.
Naturalmente, por ser muito jovem em 1914, Sartre nao participou no conflito. Porém, sofreu as consequências de forma indirecta, visto que a Alsácia era a pátria dos seus antepassados- (…) Arrancada á Alemanha e anexada á geografia francesa, facilitou a mudança da família materna de Sartre para Paris. Mas sobre tudo a referência indirecta da guerra, que se transformará em objecto de reflexao para filósofos e homens de letras, semeou duas vivências em Sartre que o acompanharam muitos anos: por um lado, um pessimismo profundo quanto á possibilidade do progresso e do encontro colectivo, e, por outro, um nao menor pessimismo quanto á possível bondade do homem. Isto é visível nos seus primeiros textos narrativos – A Náusea ou O Muro- e, sem dúvida, nas suas obras teatrais. E esse estado de espírito encontrará traduçao filosófica em “O ser e o Nada”, o tratado em que a reivindicaçao da liberdade absoluta conduz á defesa de uma moral individualista e sem solidariedade, e isto apesar de, naquela altura, Sartre já ter iniciado o seu caminho rumo a uma politizaçao antiburguesa e pró-socialista. Desta forma, Sartre associava-se ao horizonte crítico com o poder social e político estabelecido. A visao sombria e angustiante da situaçao nao foi, nem de longe, exclusiva de Sartre. O tema abunda na literatura da época. As consideraçoes sobre os acontecimentos de 1914 a 1918 eram de uma acidez extraordinária. Podemos e devemos relembrar, por exemplo, Tristan Tzara, que inspirou em grande medida o projecto surrealista françês. Exilado da sua Roménia natal em Zurique, onde conheceu Lenine, provocou um dos ataques mais directos e frontais á cultura vigente, mostrando um ódio juvenil extremo aos mestres e á civilizaçao que conduziram á hecatombe que a geraçao viveu. O movimento que criou, denominado dadá, procurou o esquecimento da aventura cultural e o início de uma nova forma de entender a sensibilidade e a criaçao. Em 1920, mudar-se-ia para Paris, onde foi recebido com entusiasmo pela tribo surrealista, que assumiu alguns dos princípios que Tzara começara a expressar nos seus periódicos manifestos. Culturalmente, o dadaísmo colheu alguns dos seus mais importantes frutos na França de Sartre, tanto na sua versao literária como na sua projecçao política- e sobretudo no surrealismo. Breton, pontífice do surrealismo e militante activo do confronto cultural contra quem, na sua opiniao, conduziria a Europa ao extermínio e á banalidade, derivará para uma aproximaçao á política comunista a par de poetas como Aragon ou Éluard. Daí que o “Segundo Manifesto” incluia de forma explícita Marx como profeta, juntamente com Rimbaud, o poeta conflictuoso e radicalmente insubmisso em relaçao á cultura europeia. O resultado tem uma dupla natureza: mudar a vida (Rimbaud), mudar o mundo (Marx). E esta vontade de mudar aposta numa radicalizaçao revolucionária de sinais extremos. Sartre está situado neste horizonte marcado pela Primeira Guerra Mundial. Escreverá mais tarde, com uma contundência surpreendente, que o seu ódio á burguesia nunca se vai extinguir: é a civilizaçao que desembocou na ruína e na desolaçao.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
.
