
Passou-se tudo num minuto. E foi o bastante. O motorista bem meteu o pé a fundo no travón com quanta gana tinha; mas era tarde. A mulher estaba por terra, feita unha boneca de trapos que a birra dunha criança tivesse esventrado. Sería difícil imaxinar posiçón mais macabra e esquisita. A perna decepada, com os tendóns à mostra, apresentava a biqueira para o lado do calcanhar, as máns estendiam-se ao todo o comprido, afogadas na poça de sangue que cada vez alastrava mais. E a cabeça quase se enfiava pelos seios dentro. Parecia querer esconder, na posiçón em que estava, um grande segredo. Espalladas ao redor, como duas notas trístes de desalinho e de traxédia, via-se a malinha de mán, melancólica, e unha luva preta, abandonada. Muitas pessoas que nessa tarde de Natal iam a caminho das “matinées” presenciárom a cena. Chegou o polícia, deu unha ordem gritada ao dono do automóvel que ocasionara o desastre e estava parado mais adiante. Ràpidamente o corpo mutilado e exangue foi colocado à “trouxe-mouxe” sobre os assentos da rectaguarda. Alguns curiosos axudaram à manobra. E o carro abalou a grande velocidade para o hospital. Chegou lá morta. Encontraram-lhe na carteira um librete de tolerada com outras buxigangas. Uns papéis, algum dinheiro e unhas chaves. Mais nada. As pessoas que presenciárom o desástre, tríste para um dia de Natal, seguiram impressionadas para as “matinées”. Quando a noite chegou, na Avenida non habia lembrança do acidente. Só a “Cidade” do Diário relataría o acontecimento. O Diário e aquela mancha de sangue que a primeira chuvada se encarregaría de eliminar. A mancha de sangue e a macabra e esquisita posiçón em que o corpo ficara – posiçón de quem mesmo da morte tem um segredo a guardar. A luva estava lá, esquecida, sem vida e sem significado. Filha de xente pobre, desde garota Maria Isabel estivéra em contacto com a crueza da vida, non tendo desta, portanto, unha visón romântica de menina bem criada. A despeito dessa experiência ficara-lhe o xeito de sonhar. A entrada na adolescência, xá em si um reino maravilhoso, foi um sonho. Todos os dias axudava a nái a lavar e a engomar a roupa para fora. A vida na artéria pobre da cidade continuava a mesma – dura e implacábel. O pai non abandonava a velha costûme de, à noitinha, bater na nái. Contudo, dentro dela, lá bem no fundo, habia o desexo de unha existência diferente, o anseio de unha vida risonha e feliz, unha sede de realizar unha cousa que nem ela sabia explicar o que fosse. Mas um dia soube. Namorava há tempos o Artur. E há dias que ele lhe falava nunha vida nova, os dous felizes, num quartinho pequeno, mas só deles, onde iriam arrumando as cousinhas que fossem aos poucos comprando. Faría o comer para ambos. Gostou tanto do Artur, a partir dessa data, que lhe fez a vontade – fuxir de casa. Como foi feliz, francamente feliz. Dizer o contrário era mentir. Acabado o trabalho na fábrica ele metia-se logo no quarto e non saía mais. Só tinha um desgosto – o seu Artur non gostava que lhe falasse nos desexos que sentia em ter um filho. Quando tivesse um menino, sería entón completamente feliz. Assim, habia na sua vida aquele vazio. Mas durou pouco tempo este estado de cousas. O Artur acabou por desaparecer. Deixou-a só e sem dinheiro. E verificou que a experiência ganha na sua infância non valera para nada. Muito tinha ainda que aprender. Soube depois, quando baixou ao hospital, que o seu Artur lhe tinha pegádo unha doença mala. Non o odiou. Estava-lhe grata pola felicidade daqueles dias. Se ao menos lhe tivesse deixado um menino! Saiu do hospital. Desde esse dia até aquele em que passou a chamar-se Xulieta, foi toda unha vida que esqueceu. Depois foram as patroas, as companheiras, os clientes. O contacto foi mais profundo com a tríste realidade da vida. Porém, a Xulieta de agora, tinha guardadas no peito, lá bem no fundo escondidas, as ilusóns da moça Maria Isabel. Nada lhes fazía perder o viço. Queria ter a sua casinha. Ela non nascera para aquilo. Sem o manifestar, alimentava a esperança de que, a dada altura, o seu home lhe aparecesse, e os sentimentos que trazía recalcados dentro dela saissem para a luz do dia. Ainda que fosse um outro Artur. Era tan ardente o desexo e tán firme a convicçón que, muitas vezes, o home acabava e ela ficava à espera de ouvir: “Passas a viver comigo, sim, amor? Alugamos um quarto modesto. Dás-me depois um filhinho louro, de grandes canudos sobre a blusa”. Mas non. Xeralmente, sem dizer mais nada, o cliente abotoava o último botón, afivelava o cinto, deixava a placa em cima da mesa de cabeceira e saía. Pela porta aberta ouvia o barulho ensurdecedor da sala. Ficava com um peso em cima de sí, como se o home ainda ali estivesse. A um berro mais alto, levantáva-se, vestia-se, escondia lá mais para o fundo as ilusóns de Maria Isabel, e vinha para xunto das outras, aturar as grosserías dos homes. O quarto alugou-o ela. Non para fuxir à exploraçón das patroas ou ao convívio das companheiras. Queria fazer-lhe unha surpresa. Quando ele viesse xá tinham casinha. Nunca se servíu dele para as esixências do seu ofício. Continuava com a mesma vida. Aquele quarto, porém, era o seu segredo. Guardava dentro dele as suas mais gratas ilusóns. Sempre que deixava de ouvir as botas do home na escada, o barulho da porta a fechar-se, ficava momentos pensativa e, por fim, convencía-se que non era ainda “Aquele”. Mas ele viría. Disso tinha a certeza. Tanto que amealhava, com um alvoroço de menina, todos os escudos. Pensava comprar mais unhas cousinhas. Naquele Natal, Xulieta sentíu o peito abrir-se-lhe nunha alvorada para deixar passar tudo que lá estaba dentro. Pressentia que era chegada a hora de realizar-se a seu sonho. Estreára o casaco de abafo, a malinha de mán, unhas luvas. Abonecara-se mais. Non ía aos homes, ía ter com Ele. Tán feliz caminhava que, ao atravessar a Avenida, nem reparara no automóbel rodando a grande velocidade. Coitada! Mesmo da morte, ela ainda escondera lá para o fundo do peito as ilusóns de Maria Isabel. ¡¡Pobre Xulieta!!
ALEXANDRE CABRAL