudar-se-ia para Paris, onde foi recebido com entusiasmo pela tribo surrealista, que assumiu alguns dos princípios que Tzara começara a expressar nos seus periódicos manifestos. Culturalmente, o dadaísmo colheu alguns dos seus mais importantes frutos na França de Sartre, tanto na sua versao literária como na sua projecçao política- e sobretudo no surrealismo. Breton, pontífice do surrealismo e militante activo do confronto cultural contra quem, na sua opiniao, conduziria a Europa ao extermínio e á banalidade, derivará para uma aproximaçao á política comunista a par de poetas como Aragon ou Éluard. Daí que o “Segundo Manifesto” incluia de forma explícita Marx como profeta, juntamente com Rimbaud, o poeta conflictuoso e radicalmente insubmisso em relaçao á cultura europeia. O resultado tem uma dupla natureza: mudar a vida (Rimbaud), mudar o mundo (Marx). E esta vontade de mudar aposta numa radicalizaçao revolucionária de sinais extremos. Sartre está situado neste horizonte marcado pela Primeira Guerra Mundial. Escreverá mais tarde, com uma contundência surpreendente, que o seu ódio á burguesia nunca se vai extinguir: é a civilizaçao que desembocou na ruína e na desolaçao.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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moi importante, moi solitário,
e un edificio que están a derrubar.
No paseo nace unha herba
moi verde entre os paralelopípedos
de pedra e entre as pedriñas:
pasa moi pouquiña xente, case ninguén.
En frente, percorrido
polo silencio de gatos noctámbulos,
hai outro paseo
limitado por un gran muro branco
entre dúas antigas farolas de rúa.
Na parte superior deste muro, na terra,
nace e trepa unha enredadeira
que avanta cara abaixo e cara arriba,
enorme, a través dunha rede alta.
Esta trepadeira con flores violetas
entra polos meus soños adentro
levándome ás rexións da miña infancia,
cando eu xogaba cunha trepadeira.
Agora, á noite, trepa tamén a miña infancia.
francisco candeira
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Breve reconstruçao do contexto social e histórico que alimentou o pensamento sartriano recordando a situaçao filosófica em relaçao á qual se posicionou. Para isso, temos de recuar ao coraçao do século XIX, esse momento em que o horizonte filosófico está enquadrado por Hegel, ou seja, pela força do pensamento dialéctico, essa consideraçao do real que entendia os jogos sociais como confrontos que, por fim, se resolveriam num momento esplendoroso, no previsível fim da história. Nao é apenas Hegel que se espraia nesse pensamento central. Disse já que a força do pensamento dialéctico é a marca fundamental do século XIX, e de facto, com as variaçoes que tentam juntar autores como Marx ou Bakunin, o núcleo da dialéctica permanece, como se estas variaçoes fossem secundárias. Contudo a aventura hegeliana começou a ser considerada pelas autoridades conservadoras como um adversário que convinha importunar. A operaçao de ataque tornou-se explícita em 1841, quando Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, que fora condiscípulo de Hegel, com quem partilhara quarto durante o período em que os dois estudaram em Tubingen, foi chamado por Frederico IV da Prússia á Universidade de Berlim, alguns anos depois da morte do seu velho amigo, para tentar “extirpar as sementes do dragao hegeliano”. O monarca sabia que essas sementes tinham começado a florescer na consciência e na práxis do que conhecemos como esquerda hegeliana, esse grupo de jovens estudiosos que tentavam orientar a dialéctica para uma utilizaçao política e subversiva. Tratar-se-ia de uma oportunidade tardia, surgida apenas quando as autoridades se deram conta da “perversao da dialéctica”? A dialéctica seria considerada um perigoso inimigo em 1841? Anteriormente, teria sido um saber inocente e neutro, suportável? Nao me parece que se possa aceitar essa ideia se tivermos em conta a conhecida animosidade e a antipatia que lhe era professada por Schopenhauer, concorrente de Hegel enquanto docente, ferozmente antidialéctico, e que, durante a vida do afamado filósofo, clamou continuamente contra os “disparates” hegelianos e a sua “salgalhada verborreica”. A verdade é que se fora organizando uma frente anti-hegeliana que, por outro lado, nao se apresentava como tal: tratava-se antes de apariçoes dotadas de maior ou menor fragilidade, mas que se foram propagando nas entranhas do ofício filosófico. Foi nesse espírito que apareceu Kierkegaard, que se deslocou a Berlim para estudar filosofia e se declarou partidário fervoroso da subjectividade diferenciada. Toda esta agitaçao filosófica daria lugar á filosofia nietzschiana. Para captar o seu espírito bastará a alusao a “Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral”, ensaio no qual Nietzsche, perguntando-se o que é a verdade, afirma que é “uma multidao móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos”, um conjunto de ilusoes “que esqueceram o que sao”. Como se pode perceber, a revogaçao da filosofia como saber rigoroso é absoluta e o filósofo converteu-se num literato, no sentido mais comum da designaçao-, apesar de nao se apresentar como tal, mas investido da aureóla da respeitabilidade que lhe é concedida por exercer um ofício orientado para a descoberta da natureza das coisas, do homem e da sociedade.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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sobre outras follas caídas,
.num recinto asfaltado,
ou entre outras follas deitadas, irmáns,
xorde un silencio sublime, e un ermo.
Chega a folla ao pavimento
e, en silencio, descansa e morre.
Ou non morre, quizais non morre.
Quen morre, por un intre, é o ar.
A morte azul do ar sucede
mentres se desprende a folla e decide cair.
A morte azul do ar é un intre brevísimo,
é un paréntese de eternidade
(a folla imaxinariamente ábrese
en dous semi-ovoides
e cai no silencio).
E quen atinxiu o silencio
e a invisibilidade xa pode
adormecer sen dor,
como esta folla que cai ou caíu
ou como as outras follas xa caídas,
que aínda que mecidas polo vento
ou pisadas distraídamente por alguén,
xa non senten dor,
ou senten unicamente a dor
da súa unida e necesaria indiferencia.
FRANCISCO CANDEIRA
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Assim, juntamente com o que pode chamar-se retórica filosófica, há o facto de o pensamento de Sartre ter tido repercussao precisamente nessa faixa etária a quem interessa a literatura e a filosofia, que o acompanhará tanto na sua etapa existencialista como, posteriormente, quando se aproxima do marxismo como uma actitude crítica. Para compreender a magnitude da obra filosófica e literária de Sartre devemos perguntar-nos como é possível que, desde os anos 30, quando entrou em cena, até á década de 70, quando a cegueira e outros achaques começaram a perturbá-lo, a sua presença tenha sido requerida constantemente por uns e outros, e a sua voz sempre considerada como a de alguém que tinha alguma coisa a dizer. A importância filosófica de Sartre está, por isso, em ter-se convertido numa testemunha privilegiada dos acontecimentos que marcaram o século XX. E “testemunha privilegiada” nao significa literalmente que tenha participado com empenho em todos eles, mas que reconheceu a sua importância para os valorizar e o fez de uma perspectiva filosófica, que se reflectiria nas obras mais importantes que publicou, mas também nas suas inúmeras entrevistas e apariçoes públicas. (…) Convém saber a que circunstâncias permaneceu atento para as abordar numa perspectiva filosófica: em primeiro lugar, a situaçao da filosofia que Sartre encontrou na sua juventude; em segundo, as sequelas da Primeira Guerra Mundial; em terceiro, os efeitos da Revoluçao Russa.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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dispostas no chan con azarosa placidez, xuntas,
se un bris as fai vibrar, saberán arrastrar
os homes cara a un sitio incerto, máxico, levemente.
Levarán o mundo cara a Ningures,
alí onde os cetros e as espadas, vigorosas,
sen misericordia aniquilarán á Morte.
Depois renacerá alborozadamente a Vida
chea de sons, herbas, estanques estrelados e levidade intensa.
francisco candeira
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O LUGAR DAS IDEIAS
O Erasmo de carne e osso, marcado pelas dificuldades que teve de enfrentar desde o berço, pelos seus problemas de saúde, pelo risco de cair na pobreza e pela sombra contínua de ver-se obrigado a regressar a Steyn, vai dando lugar ao Erasmo de papel, um homem que, á força de perseverar, consegue transformar-se no erúdicto mais reconhecido de toda a Europa numa época de gigantes da erudiçao. Duas décadas prodigiosas, 1511 – 1531, vê-lo-ao moldar-se e modelar um mercado editorial que recebe o que publica com uma voracidade inaudicta, só superada por Lutero. Tudo o que Erasmo escreve é um éxito comercial quase antes de a tinta começar a secar sobre o papel e o ritmo de produçao, revisoes e reediçoes de cada uma das suas obras vai requerer uma infraestructura editorial que possa dar um impulso á procura e que lhe ofereça uma plataforma eficiente a partir da qual enfrentar o maior dos seus males e, talvez, o mais inesperado: a sua fama e as polémicas que traz associadas numa das épocas mais convulsas da história da Europa. Johann Froben (1460 – 1527), o editor escolhido para esta difícil tarefa, já tinha feito nome no mercado livreiro europeo dos princípios do século XVI pela beleza e cuidado com que imprimia cada um dos seus títulos. A partir de 1514, os destinos literários de ambos os homens estarao a tal ponto ligados, que Erasmo acabará por instalar-se em Basileia para poder escrever, supervisionar a composiçao e rever os ariginais ao ritmo que o mercado, o seu projecto intelectual e, paulatinamente, as circunstâncias lho exigem. Froben e Erasmo, e o círculo que se forma á volta de ambos, serao os responsáveis por converter Basileia numa das capitais do humanismo europeu e, (…) Da sua popularidade, da sua productividade, da sua tendência para a revisao e para a ampliaçao continua das suas obras e, porque nao dizê-lo, do seu estatuto como fetiche literário, fala o pedido que Johann von Botzheim (1535) dirige a Erasmo em 1522: gostaria que lhe indicasse as melhores ediçoes de cada uma das suas obras para poder incorporá-las á sua já magnífica biblioteca. Em janeiro de 1523, Erasmo remete-lhe uma extensa carta onde se encontra um catálogo organizado e comentado de toda a sua produçao. Johann Froben, sempre atento ás possibilidades de negócio, imprimirá uma versao ampliada e actualizada em 1524 e o seu filho e herdeiro, Hieronymus (1501 – 1563), outras duas: a primeira um ano depois da morte de Erasmo (1537) e a última e definitiva é incluída no material introductório da ediçao de Basileia das Obras Completas (1540). No Catálogo, Erasmo divide as suas obras em nove grupos distintos: as obras filológicas e humanísticas, os Adágios – que deveriam entrar na categoria anterior, mas que pelo seu volume e entidade firmam uma categoria própria-; a correspondência, os tratados educativos, as obras de carácter piedoso, a ediçao anotada e traduçao do Novo Testamento, as Paráfrases ao Novo Testamento, os textos de carácter polémico e apologético e uma selecçao de ediçoes e traduçoes dos padres da Igreja. É importante referir, para o leitor atento, que Erasmo destribui as sua obras por áreas temáticas, além de estas seguirem “grosso modo” uma ordem temporal estreitamente vinculada á sua biografia. Por outro lado, a divisao da sua obra por âmbitos de interesse pode dar a impressao – correcta em geral – de que Erasmo nao era um pensador sistemático de acordo com os cânones actuais, mas há que acrescentar que para um leitor medieval ou renascentista a visao de conjunto oferece uma estructura coerente: a progressao a partir da humilde gramática, ponto de partida e assistente de todas as disciplinas do saber, até ao cume para o qual todas elas preparam e a que todo o conhecimento se deve dirigir, isto é, a teologia. Assim, os dois últimos blocos constituem na verdade uma espécie de apêndices ao pensamento de Erasmo, onde as polémicas mantidas com os seus numerosos críticos durante as duas últimas décadas da sua vida vao lado a lado com a cultura dos padres da Igreja, que servem como autoridade indiscutível e luz sob a qual estas devem ser lidas.
JORGE LEDO
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presidida, fóra, por un cácano (os froitos
son moi doces e da cor das laranxas).
Beixo as paredes deste pardiñeiro
con tellas novas
querendo rubir como ascende
unha avelaíña de luz ou unha barata
só disposta a procurar no escuro.
Beixo estas paredes (esta única parede perdida)
e non beixo unha sombra
nin a ausencia dunha sombra
(non podo beixar as sombras
das persoas que coñezo:
a miña avoa, que recitaba versos
de Rosalía
-nunca saberei por qué non souben bicala
cando me acenou o último adeus-,
o meu bisavó que no retrato
usa barba sen bigode)
Debo de estar a beixar unha presenza oculta
do tempo: a pura ausencia
da ausencia de sombras.
Debo de estar a beixar un carreiriño de terra
feito destraidamente no interior desta estancia
tal como un neno modela para un belén
un riacho con papel de prata.
Creo que estou a beixar esta parede
(estas paredes recuperadas)
e creo que estou beixando un exército
desarmado de sombras,
ou desarmado e armado de sombras:
isto é, non estou soñando,
estou a beixar un exército de nubes,
chorando, e case non me avergoño
de estar chorando
porque estou beixando
unha nube,
ou unha nube gris
e unha patria branca, moi branca, branquísima.
FRANCISCO CANDEIRA
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POR FIM, ITÁLIA
Na primavera de 1506, o genovês Giovanni Battista Boerio, médico pessoal de Henrique VII de Inglaterra, consulta Erasmo sobre a sua disponibilidade para ser preceptor dos seus filhos, Giovanni e Bernardo, durante os estudos que estao prestes a empreender na Universidade de Bolonha. A sua tarefa, neste caso, parece puramente testemunhal, dado que os rapazes já contam com um tutor a seu cargo, Clyfton, que Erasmo unicamente terá de supervisionar, servindo-lhe de apoio durante o seu primeiro ano em Bolonha. Assim, como um cargo pouco exigente que lhe permite dedicar-se aos seus estudos, por fim estarao reunidas as condiçoes favoráveis que lhe permitirao realizar, perto dos 40 anos, o sonho de toda a sua vida: visitar Itália. Mas antes de a tipografia de Bade começar a trabalhar para Erasmo, este reúne-se a 8 ou 10 de agosto nos arredores de Paris com os seus pupilos, com Clyfton e um grupo de criados. Daí partem em direcçao a Turim. (…) Erasmo olha para trás para contemplar o longo caminho que tivera de percorrer para adquirir uma formaçao que em caso algum dá por terminada. A primeira paragem do grupo é Turim, cidade cujas gentes Erasmo destaca a afabilidade, e cujo “Studium generale” lhe concederá o doutoramento em teologia a 4 de setembro. …O grupo continua a sua marcha rumo a Bolonha fazendo uma paragem em Milao, onde Erasmo tem a oportunidade de ver “A Última Ceia” de Leonardo da Vinci. Quando por fim chegam a Bolonha, constatam que a cidade está prestes a sofrer um cerco, o que os obriga a dirigirem-se a Florencia. O papa Júlio II, á cabeça do seu próprio exército e em aliança com os franceses, assedia Bolonha e derrota os Bentivoglio rapidamente, Erasmo terá a oportunidade de observar, entre a incredulidade e a indignaçao, a entrada triunfal do papa em Bolonha a 11 de novembro de 1506,(…) nao sem antes ter aproveitado o tempo em Florença Erasmo, para traduzir alguns novos diálogos de Luciano… “Neste momento os estudos estao parados em Itália, enquanto as guerras prosperam. O Papa Júlio está a chamar para a guerra, conquistando e encabeçando marchas triunfais; de facto, está a tornar-se num Júlio (César) em vida.” (…) quem deveria evitar que os cristaos se matassem entre sí e exercer como lider espiritual da Europa, em vez de ser mais um senhor feudal. A sua adversao face a Júlio II ainda se verá exacerbada quando tiver a oportunidade de ver em primeira mao Roma e conhecer membros do cardinalato e da cúria papal. (…) Entre a decepçao desponta uma luz: Paolo Bombace (Paulus Bombasius, 1476 – 1527, um jovem professor de poética e retórica que está quase a receber uma cátedra de grego na universidade. Bombace oferece-se para ajudá-lo nos seus estudos e devido á afinidade intelectual que surge entre ambos, (…) Em 1533, seis anos depois do falecimento de Bombace e três antes do seu, Erasmo recordá-lo-á com grande carinho e retratá-lo-á como uma das mentes mais puras que teve ocasiao de encontrar. (…) Em 1507, com a chegada do outono, Erasmo vê-se por fim eximido das suas obrigaçoes como supervisor de Clyfton e tutor dos irmaos Boerio, o que lhe permite movimentar-se á vontade pela península. A 28 de outubro escreve uma carta a Aldo Manuzio (c. 1449 – 1515), o maior editor de Itália e o pai do livro moderno, ó que faz acompanhar das suas traduçoes latinas da Efigénia e da Hécuba de Eurípides (…) Erasmo remete-lhe as correcçoes do texto e decide mudar-se para Veneza. Um mês depois, o seu Eurípides aparece reimpresso e livre das numerosas erratas da primeira impressao a cargo de Josse Bade. As normas entre os muros da “Academia aldina” eram estrictas. Todos os residentes deviam comunicar-se unicamente em grego, e qualquer erro no idioma, ou a mudança intencionada ou inconsciente para o vulgar, era sancionada com uma multa. (…) Ó paraíso do conhecimento une-se a muito menos idílica pintura da vida naquelas paragens, que Erasmo retrata no seu colóquio “Opulentia Sordida” (1531): sujidade e ar viciado pela utilizaçao de aquecedores, abundância de pulgas nas camas, comida rançosa e mal cozinhada, pior vinho e separaçao estricta de homens e mulheres. (…) A publicaçao da obra representa o fim da sua estada veneziana. No início de novembro de 1508, Erasmo muda-se para Pádua para se transformar em tutor de Alexandre Stewar (1493 – 1513), filho bastardo de Jaime IV da Escócia (1473 – 1513), e do seu irmao Jaime. Um mês depois vê-se forçado a abandonar Pádua com medo de uma guerra iminente; o destino agora é Ferrara, e depois virao Siena, Roma – onde a fama dos “Chiliades” o precede e recusará numerosas ofertas para estabelecer-se na cidade -, Nápoles e, de novo, Bolonha, para partir rumo a Inglaterra encorajado pela prometedora ascensao ao trono de Henrique VIII.
jorge ledo
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A morte puidera non existir.
A morte existe porque existe
o Poder
o Diñeiro
o Sistema
a Economía
o Estado
o Capital
o Idioma
a Patria
a Escola
a Universidade
a Familia
a Historia
a Relixión
e outras cousas máis polo estilo
(e con esta enumerazón
non quero ofender a ninguén – !Coidado! !Quede claro!)
Mais a morte podia ser cousa distinta, podia non existir…
ou melhor: podía existir doutra maneira.
O morrer inesperado sería moi doloroso, non tráxico.
E quen vai morrendo preso ás mans dos amados – máis que vellísimo –
sentiría tristura e pena, e dolor pura, non dolor tráxica.
Mais a morte, se non existise, é un traspaso
dunha nube pequeniña a outra nube diminuta
que, entrechocando, acenden un sol humano (divino):
acéndese un sol visíbel (pequeniño e grande) e non se deixa
nada: vai crecendo a irmandade, a igualdade, a fraternidade
e a sabeduría. Deixamos moito, todo: alegría.
Abandonamos a liberdade con pena (comprensón) – non con dolor.
A nosa desaparizón sería celebrada
no cume dun monte, vestidos os irmáns con togas frouxas, negras,
co rostro oculto (cuberto), e só se vería un círculo inmenso
de mans, entrelazados os dedos, baixo unha noite de luar intenso:
e as mans todas brillando como nunca. E en silencio
unha coruxa de catro rostros diante.
E todos saberían que mañá danzarían xuntos,
traballando e rindo, batallando, baixo un sol bo e poderoso.
FRANCISCO CANDEIRA
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