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Eis um Sartre na defensiva. Para responder ás críticas, organizará uma conferência que tem lugar no final de outubro de 1945, coincidindo com o aparecimento de “Les temps modernes”. Trata-se na verdade do que poderiamos chamar um “acontecimento social” a sala do Club Maintenant, em Paris, está a abarrotar. O público é tao numeroso que Sartre teve de fazer sessoes posteriormente para esclarecer problemas e responder ás críticas. Estas tinham sido apontadas no seu conjunto á trama moral sartriana: se ficara estabelecido que nao podem existir duas situaçoes semelhantes, há apenas uma possibilidade muito remota de estarmos de acordo na escolha de um possível idêntico, e neste caso o “para-si” devia esforçar-se por renegar esse possível comum, que menospreza a sua irredutibilidade, a sua subjectividade original. A afirmaçao da impossibilidade do comunitário recebe críticas dos teóricos comunistas, que qcham que Sartre se vanagloria de uma concepçao da espécie humana em que predominam os aspectos sórdidos, confusos, nao tendo em conta os destaques belos da existència – por exemplo, a evidência do espírito solidário -, e também dos cristaos, que o censuram por nao ter ligado á ideia de uma transcendência que englobaria forças e representaçoes colectivas. Todos denunciam o individualismo sartriano. Sartre responderia ás críticas centrando-se especialmente na rejeiçao fundamental. Individualismo? Sem dúvida, a leitura do tratado de 1943 e da literatura sartriana nesta altura parece levar-nos a tal conclusao. Mas Sartre vai surpreender-nos porque escreve que, “quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, nao queremos dizer que o homem é responsável pela sua estricta individualidade, mas sim que é responsável por todos os homens”. A surpresa é enorme: onde havia desencontro ontológico-ético há agora uma corresponsabilidade que entende o fervor da questao comunitária. Mais á frente, Sartre referir-se-á a “uma universalidade humana de condiçao”. A negaçao absoluta do que se tem defendido filosófica e literariamente. Como é possível esta viragem tao pronunciada? Achamos que se fica a dever a uma razao á qual dedicaremos o proximo capítulo; Sartre iniciou a sua aproximaçao á política, que requer o compromisso e a solidariedade, e consequentemente deve aceitar a suspeita de uma situaçao comum – talvez nao universal, mas que vai para além do individual -, e, portanto, de um projecto-possível comunitário. Dá-se início a uma nova aventura.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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No soño o tabuleiro de xadrez
só aparece coas pezas perfectamente
colocadas como antes do inicio
cando desperto sobresaltado.
Un día percorrín
o tabuleiro de abaixo arriba,
coma se estivera de pé,
máis, coma se cada cadro fora un cubo.
Mellor dito, tamén o percorrín ao revés,
de riba abaixo:
entraba por un orifício á miña medida
máis despois
non conseguía voltar pra riba, pra trás,
coma se non puidera saír
polo mesmo sitio que entrei,
verme obrigado a furar
continuamente cara abaixo
como única saída ou esperanza posíbel.
Percorrín, baixando, todos
os cadros do tabuleiro:
como asfixiado e con temor
ía avanzando, avanzando,
sen saber se ía dar a algún lugar
respirábel.
Despois despertei de repente, sobresaltado,
vin de novo as pezas perfectamente
colocadas no tabuleiro,
preparadas pra comezar,
o tabuleiro deitado, horizontal.
Agachei as orellas, e fun beber
café con leite, e por riba un vaso de auga
– que me entrou coma un río
pola boca abaixo, ou pola guelra se fose unha troita.
francisco candeira
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Sartre tratou na sua obra literária a situaçao humana com uma conclusao que poderiamos considerar pessimista: Roquentin e Garcin, duas das personagens recordadas no capítulo anterior, sao dela exemplos inequívocos. Mas, paralelamente, Sartre cultivou uma reflexao filosófica que é a ilustraçao teórica do que os protagonistas vivem, e empenhou-se em desenvolver argumentos filosóficos que garantam a sua abordagem inequívoca. O esforço é orientado para dar uma razao de ser ao comportamento moral, que só pode ser ontológica, isto é, procura um fundamento na análise do real, das coisas do mundo. Por isso mesmo, no seu primeiro grande tratado filosófico Sartre vincula muito acertadamente ontologia e moral. Trata-se de uma tarefa iniciada com a Segunda Guerra Mundial, com as notas e os esquemas escritos no seu posto militar e também mais tarde, durante os meses de internamento. É esclarecedor iniciar este capítulo com a tentativa de resumo de “O Ser e o Nada” levada a cabo pela sua biógrafa Cohen-Solal. Escreve o seguinte: A obra procura, retomar, expor e alimentar várias ideias-chave: o orgulho da consciência face ao mundo e, consequentemente, a liberdade absoluta do indivíduo; a consciência, ao mesmo tempo imersao e ruptura; a liberdade, ao mesmo tempo febre e disciplina; a crítica permanente; a desconfiança em relaçao aos papéis sociais cristalizados e esclerosados. (…) Onde nao havia possibilidade de moral colectiva aborda-se agora o encontro com o outro, e onde havia liberdade absoluta deparamo-nos com uma liberdade que é relativizada pela presença do próximo. Além disso, a situaçao – o mundo em que cada um vive -, que era individualizada em excesso, é agora uma situaçao partilhada. Neste ponto, interessa-nos entrar no cerne da obra. As suas partes estao claramente diferenciadas: há em primeiro lugar, uma reflexao ontológica muito dilatada, ou seja, uma análise da natureza dos objectos do mundo, e de seguida, na quarta parte, uma mais breve mas fundamental introduçao ao que devia ser o projecto moral existencialista. A reflexao ontológica, o assunto a abordar em primeiro lugar, defende-se com base em conceitos e actitudes. Os conceitos fundamentais sao o “em-si” e o “para-outro”. Entre as actividades faremos exclusivamente referência ao olhar desencadeado pela vivência de um mundo habitado por existentes inimizados e nao solidários.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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A Historia do mundo
enlázase coa historia da memoria
nas regandixas da visión e do soño.
Hai un tabuleiro de xadrez
e nós imos pousando neste ou naquel cadro,
negro ou branco. Ás veces
non chegamos a pousar en todos.
Olvidamos uns, recordamos
malamente outros, e en dous ou tres
establecemos a nosa fixación.
Pode haber unha manta de retallos,
borrosamente ou con intermitencias
lembramos uns, non tocamos
ou non vimos nunca outros,
e recordamos sempre tres ou catro.
Despois introducimos
o tabuleiro de xadrez
e a manta de retallos
en senllas bolas, horizontalmente,
no medio e medio,
xogamos un partido de fútbol, ou dous,
con esas bolas, e os dous equipos
que xogan o partido
son corroborados pola Federación,
a Federación é apoiada polo Estado,
e o Estado remítese a unha Instancia Superior
– Deus, Azar, Destino-
que parece ser rixe todo, o Todo.
?Estará así formado o Mundo, o Reino da Loucura?
FRANCISCO CANDEIRA
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A DESCOBERTA DO PERIGO DE EXISTIR
Sartre conhece a experiência de Nizan, admite que a Guerra Civil Espanhola o deixou abalado e confessa várias veces que a sua vivência da Segunda Guerra Mundial mudou a sua vida. Por tudo isso é realmente estranho que construa uma obra caracterizada, como veremos de imediato, pela indicaçao das extremas dificuldades em culminar um processo pessoal de intervençao que se ajuste ao mundo em que vive e, sobre tudo, que se mostre avesso a aceitar a proximidade do outro para elaborar uma tarefa comum solidária. É verdade que a trilogia de “Os Caminhos da Liberdade” – na verdade uma tetralogia se tivermos em conta que Sartre já tinha practicamente acabado um quarto volume, que aparecerá em “Les Temps modernes” – parece orientar-se para outra perspectiva, a do compromisso e a do encontro positivo com o outro, mas esta mesma circunstância dá lugar á perplexidade. Este capítulo centra-se em três obras literárias que justificam de maneira evidente o surgimento sartriano no mundo cultural françês e internacional a partir das perspectivas literárias e filosóficas. Refiro-me a “A Náusea”, romance que, embora tenha sido publicado em 1938, começou a ser escrito durante a estada do autor em Berlim, em 1933. “As Moscas”, estreada em Paris no início de junho de 1943; e a “A Porta Fechada”, conhecida pelo público no final de maio de 1944. As datas sao reveladoras: o romance é publicado quando Sartre já tem conhecimento da experiência niziana e sofreu o abalo provocado pelo levantamento fascista do general Franco em Espanha. Nas três obras referidas encontra-se uma consideraçao sombria e infernal da existência humana, descreve-se o mundo no qual o homem, esforçando-se por compreender, conclui que todo o esforço está destinado ao fracasso e á ruína. “Já nao posso falar, inclino a cabeça. O rosto do Autodidacta está colado ao meu. Sorri com ar fáctuo, muito perto da minha cara, como nos pesadelos. Mastigo penosamente um bocado de pao que nao me decido a engolir. Os homens sao admiráveis. Tenho vontade de vomitar, e de repente alí está: a náusea.”
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Di que si, que a vida é bela,
anque demasiado vella
e encarcerada pra calquera,
mais di que si porque pensas
anque non saibas o que digas
anque digas sen pensar
que tés xeito
e podes chegar a ser poeta
se es fino e aprendes
a intelixencia da Cleopatra
de Bernard Schaw:
a súa sintaxe, o seu efecto sorpresa,
o seu truncar a frase e o sentido
maxistralmente: a reviravolta
sen darte conta, con inocencia,
con frescura infantil, case inconscientemente.
Sabe máis ela de poesía
que todos os poetas coma min xuntos.
Di que si, que a vida é bela,
que podes disfrutar lendo a Cleopatra,
que a poesía non é retórica,
nin tontería, nin aburrimento,
nin estúpidas prisións
de verdades, bondades ou Estados ignorantes.
A poesía é a grande virtude,
xunto coa Bondade Sabia (ou Milagre)
a única virtude.
FRANCISCO CANDEIRA
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Se qualifico como “perigosas” as amizades sartrianas que vou referir de seguida, nao é apenas porque qualquer amizade seja perigosa, já que conduz ao abismo ou á alegria, mas porque os casos essenciais que se vao relatar brevemente representam um avanço ou um retrocesso na formaçao de Sartre, da sua literatura, da sua filosofia. Trata-se de Paul Nizan e de Maurice Merleau-Ponty: a eles dedicará algumas das mais belas páginas da sua literatura. Comecemos por Nizan, que conhece no liceu parisiense Henri IV e de quem só se separará com a morte deste, na batalha de Dunquerque, em 1940. Nao se trata de um amigo qualquer, Sartre homenageará várias vezes esta amizade brusca e tatalmente interrompida. (…) depois de evocar os intermináveis passeios em que ele e Nizan se perdiam pelas ruas de Paris na juventude de ambos, sem ânimo nem orientaçao, simplesmente pelo prazer de conversarem e de se divertirem, escreve: “Era Nizan, calmo e pérfido, encantador. Era assim que eu o amava” E nas conversas com Simone de Beauvoir, ao recordar a etapa do Liceu, confessa que eram “amigos íntimos”. A sua relaçao é emocionante e surpreendente. Sao tao proximos um do outro que trocarao de identificaçao, assumiriao com humor e riso a identificaçao do outro. (…) Estávamos ligados a tal ponto que nos confundiam um com o outro; Léon Brunschvicg, em junho de 1939, encontrou-nos aos dois em casa do editor Gallimard e deu-me os parabéns por ter escrito “Os Caes de Guarda” (…) Essa confusao durava há dezoito anos, tinha acabado por se converter no nosso estado social e acabámos por aceitá-la. De 1920 a 1930, estudantes de liceu e depois da universidade, ninguém nos distinguia. (…) Têm uma vida louca e jubilosa. Assim pretende retratá-los Cohen-Solal: “Um silencioso e o outro estridente, um elegante e o outro desarranjado, um calmo e o outro violento; assim se manterao, complementares e diferentes até 1927.” Dar-se-á um afastamento transitório quando os dois acabam os estudos de Filosofia na École, Sartre inicia a sua breve carreira académica no Liceu de Le Havre e Nizan parte para Aden. (…) Há uma segunda amizade perigosa. Merleau-Ponty, uma das mentes privilegiadas da filosofia do século XX, (…) Sartre concluiu o texto que lhe dedicou da seguinte forma: “Para terminar, direi que esta longa amizade, nem construída nem destruída, abolida quando renascia, permanece em mim como uma ferida indefinidamente reaberta”. (…) Sartre começa a envolver-se no imediatismo político e sobretudo nas vicissitudes da política partidária. Merleau-Ponty ensina-lhe muito, guia-o; nao se trata da amizade enlouquecida que se estabelecera com Nizan, mas Merleau-Ponty revela-lhe a precisao do marxismo para construir uma análise do real, da situaçao – nos termos sartrianos – e, por outro lado, chama-lhe a atençao para a dolorosa ligaçao histórica entre o projecto político e os seus efeitos nem sempre aceitáveis – embora necessários – , mas que convém ultrapassar em virtude de uma revitalizaçao do sujeito histórico-revolucionário. (…) No entanto, a verdade é que, mesmo afastados, continuam a sentir-se os dois optimistas fundadores de “Les Temps Modernes”. No ano seguinte, 1956, encontram-se em Veneza. Na verdade, está tudo preparado para uma reconciliaçao que so foi impedida pela morte de Merleau-Ponty em 1961. A inquietaçao tinha tendência a desaparecer – Nasceu outro sentimento; a benevolência -, esta afeiçao desolada, ternamente fúnebre, aos amigos esgotados, que se afastaram até nao terem mais em comum que a sua disputa, que um belo dia acaba por já nao ter razao de ser. (…) As amizades perigosas deram os seus frutos.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Adaíl de gracias e obscuridades
sucumbo
á memoria, á luz e ao misterio.
Unha estocada
no touro-diccionario (detido-case morto)
levanta unha estrela negra
de metal
e renazo con alborozo
para a festa
que confunde as cores.
Sería posíbel que a xuntanza
da xeometria – e a inherente proximidade-
me induciran
a olvidar todas as diversas cores
-ténues, leves porque recordadas á distancia
da visión-
non fose porque unha soa estrela
non pode reter entre as súas puntas
toda a diversa cor dun círculo
e o home selecciona -cousas, almas-
porque confunde ou olvida, ou algo lle foxe.
francisco candeira
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A denominaçao do “existencialismo” parece mais complicada, já que o termo se converteu numa miscelânea em que se incluem filósofos, poetas, e romancistas. Sem dúvida, entre Heidegger e Jaspers, por exemplo, há tanta distância como entre Sartre e Camus. Centramo-nos no existencialismo de Sartre, a partir da sua explicaçao em “A Propósito do Existencialismo”, onde estabelece que: O existencialismo defende (…) que no homem (…) “a existência precede a essência” que, no mesmo sentido, “o homem deve criar a sua própria essència”, e “define o homem pela acçao”, e, para terminar, deve entender-se que “o existencialismo nao se apraz com o que é sombrio, que é antes uma filosofia humanista da acçao, do esforço, do combate, da solidariedade”. (…) De repente, o mundo parece explodir. A Alemanha hitleriana estivera a olear a sua maquina bélica. A França entra em conflito armado com a naçao vizinha: profere-se a ordem de mobilizaçao geral a 2 de setembro de 1999. Sartre é destinado a um campo de previsoes meteorológicas. Começa o que em França se conhece como “drôle de guerre” (o que significa mais ou menos guerra tola, inútil). Mas nao é inútil para Sartre, que, de braços cruzados practicamente todo o dia, dedica o seu tempo a ler e escrever. Meses mais tarde, fatidicamente no dia em que faz 35 anos, é detido pelos invasores alemaes e transferido, pouco tempo depois, para o campo de concentraçao de Tréves, onde permanece até março de 1941. Quando é libertado regressa a Paris. É nos anos seguintes que entra em contacto com Heidegger, a segunda grande influência presente na sua filosofia. O filósofo alemao publicou em 1927 a sua obra-prima, “Ser e Tempo”. O que propoe Heidegger? Ou, por outras palavras, quais sao os aspectos da obra citada que chamam a atençao de Sartre, já que ele próprio as inclui de forma mais ou menos clara na sua própria matriz filosófica, e que se podem identificar sem muita dificuldade seguindo os apontamentos reunidos nos chamados “Diários de Uma Guerra Estranha”, a primeira parte dos “Cadernos de Guerra”? Para responder satisfactoriamente á pergunta precisamos de ter em conta varias questoes. Em primeiro lugar, parece inevitável destacar o método que vai reivindicar Heidegger para o análise daquilo que considera objecto fundamental da filosofia. (…) um retorno á análise das “próprias coisas” (…) partir de zero para restaurar a importância da filosofia, destronando as crenças estabelecidas. (…) Mas qual é o objecto fundamental da filosofia? Esta é a segunda questao; perguntar o que é o ser e acima de tudo, perguntar-se pela natureza do que está ali, em frente dos nossos olhos. (…) que o primeiro aspecto relevante é compreender que a existência precede a essência, ou seja que esvaciada a consciência, esta começa a ser alguma coisa quando se interroga sobre a essência do mundo, das coisas. Entao o que começa a consciência vazia a descobrir?
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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A separación – que ben pode ser partículas
de pole dunha mesma flor –
deriva de visións dispares
ou descoñecidas entre si.
O punto de comunicación
depende da coincidencia de retencións.
A memoria pode ser insolidaria
e, logo, o diálogo imposíbel
ou estéril (a felicidade mentira,
a guerra adulterada).
E aínda sendo a memoria
compartida, pode suceder
a insatisfacción ou o matiz
diferente: insuficiencia
onde dous puxan por distintos
extremos dunha nube para desvelar
a luz do acibeche
ou o movemento infixável
dos átomos, punto
de discordia e relatividade,
cosido dos deuses,
olvido sabio dos homes,
imprevisibilidade suposta e sorprendente.
francisco candeira
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A infância termina. Em 1915, entra no Liceu Henri IV, em Paris. Aí conhece Paul Nizan, de quem falaremos mais á frente. Anne-Marie e o jovem Sartre mudam-se para La Rochelle em 1918 por motivos que têm a ver com o segundo casamento da “irma mais velha”. Sartre tem notas excepcionais: o pequeno génio de Charles Schweitzer começa a deslumbrar – Regressa a Paris e entra na École Normale Supérieure. O ano de 1924 é impressionante: Sartre, Beauvoir, Hyppolite, Aron, Nizan, Lagache… E anos mais tarde, em 1929, realiza-se a prova de agregaçao (necessária para acceder á condiçao de professor): Sartre fica em primeiro lugar, seguido de Beauvoir, Hyppolite consegue o quarto e Nizan o quinto lugar. Pouco tempo depois, Sartre abandona Paris e ruma ao liçeu de Le Havre, onde dará aulas. A verdade é que, como o próprio Sartre reconhecerá. tivera a imensa sorte de ler durante aqueles anos uma obra de Bergson – “Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência – que lhe abriu expectativas nas suas análises dos processos de conhecimento e assimilaçao do real, que no entanto serao envolvidas na influente maré da filosofia husserliana. Referimos Husserl entende-se por fenomenologia uma das correntes filosóficas mais importantes do século XX, e também os irracionalismos que se lhe tinham oposto. Husserl tentou transformar a filosofia numa ciência rigorosa, para o que considerava necessário ir “ás próprias coisas”, tal como aparecem na consciência… como o que é imediatamente dado, na sua essência ou conteúdo ideal. Para esse fim, criou um método de descripçao que eliminava qualquer pressuposto interpretativo. Husserl, á época, já iniciara a seu honroso exílio académico, expulso de Friburgo pelas autoridades nacional-socialistas devido ás suas raízes judaicas. O seu alumno mais próximo, Martin Heidegger, nao parece alheio ao estratagema para penalizar o seu professor, a quem dedicara “Ser e Tempo”. Husserl desenvolvera uma importante obra filosófica durante as duas primeiras décadas do século. As suas “Investigaçoes Lógicas” e as posteriores “Ideias”, publicadas em 1900 – 1901 e 1913, respectivamente, marcaram com toda a certeza os primeiros eixos da aventura filosófica sartriana. As obras citadas já incluem o fundamental da “fenomenologia” como projecto filosófico.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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O Home non recorda, non ten memoria
e se a memoria en algo permanece
cae na perdición do real
porque transforma o recordado,
crea algo diferente. É libre
porque comete traición
ou vive porque renova o erro,
abella afogada en mel,
bolboreta que morre aos dous días,
abella que pousou fugazmente
en catro flores e caíu
por aguillonear un corpo.
francisco candeira
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Mençao especial merece Simone de Beauvoir. Também colega de Sartre na École, iniciaram uma relaçao que duraria até á morte do filósofo, embora acordada uma liberdade afectiva que nunca foi interrompida. A diferença entre o que consideravam “amores contingentes” – aventuras sentimentais e sexuais – e o “amor verdadeiro” – que era o deles – marca a sua existência. Beauvoir é uma excelente romancista – aí estao, por exemplo, A Convidada (1943) ou Os Mandarins (1954), galardoado com o prestigiado Prémio Goncourt – e uma filósofa inesquecível, basta lembrar Por uma Moral da Ambiguidade. Mas non seria possível reconstruir a França da segunda metade do século XX sem ter em conta a sua faceta memorialista: a leitura dos quatro volumes da sua autobiografia – e do quinto, se consideramos como tal A Cerimónia do Adeus – é empolgante. Dito isto, é preciso destacar que, sem dúvida, a autora será sempre reconhecida pelo forte cataclismo que a publicaçao de “O Segundo Sexo” (1949) provocou: a mulher nao nasce, mas sim faz-se – é esta a tese central da voluminosa obra. Beauvoir levou a cabo um exercício extremo de erudiçao e reflexao para mostrar a que ponto sao as condiçoes culturais, religiosas, sociais, domésticas que configuram uma imagem da mulher como ser submisso, vulnerável e despersonalizado. A partir dessa consideraçao reivindica a constituiçao de uma nova feminidade. Todo o movimento feminista, que explode nos anos 60, é devedor das análises de “O Segundo Sexo”, próximo do seu posicionamento crítico para com o mesmo, a verdade é que Beauvoir é a referência essencial nesta história tempestuosa.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Non hai distancia
entre o fume e as columnas
porque non vexo diferencia
esencial entre a néboa
e a redondez pulida das columnas.
As tatuaxes (filigranas
apuradamente alcoólicas)
desta tripulación noctámbula
que me acompaña no mar
das botellas apiladas (a escuma
da onda son copas invertidas baixo luz)
veñen dicirme
que no mármore hai naturalmente
petroglifos trazados
pola man cóncava da lúa.
Un whisqui tende a ponte circular
da comuñón, que é un plaxio
oculto, sen publicar,
acaso unha canción moi compartida,
acaso unha cita.
A comuñon: ese plaxio
porque cadaquén é outros:
eu non son soamente eu
porque a amizade
ergue o vaso ás alturas dos ollos.
francisco candeira
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Em “As Palavras”, Sartre é categórico e cruel: Jean-Baptiste “apoderou-se desta rapariguinha desamparada, casou com ela, fez-lhe um filho rapidamente, eu, e tentou regugiar-se na morte”. Algumas páginas á frente reconhecerá que a morte do pai “foi o grande acontecimento da sua vida”. Porquê o grande acontecimento da sua vida? Sartre responderia imediatamente a seguir a esta sentença desapiedada: Como manda a regra, nenhum pai é bom; nao nos queixemos dos homens, mas do laço de paternidade, que está podre. (…) Se tivesse vivido, o meu pai teria caído em cima de mim com todo o seu peso e ter-me-ia esmagado. (…) Foi bom ou mau? Nao sei, mas aceito com gosto o veredicto de um eminente psicanalista: nao tenho “Superego”. A referência é fundamental porque marca o alcance da liberdade na filosofia sartriana. De facto, refere-se a viver e agir á margem das imposiçoes familiares e sociais, nessa atmosfera de liberdade absoluta que pouco depois encontraria nas páginas de Nietzsche, que encarnarao as suas personagens literárias e na qual procurará uma âncora filosófica nas obras editadas a partir da década de 40. Solitário, fechado na parisiense casa da rue Le Goff, do avô materno, o menino Sartre crescerá entre livros, silêncios e os absorventes cuidados de Anne-Marie, mae excessivamente protectora, a quem o menino nao reconhece como mae, mas como uma “irma mais velha”. Um dia – tinha sete anos – o meu avô nao aguentou mais: deu-me a mao e disse-me que íamos passear. Mas mal dobrámos a esquina meteu-me no barbeiro e disse-me: “Vamos fazer uma surpresa á tua mae.” Eu adorava surpresas. (…) Em suma, vi com agrado os meus caracóis caírem ao longo da toalha branca que tinha á volta do pescoço e chegarem ao chao, inexplicavelmente sem brilho; voltei com o cabelo gloriosamente rapado. É fácil imaginar o desgosto da mae. A aceitaçao do pequeno de cabelo rapado implica uma dura mas inevitável liçao. (…) A vivência da “fealdade” nao é apenas a descoberta de uma deficiência física: será interiorizada por Sartre como marca da individualidade humana, cuja existência estará marcada pela irreductibilidade em relaçao ao outro, pela consideraçao de que nao existe cópia do “Eu”, já que toda a existência tem uma peculiaridade extrema. Como veremos mais á frente, esta ideia deverá ser reformada ou parcialmente corrigida em busca de uma semelhança que permita a conformaçao colectiva e, consequentemente, a práxis política. (…) Há um terceiro acontecimento infantil de interresse biográfico. O menino Sartre, isolado e introvertido, rodeado de livros, pó e murmúrios, encontra um feliz ensimesmamento na leitura. “Comecei a minha vida como, sem dúvida a acabarei: no meio dos livros”, recorda e promete. De facto, assim será. E atençao a este belíssimo fragmento: Nunca esgaravatei a terra nem procurei ninhos, nao fiz ervários nem atirei pedras aos pássaros, mas os livros foram os meus pássaros e os meus ninhos, os meus animais de estimaçao, o meu estábulo e o meu campo; a biblioteca era o mundo preso num espelho; tinha a espessura infinita, a variedade, a imprevisibilidade.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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