Arquivos mensuais: Xuño 2017

FIGUEIRA DA FOZ

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A manha atlântica levantava o véu de nevoeiro das ruas de Praiabela…

Miguel Viqueira, in “Praiabela”

 

Estes versos xa debían

ter sido escritos hai algún tempo.

Olvidei imaxes

mais o feito de o retardar

tamén é poético.

Pouso estes minutos aquí

para albiscar a antesala do ermo:

o sol nace na profunda area

e só podemos pensar

nun tecido persa deica as ondas,

só nunha esquina da praia ondeando.

E teño que ver

un iluminador de códices

ou a inicial fermosa e grande

dun manuscrito

paseando pola praia:

quero un ornamento minúsculo

e rico: aristoácrata.

Aquí ningén repara no sol,

resplandece a area,

as ondas están moi lonxe,

ermo habitado mais inatinxíbel,

porta da grande solidón.

Teño que subir a un edificio alto,

rodando lentamente

sobre unha roda de muiño,

e atopar no último andar

un leitor coa perna

dereita dormida, sentado,

lendo no libro da lonxanía

cousas de ver e beber

e no libro da vida

un segredo escrito con letra

antiga e pequenísima.

 

francisco candeira

OS FILÓSOFOS DA GERAÇAO SEGUINTE (XIX)

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               A diferença da idade dos filósofos mencionados em relaçao a Sartre nao é esclarecedora.  De facto, Barthes e Althusser nasceram em 1915 a 1918, respectivamente.  Deleuze em 1925, e Foucault em 1926.  No entanto, o facto de a sua ressonância só começar a ser considerável a partir do final da década de 60 resulta de a filosofia francesa estar fortemente estructurada em redor  do horizonte existencialista e da consideraçao social e teórica proveniente do marxismo.  Ambos os movimentos dificultam o aparecimento de uma perspectiva nova, que por fim se formará.  Os impulsos renovadores caracterizam-se muito levemente como “estructuralistas”, embora quase ninguém aceite ser considerado como tal.  Barthes estudou Filosofia Clássica em Paris.  Leitor de Francês em Bucareste e Alexandria, a sua precoce carreira académica é interrompida por uma tuberculose que o obriga a internamentos sucessivos.  Próximo da filosofia e da crítica sartriana durante a sua juventude, a sua respeitabilidade começa a amadurecer quando publica, em 1953, “O Grau Zero da Escrita” e leva a cabo uma análise sociológica dos grandes mitos do mundo contemporâneo, que se publicará com o título de “Mitologias” em 1957.  A partir de 1977 deu aulas no Collége de France.  Althusser estudou na École, onde mais tarde será professor, até ao fatal acontecimento que o obrigou a abandonar toda a actividade académica e pública o assassinato da mulher.  Membro do PCF, desenvolveu, no entanto, um trabalho teórico heterodoxo e crítico da leitura ortodoxa de Marx, muito especialmente no que se refere á noçao de ideologia, que Althusser considera uma mediaçao necessária entre a consciência e o real, nao sendo possível estabelecer ideologias verdadeiras e falsas, e no que diz respeito á análise das determinaçoes ou condiçoes do que é histórico.  Nos seus seminários e aulas da École formaram-se muitos dos mentores políticos do Maio de 68:  Ranciére, Bernard-Henri Lévi, Glucksmann, entre outros. Entre as suas obras mais importantes podemos referir “Análise Crítica da Teoria Marxista” (1965), e a apaixonante autobiografía “O Futuro é Muito tempo” (1992).  Deleuze é o mais heterodoxo da geraçao pós-sartriana.  Espinosiano e nietzschiano, move-se entre um marxismo de tendência libertária e um nietzschianismo de orientaçao muito marcada.  Em 1968 publica o que se pode considerar a sua grande obra:  “Diferença e Repetiçao”.  Os acontecimentos de 68 levam-no a intervir na práctica política.  Começa a sua colaboraçao com o psiquiatra Guattari, e o primeiro resultado é o monumental “Anti-Édipo” (1968), resultando explosivo, tal como reconheceriam os autores, da revolta social de maio.  Foucault, professor do Collége de 1974 até á sua morte, começou a ser internacionalmente reconhecido com a publicaçao da “História da Loucura na Idade Clássica” (1964) e pelo deslumbrante tratado que é “As Palavras e as Coisas”.  Foi especialmente motivado pela análise dos límites da racionalidade moderna, com a consideraçao dos comportamentos sexuais.  Foi muito activo no Maio de 1968 e posteriormente, centrando-se no apoio aos movimentos anticarcerários e defensores da libertaçao sexual.  Morreu de sida em 1984.

j. l. rodriguez garcia  

UNHA VEZ PEPÍN FANGIO

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Unha vez Pepín Fangio

despois de descubrir

unha planta de cannabis

nun Bar da vila…

Un día Pepín Fangio

logo de repartir

champán como quen regala

astros do tamaño de burbullas…

En certa ocasión Pepín Fangio

tras eloxiar a Russel

ou botarse a cabalo

dunha muller, bromeando…

Un serán Pepín Fangio

tras bailar enriba dun mostrador…

Pepín Fangio díxome unha noite

coa súa língua

despedindo lampos como espadas:

Vouche dicer quen son os portugueses:

Estaba nunha tasca de París

– e abrevio e conto de modo

deficiente o que foi contado

maravillosamente – estaba eu

nunha tasca e unha liorta xurdíu,

discutiuse e pelexouse longamente,

fun levar á casa os papeis da Faculdade

e cando voltei aínda estaban pelexando,

dun intre a outro, o portugués

cai ferido longamente,

xa no meio dun charco de sangue

levántase afouto e berra, berra alto:

!Rufino nunca morre, Rufino nunca morre!

!Rufino nunca morre, Rufino nunca morre!

isto me contou Pepín,

que tal vez sabe que precisamos valentía

pra gañar a eternidade, e que a eternidade

só é gañada polo valente que non ten medo á morte.

Nin medo á eternidade.

 

francisco candeira

O SITUACIONISMO

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               O situacionismo como movimento agitou os temporais de 68.  Os situacionistas tinham proposto uma definiçao do seu movimento no número 9 da sua revista,  publicado em agosto de 64.  Ao perguntar a um situacionista qual o significado da palavra “situacionistas”  deparamo-nos com a seguinte resposta:  Define uma situaçao que se propoe “fazer” as situaçoes e nao “reconhecê-las” como valor explicativo ou de outro tipo.  Substituímos a passividade existencial pela construçao dos momentos de vida e da dúvida, pela afirmaçao lúcida.  Isto indica que a “revolta” fora alimentada com muita antecedência.  Os nomes  mais recorrentes no contexto do movimento serao Guy Debord e Raoul Vaneigem.  Tudo se acelera a partir de março de 68.  Revolta na nova faculdade de Humanidades de Nanterre a favor de reivindicaçoes que se configuram no assembleísmo do que se conhecerá como movimento 22 de março – cuja figura mais conhecida será Cohn-Bendit -, assim baptizado porque é nessa data que os estudantes ocupam os escritórios da administraçao.  É a explosao de maio.  As respostas provocadas sao difíceis de avaliar.  Mardrais, que seria secretário do PCF anos depois, publica um artigo de advertência intitulado “Os falsos revolucionários têm de ser desmascarados”.  É verdade.  Devem ser desmascarados.  Assunto de hemeroteca:  dias mais tarde, a 8 de maio, o PCF inícia uma aproximaçao ao imparável movimento. (…) “Tendências diferentes” implica que, ou se pode considerar e valorizar uma dada situaçao de forma diferente, ou a situaçao pode ser de facto distinta para uns e outros.  Como vimos, a aproximaçao sartriana á política comunista produziu-se no início dos anos 50, porquanto entendeu que existia um fundo comum que podia aproximar quem sofre as duras adversidades do capitalismo.  Assim, sem renunciar á equivalência entre escassez e meios de subsistência, Sartre detecta neste momento o aparecimento de uma nova modalidade de “escassez” – que vai inspirar alguns dos novos movimentos até aos nossos dias.  É numa entrevista concedida em Junho de 1968 ao “Le Nouvel Observateur” que Sartre desenvolve com clareza esta questao:  O velho motor das revolu- çoes, que era a necessidade nua, acaba de ser substituída (…) por uma nova exigência. É a liberdade. (…)  O que censuro a quem insultou os estudantes é nao ter visto que expressava uma nova reivindicaçao: a da soberania.

 

j. l. rodriguez garcia

SE UN RINOCERONTE, LENTAMENTE.

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Que nunca acabe a noite de Lisboa:
desherdada e fermosa…
Ramiro Fonte

Se un rinoceronte, lentamente,

pisase o asfalto e cruzase unha rúa

eu gabearía a torre máis alta

pra ver cun ollo o azul do río-ceo

– Texo de moitas caras e mil alturas delgadas –

e co outro o abismo

negro e profundo

do fondo da torre:

o pozo, a cisterna.

Pasaría diante do Hotel Veneza

e só un policía intelixente

podería endereitar

ou apagar a chama,

liquidar a súa vertixe.

Se o lume desaparecese

arrancaria tiras de pel

queimada pola praia

e agardaría pola noite:

mirar a rúa do ceo

desde unha rúa estreita

é mirar unha mesma rúa,

unha con paseos, outra sen eles,

mais con estrelas.

Na noite baixan dous arco-iris,

sobrepostos a un pergamiño moi velho,

máis ancho que eles, comido polo tempo,

túmbanse aos lados dunha rúa

con empedrado negro

– onde hai unha rapaza agachada,

a mirar pra riba, xunto a unha farola amarela-

pra veren pasar un home só

collendo unha lágrima do canto do ollo,

escondido, e escondido semeándoa

nun ermo pra que comece a chover

fina chuvia, e fumando pra que o fumo

impida ver outro ermo que non o seu,

vacío, con saudade dun pórtico e un gato

fermoso e delicado, e tímido.

Deslocado o home do ermo íntimo que creou,

e da noite, gardada, recollida,

só sabe que a xente

viaxa oculta e encerrada polas rúas,

tal vez en liteiras, tal vez en Metro,

e que a única rúa habitada

é moi negra entre dous arco-iris,

e ese home ve cos ollos atentos

e os ouvidos moi abertos

o rumor do tempo de ninguén

e a vertixe escondida

da chama de todos.

FRANCISCO CANDEIRA 

DO NOBEL AO MAIO DE 68

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               O nome de Sartre aparecia entre os dos candidatos ao Nobel da Literatura desde o final da década de 50.  Actualmente, decorridos os cinquenta anos que a Academia sueca se impoe para que as actas das suas deliberacoes possam ser consultadas, conhecemos os pormenores dos critérios que eram considerados á época.  Sabemos por exemplo, que Sartre já fora considerado nas deliberaçoes de 57, embora a publicaçao em 1952 da sua obra dedicada a Genet – dramaturgo, romancista, mas também homossexual e ladrao – tenha provocado um escândalo entre a nao muito liberal secçao de académicos.  Sabemos que em 1962, quando Steinbeck é galardoado, as actas refletem uma conside- raçao extremamente crítica sobre a filosofia de Sartre, embora se valorizem positivamente algumas das suas peças de teatro – em especial “A Porta Fechada”, “A Puta Respeitosa” e “As Maos Sujas” .  Mas de novo a influência prolongada de Genet…  Sartre soube que, em 1964, estava entre os candidatos e, por isso, enviou uma carta a 14 de outubro ao secretário da academia sueca: “Em primeiro lugar, transmito-lhe o meu profundo respeito pela Academia Sueca e pelo prémio com que honrou tantos escritores.  Porém, tanto por motivos pessoais como por outros motivos mais objectivos que nao devem ser desenvolvidos aquí, prefiro nao constar da lista de possíveis laureados e nao posso, nem quero – nem em 1964 nem mais á frente – aceitar esta dis- tinçao honorifica.”  Era demasiado tarde as deliberaçoes já ti- nham terminado há algumas semanas.  O prémio ser-lhe-á atribuído nesse ano. Motivos?  A breve referência da secretaria do Nobel afirma que a atribuiçao se deve a ter construído uma obra “cheia de espírito de liberdade e de procura da verdade.”  que teve grande influência no século XX.  A falta de compreensao filosófica transformou-se em veneraçao e a dureza da sua reflexao sobre a natureza humana em excelente brilhantismo, mas o que aconteceu verdadeiramente é que poucos meses antes publicara “As Palavras”:  podemos entender que esse texto, referido neste livro, poe um bálsamo sobre o “escândalo Genet”.  Renuncia ao Nobel.  Na única declaraçao que aceita publicar para expor os “motivos pessoais” na carta enviada em meados de outubro, se referia a ter “sempre declinado as distinçoes oficiais”, recordando a sua renúncia á “Legiao de Honra”, ou a sua recusa de uma cátedra no Collége de France, e que a alusao aos “motivos objectivos” indica que, na sua opiniao, “o Prémio Nobel se apresenta objectivamente como uma distinçao reservada aos escritores do Occidente ou aos dissidentes do Leste”. Sinceridade ou evasivas? Estou mais inclinado a pensar que Sartre nao quer ser absorvido pelo poder – político ou literário, nao interessa -, que pretende manter a sua independência a todo o custo, intuindo que a aceitaçao do prémio mutilaria a sua capacidade de actuaçao. Beauvoir recordará a atmosfera daqueles dias em “Balanço Final”:  “Como é natural, a impresa acusou Sartre de ter manobrado tudo para conseguir publicidade.  Insinuaram que recusou o prémio porque Camus o tinha recebido antes dele, ou porque eu teria ficado com ciúmes.  Ou que é preciso ser muito rico para se permitir cuspir em cima de vinte e seis milhoes.  O que mais o desconcertou foram os escritores, que lhe pediram que recebesse o prémio e lhes desse uma parte, ou tudo, inclusivamente um pouco mais.  Porem, no auge da popularidade, Sartre começa a afastar-se da actualidade intelectual.  A sua biógrafa Cohen-Solal lembra-nos a que extremo inesperado e incompreensível Sartre se desentende com as novas correntes, que, como veremos de seguida, estarao a fazer fermentar um novo horizonte filosófico e a alimentar a eclosao de 1968,  Barthes, Althusser ou Foucault, mas também, por exemplo, Deleuze, c omeçam a ser os referentes estimados e á volta deles organiza-se a reflexao e a agitaçao política:  Sartre “negava-se a olhar de frente esses modernos e fecundos métodos de investigaçao – ou com a abertura mental que teria sido necessária”,  diz-nos.  No entanto, está tudo prestes a eclodir e Sartre envolver-se-á de novo numa intensa actividade política, que só a morte interromperá.  Os conflictos estudantis incendeiam a pradaria no primeiro trimestre, para recordar a uma metáfora muito utilizada por aqueles anos.

J. L. RODRIGUEZ GARCIA   

O TEXO VOA COMO UNHA GAIVOTA

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“¿En qué mirada o sentes palpitar?

Na tarde voas, vibras sobre o Tejo.”

Xavier Rodríguez Baixeras

O Texo voa como unha gaivota,

dá a volta, voa como unha mirada;

por iso só a memória é retorta.

E o río sobreposto cal alma delgada

 

xace como nube azul sobre unha rúa de prata.

Máis tal vez non voa o Texo

porque é máis grande que ésta e aquela ourela.

E máis leve que o ar do ceo

mostra escondido, deitado, levemente

a inmensidade súa.

 

francisco candeira

O FASCÍNIO DE ESTALINE (XVI)

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               O fascínio indiscriminado que a figura de Estaline provoca pode parecer estranho.  Que o seu papel político e as suas intervençoes teóricas mereçem ser objecto de debate talvez nao nos devesse surpreender.  Mas a sua sombra vai muito para além disso.  Os poetas mimam-no como ao salvador da humanidade. E é assim que o veem.  Reparemos nestes testemunhos poéticos (excertos com omissao de alguns versos) de Miguel Hernández, Alberti e Neruda…  Do poema intitulado “Rússia”, de Miguel Hernández.  “Ah, camarada Estaline: de um povo de mendigos / fizeste um povo de homens que sacodem a cabeça/ e afugentam a prisao, e prodigalizan o trigo/  fazendo um imenso esforço, imensamente/ De homens que mal se atreviam a viver/ com a boca amarrada e o sonho esvravizado,/ de uns corpos que andavam, cambaleavam, rangiam,/ uma massa de férreo volume forjaste.”  Neruda nao fica atrás no seu panegírico intitulado “Ode a Estaline”:  “Camarada Estaline, estava eu junto ao mar na Isla Negra/ a descansar de lutas e viagens/ quando a notícia da tua morte chegou como um golpe do oceano./  Junto a Lenine, avançava/ e assim, com blusa branca/ boné cinzento de operário/ Estaline foi construindo.  Tudo/ era preciso/ ser homens!/ É esta/ a lei estalinista/ e é preciso aprender de Estaline/ a sua intensidade serena/ a sua claridade concreta/ o seu desprezo/ ao ouropel vazio.”  Mas a palavra de Alberti é ainda mais generosa. No seu “Rufar lento pela morte de Estaline” escreve: “Pai, mestre e camarada/ quero/ quero chorar, quero cantar/ fechou os olhos a firmeza/ a lâmina mais limpa de aço/ Pai e mestre e camarada/ um gaviao voa na escuridao./ Mas na tua barca um pombo/ mas na tua mao um pombo,/ abre-se aos céus da paz/ Estaline nao morreu.  Nao morreu./ Que cada lágrima cante/ a tua lembrança.”   Tal era a curiosa “situaçao” naqueles anos de 1930 a 1950.  Sobre a realidade da maquinária repressiva organizada pelo líder da URSS.  E Sartre nao pode desconhecer este assunto de extrema importância:  Gide, um autor pelo qual sempre declarou a sua simpatia, regressou da URSS e publicou um breve relato da sua viagem no qual refere, por exemplo, que “na URSS se admite por antecipaçao e de uma vez por todas que, em tudo e sobre qualquer questao, nao pode haver mais de uma opiniao.  O espírito das pessoas, além disso, é formado de tal maneira que o seu conformismo é fácil, natural, insensível, até ao extremo de nao conter hipocrisia”   Alfinetada compassiva mas severa.  Apesar disso Sartre decidiu manter – “sujar as maos” – o apoio ao espírito da URSS.  O mais relevante é considerar o motivo teórico da aproximaçao sartriana ao marxismo.  Pode ser caracterizado de forma breve:  Sartre lança a proposta teórico-política da confluência necessária existencialismo-marxismo.  A aposta é esta, e vai justificá-la com os acontecimentos de1952, dirigindo-se sobretudo á esquerda comunista que criticou a frustrada relaçao entre as massas e o PCF.  E para se lhe referir vai usar a questao-chave no âmago dos confrontos da altura. De que se trata?  Na verdade, de um assunto que ainda hoje é o centro dos debates políticos á direita e á esquerda.  Nao é senao a relaçao entre as massas e o partido – seja de que ordem for -, entre o proletariado e o PC na conjuntura concreta vivida por Sartre por volta de 1952.

J. L. RODRIGUEZ GARCIA 

É O MESMO PICHÓN

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É o mesmo pichón

o que se acurruca na escuridade

e o que me cobre coas mantas

para que durma

o meu voo diminuto

do sono,

pra que non teña frío

o meu medo grande

ao que só os ollos

e a dolor lle fan caso.

Que me guíe un pichón,

corazón enteiro e só de plumas,

na escura soidade

que me acerca ao sono;

que un pichón de plumas

e un corazón de arrolo,

un son do que se arrola

a si mesmo cun son eterno,

suave, caladísimo, ronco

mar pequeno con medo

e sen medo, non sei,

me conceda o silencio

que invita, aquel

que sen que poida negarme,

me invite á oración

que pide o sono

que pide a alegría cósmica

dun pichón

que dorme co seu canto

arrolándose.

 

francisco candeira

A APROXIMAÇAO TEÓRICO-POLÍTICA AO MARXISMO (XV)

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               Quando é que Sartre conhece o pensamento marxista? Em 1974, recordará que se aproximou pela primeira vez de Marx no terceiro ano dos seus estudos na École e que a leitura lhe provocou “o efeito de uma doutrina socialista, que pareceu bem justificada.  Disse-lhe” – continua a dirigir-se a Beauvoir – “que julgava que a compreendia, e que nao compreendia nada, nao via que sentido podia fazer nesse momento.  Compreendia as palavras, as ideias, mas nao que se aplicassem ao mundo presente, que o conceito de mais-valia tivesse um sentido actual”.  Terao de passar vários anos até que Sartre esteja em condiçoes de se aproximar e criar uma polémica ao mesmo tempo.  A aproximaçao de Sartre ao marxismo e á política comunista leva-nos ao início da década de 50:  começa a etapa do compromisso.  Mas a verdade é que, antes de 1952, quando dá início á publicaçao de “Os Comunistas e a Paz”, o compromisso como actitude necessária para consolidar a liberdade individual e os direitos colectivos, já existia.  Parece-me importante referir duas circunstâncias que considero incontornáveis.  Em primeiro lugar, nao devemos esquecer que Sartre impulsionou a fundaçao de “Les Temps Modernes”, revista cujo primeiro número aparece em outubro de 1945:  é importante destacá-lo porque a apresentaçao de “Les Temps modernes” abre com uma afirmaçao  categórica.  Sartre denuncia que “todos os escritores de origem burguesa conheceram a tentaçao da irresponsabilidade: há um século, esta tentaçao constitui uma tradiçao no curso de Letras”.  E anuncia, para justificar a finalidade da revista, que a “intençao é contribuir para que se produzam certas mudanças na sociedade que nos rodeia”, sempre na perspectiva de analisar a liberdade, porque, embora esta pudesse passar por uma maldiçao, “e é uma maldiçao…  mas também é a única fonte da grandeza humana”. A tese da “literatura comprometida”, que seria preciso entender como do “intelectual comprometido”, abre caminho.  Mal compreendida com muita frequência, essa tese implica apenas a sugestao que o “escritor-intelectual” tenha em conta os problemas que o situam como cidadao no mundo: nao se trata da desvalorizaçao do “literário”, isso seria outro assunto, mas, estrictamente, do posicionamento numa referência necessária na escrita aos acontecimentos que interessam ao cidadao.  Em segundo lugar, nao há dúvida de que Sartre vai levar muito a sério a intençao na criaçao da revista, que dá os primeiros passos com o apoio inestimável de Merleau-Ponty, Beauvoir e Aron, entre outros.  Sartre ilustrará literariamente a tese do “intelectual comprometido”.  Em 1948, estreará “As Maos Sujas”, uma peça destinada a defender a necessidade de o “intelectual tradicional” sair da “torre de marfim” – embora com uma crítica aparentemente feroz ao perfil comunista:  as razoes serao compreendidas de seguida – e entregará o guiao cinematográ- fico de “A Engrenagem”, filme que insiste na tese da necessidade do compromisso.  Mas o mergulho sartriano na realidade social, cuja urgência fora anunciada na conferência de 1945 a que nos referimos antes, nao tem apenas uma perspectiva literária. Por volta de 1947-1948, Sartre já se dedicou a impulsionar um mo- vimento político que baptizará com o nome de RDR – siglas do Rassemblement Démocratique Révolutionnaire – e que pretende ser uma alternativa aos compromissos gaullista e comunista.

J. L. RODRIGUEZ GARCIA

AMÁLIA RODRIGUES (II)

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Amália, malia dor, alía alí

no fondo da Luz a nosa Saudade

coa voz longa do Mar

e ten sempre un ar de leve e alto río

a canción que flúe prá illa da Soidade.

 

Dá no alto a volta o ar

dá no mar a onda a volta

canta en Amália o mar

e a Saudade vai e volta.

 

FRANCISCO CANDEIRA

O MARXISMO NO HORIZONTE (XIV)

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               Investigar a ligaçao de Sartre ao marxismo nao é fácil. E nao apenas porque a sua leitura de Marx reflicta lacunas significativas no conhecimento da obra, mas porque a aproximaçao do nosso filósofo ao marxismo decorre paralelamente ás suas próprias aproximaçoes e afastamentos da política comunista.  Este duplo horizonte, que inclui discussoes propriamente filosóficas e polémicas claramente políticas, dificulta qualquer análise porque, ás vezes, parece partilhar o essencial do marxismo quando se afasta da política do PCF e, pelo contrário, parece aproximar-se da política do partido, quando se afasta do horizonte teórico marxista.  É realmente uma montanha-russa de subidas íngremes e descidas vertiginosas…  E a questao torna-se mais difícil se tivermos em conta a diversidade do marxismo a partir do pós-guerra, com uma variedade de alternativas realmente notável:  de facto, quando Sartre se afasta da política do PCF, sentir-se-á muito próximo da orientaçao dos comunistas italianos – mas de quais? -, e posteriormente da alternativa cubana, e, antes, da renovaçao maoista – de facto, Beauvoir publicará uma extensa análise da realidade chinesa em 1955, intitulada “A Longa Marcha: ensaio sobre a China”.  Estas dificuldades farao com que nos centremos em alguns aspectos superficiais, embora indispensáveis da relaçao de Sartre com o marxismo, conscientes de que uma análise mais pormenorizada nos apresentaria questoes que só poderiam ser abordadas “in extenso”.

 

J. L. RODRIGUEZ GARCIA

CORZÁNS

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Xa non ten Historia pra contar,

xa está entregue a outro destino

o portalón da Inquisición.

Noutrora pazo, arestora fachada

medio inclinada cara a dentro.

Hoxe máscara con vertixe

cara ao interior do seu pasado.

Sentín máis  emoción, e máis medo,

e máis abraio, e máis lonxanía

ao cruzar o seu limiar

-!que morra a Institución! –

que ao pasar por debaixo

do túnel da Caniza,

cos seus dous kilómetros e medio,

e que polo visto o fixo Alguén

no día da inauguración,

tras muitísimas e fatigosas visturias.

Cando crucei a Porta

dei un vasto paso cara a profundidade

dos tempos, e a vertixe

que sentin, se fora de noite,

ou en soño, podia comparar-se

ao paso que algunha vez deu

Athanasius Pernath, cando

semellaba descaír cara adiante,

obnubilado polo Golem.

Eu, ao tempo que a fachada,

pareceume cair cara adentro,

cara ao pasado das idades

e as nubes das xeracións.

 

francisco candeira

BREVE EPÍLOGO SOBRE A CONFERÊNCIA DE OUTUBRO DE 1945 (XIII)

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               Eis um Sartre na defensiva. Para responder ás críticas, organizará uma conferência que tem lugar no final de outubro de 1945, coincidindo com o aparecimento de “Les temps modernes”.  Trata-se na verdade do que poderiamos chamar um “acontecimento social” a sala do Club Maintenant, em Paris, está a abarrotar.  O público é tao numeroso que Sartre teve de fazer sessoes posteriormente para esclarecer problemas e responder ás críticas.  Estas tinham sido apontadas no seu conjunto á trama moral sartriana: se ficara estabelecido que nao podem existir duas situaçoes semelhantes, há apenas uma possibilidade muito remota de estarmos de acordo na escolha de um possível idêntico, e neste caso o “para-si” devia esforçar-se por renegar esse possível comum,  que menospreza a sua irredutibilidade, a sua subjectividade original.  A afirmaçao da impossibilidade do comunitário recebe críticas dos teóricos comunistas, que qcham que Sartre se vanagloria de uma concepçao da espécie humana em que predominam os aspectos sórdidos, confusos, nao tendo em conta os destaques belos da existència – por exemplo, a evidência do espírito solidário -, e também dos cristaos, que o censuram por nao ter ligado á ideia de uma transcendência que englobaria forças e representaçoes colectivas.  Todos denunciam o individualismo sartriano.  Sartre responderia ás críticas centrando-se especialmente na rejeiçao fundamental.  Individualismo?  Sem dúvida, a leitura do tratado de 1943 e da literatura sartriana nesta altura parece levar-nos a tal conclusao.  Mas Sartre vai surpreender-nos porque escreve que, “quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, nao queremos dizer que o homem é responsável pela sua estricta individualidade, mas sim que é responsável por todos os homens”.  A surpresa é enorme:  onde havia desencontro ontológico-ético há agora uma corresponsabilidade que entende o fervor da questao comunitária.  Mais á frente, Sartre referir-se-á a “uma universalidade humana de condiçao”.  A negaçao absoluta do que se tem defendido filosófica e literariamente.  Como é possível esta viragem tao pronunciada? Achamos que se fica a dever a uma razao á qual dedicaremos o proximo capítulo;  Sartre iniciou a sua aproximaçao á política, que requer o compromisso e a solidariedade, e consequentemente deve aceitar a suspeita de uma situaçao comum – talvez nao universal, mas que vai para além do individual -, e, portanto, de um projecto-possível  comunitário. Dá-se início a uma nova aventura.

 

J. L. RODRIGUEZ GARCIA

NO SOÑO O TABULEIRO DE XADREZ

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No soño o tabuleiro de xadrez

só aparece coas pezas perfectamente

colocadas como antes do inicio

cando desperto sobresaltado.

Un día percorrín

o tabuleiro de abaixo arriba,

coma se estivera de pé,

máis, coma se cada cadro fora un cubo.

Mellor dito, tamén o percorrín ao revés,

de riba abaixo:

entraba por un orifício á miña medida

máis despois

non conseguía voltar pra riba, pra trás,

coma se non puidera saír

polo mesmo sitio que entrei,

verme obrigado a furar

continuamente cara abaixo

como única saída ou esperanza posíbel.

Percorrín, baixando, todos

os cadros do tabuleiro:

como asfixiado e con temor

ía avanzando, avanzando,

sen saber se ía dar a algún lugar

respirábel.

Despois despertei de repente, sobresaltado,

vin de novo as pezas perfectamente

colocadas no tabuleiro,

preparadas pra comezar,

o tabuleiro deitado, horizontal.

Agachei as orellas, e fun beber

café con leite, e por riba un vaso de auga

– que me entrou coma un río

pola boca abaixo, ou pola guelra se fose unha troita.

 

francisco candeira