Arquivos diarios: 03/03/2016

A BEXIGA NEGRA

 

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            Alí, nas margens do Sao Francisco, em sertao de cinco estados, as epidemias possuem aliados poderosos e naturais: os donos da terra, os coronéis, os delegados da polícia, os comandantes dos destacamentos da força pública, os chefetes, os mandatários, os politiqueiros, enfim o soberano governo. Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível a indústria das secas, tao rendosa; sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior?  Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!

               Boa Bunda, Maricota, Mao de Fada, Bolo Fofo, A Velha Gregória sexagenária, Cabrita, Meninota de quatorce anos, com dois de ofício, um renque de putas, camarada: sozinhas enfrentaram e venceram a bexiga negra em terras de Buquim onde se soltara, impiedosa assassina; comandando a pelexa, ao lado do povo, Tereza Batista.

               Guerra pavorosa: nao houvesse Tereza assumido a chefia das quengas da rua do Cancro Mole e nao restaria ninguém no distrito de Muricapeba para contar a história. Os moradores nem fugir podiam, ficando tal regalia para os abastados do centro da cidade, fazendeiros, comerciantes, doutores, a começar pelos médicos, os primeiros a dar no pé, a desertar do campo de batalha, um para o cemitério, o outro para a Bahía – em tao desatinada e louca correria, sem bagagem e sem despedida, vou a Aracaju em busca de socorro!, o doutorzinho embarcou no trem errado, desinteressando-se do rumo e destino, ah!, quanto mais lonxe melhor!

               A bexiga chegou com raiva, tinha gana ântiga contra a populaçao e o lugar, viera a propósito, determinada a matar, fazendo-o com maestria, frieza e malvadez, morte feia e ruim, bexiga mais virulenta.  Antes e depois da peste, seis meses antes ou três anos depois, diz aínda hoxe o povo situando a divisao do tempo em calendário próprio, tomando como marco das eras de antes e depois o acontecimento terrível, o povo solto e incontrolável, quem nao se apavorou?  Nao se apavorou Tereza Batista, nao demonstrando medo – se o sentia, no peito o prendeu: de outra maneira seria impossível levantar o ânimo das mulheres da vida e arrastá-las consigo para aquela labuta de pus e horror.  Valentia, companheiro, nao é apanágio de quem provoca e briga, trocando tapas e tiros, exímio no punhal ou na peixeira pernanbucana,  tudo isso qualquer vivente pode fazer, dependendo da ocasiao e da necessidade.  Mas para tratar bexigoso, enfrentando o fedor e o choro, as ruas apodrecidas e o lazareto, nao basta a coragem desses valentes de araque: além de culhoes, é preciso ter estômago e coraçao,  e só as mulheres perdidas possuem tamanha competência, ganha no exercer do duro oficio.  Nas moléstias do mundo se acostuman ao pus, no desprezo dos virtuosos, dos amargos e dos bem-postos aprendem quao pouco vale a vida e o muito que ela vale; têm a pele curtida e um travo na boca,  ainda assim nao sao áridas e secas, indiferentes ao sufrimento alheio – sao valentes de desmedida coragem, mulheres da vida, o nome diz tudo.

               Macho naqueles dias virou maricas, levou sumiço; machidao só elas tiveram, as putas, a velha e a menina.    Se o povo de Muricapeba dispussesse de dinheiro e de poder, ergueria na praça de Buquim monumento a Tereza Batista e ás mulheres á-toa ou bem a Omalu, orixá das doenças e em particular da bexiga, havendo quem diga ter sido  ele o verdadeiro responsável, encarnando em Teresa, nao passando ela de cavalo-de-santo na memorável pelexa.

               Nao se deve discutir tais opinioes, sao termos de fé, merecem respeito.  Estivesse ela senhora de sí, dona de pensamentos e açoes, utilizando a liçao aprendida ainda criança com os moleques na roça, nos jogos de cangaçeiros e soldados, reforçada na refrega da vida, no que se viu e ainda se ha de ver, ou a revestisse a coragem sobrenatural do encantado, do bexinguento Omelu, quem se levantou e fez frente á peste foi Tereza Batista – e a coragem dos orixás, a beleza dos anjos e arcanjos, a bondade de deus e a maldade do cao nao serao por acaso e somente reflexo da coragem, da beleza, da bondade e da maldade da gente?

Jorge Amado (Tereza Batista Cansada De Guerra)