Arquivos diarios: 21/05/2017

JEAN-PAUL SARTRE (III)

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                    Naturalmente, por ser muito jovem em 1914, Sartre nao participou no conflito. Porém, sofreu as consequências de forma indirecta, visto que a Alsácia era a pátria dos seus antepassados- (…) Arrancada á Alemanha e anexada á geografia francesa, facilitou a mudança da família materna de Sartre para Paris.  Mas sobre tudo a referência indirecta da guerra, que se transformará em objecto de reflexao para filósofos e homens de letras, semeou duas vivências em Sartre que o acompanharam muitos anos:  por um lado, um pessimismo profundo quanto á possibilidade do progresso e do encontro colectivo, e, por outro, um nao menor pessimismo quanto á possível bondade do homem.  Isto é visível nos seus primeiros textos narrativos – A Náusea ou O Muro- e, sem dúvida, nas suas obras teatrais.  E esse estado de espírito encontrará traduçao filosófica em “O ser e o Nada”, o tratado em que a reivindicaçao da liberdade absoluta conduz á defesa de uma moral individualista e sem solidariedade, e isto apesar de, naquela altura, Sartre já ter iniciado o seu caminho rumo a uma politizaçao antiburguesa e pró-socialista.  Desta forma, Sartre associava-se ao horizonte crítico com o poder social e político estabelecido.  A visao sombria e angustiante da situaçao nao foi, nem de longe, exclusiva de Sartre.  O tema abunda na literatura da época.  As consideraçoes sobre os acontecimentos de 1914 a 1918 eram de uma acidez extraordinária. Podemos e devemos relembrar, por exemplo, Tristan Tzara, que inspirou em grande medida o projecto surrealista françês.  Exilado da sua Roménia natal em Zurique, onde conheceu Lenine, provocou um dos ataques mais directos e frontais á cultura vigente, mostrando um ódio juvenil extremo aos mestres e á civilizaçao que conduziram á hecatombe que a geraçao viveu.  O movimento que criou, denominado dadá, procurou o esquecimento da aventura cultural e o início de uma nova forma de entender a sensibilidade e a criaçao.  Em 1920, mudar-se-ia para Paris, onde foi recebido com entusiasmo pela tribo surrealista, que assumiu alguns dos princípios que Tzara começara a expressar nos seus periódicos manifestos.  Culturalmente, o dadaísmo colheu alguns dos seus mais importantes frutos na França de Sartre, tanto na sua versao literária como na sua projecçao política- e sobretudo no surrealismo.  Breton, pontífice do surrealismo e militante activo do confronto cultural contra quem, na sua opiniao, conduziria a Europa ao extermínio e á banalidade, derivará para uma aproximaçao á política comunista a par de poetas como Aragon ou Éluard.  Daí que o “Segundo Manifesto” incluia  de forma explícita Marx como profeta, juntamente com Rimbaud, o poeta conflictuoso e radicalmente insubmisso em relaçao á cultura europeia.  O resultado tem uma dupla natureza:  mudar a vida (Rimbaud), mudar o mundo (Marx).  E esta vontade de mudar aposta numa radicalizaçao revolucionária de sinais extremos.  Sartre está situado neste horizonte marcado pela Primeira Guerra Mundial.  Escreverá mais tarde, com uma contundência surpreendente, que o seu ódio á burguesia nunca se vai extinguir: é a civilizaçao que desembocou na ruína e na desolaçao.

 

J. L. RODRIGUEZ GARCIA

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NO MEU BARRIO HAI UN PASEO

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moi importante, moi solitário,

e un edificio que están a derrubar.

No paseo nace unha herba

moi verde entre os paralelopípedos

de pedra e entre as pedriñas:

pasa moi pouquiña xente, case ninguén.

En frente, percorrido

polo silencio de gatos noctámbulos,

hai outro paseo

limitado por un gran muro branco

entre dúas antigas farolas de rúa.

Na parte superior deste muro, na terra,

nace e trepa unha enredadeira

que avanta cara abaixo e cara arriba,

enorme, a través dunha rede alta.

Esta trepadeira con flores violetas

entra polos meus soños adentro

levándome ás rexións da miña infancia,

cando eu xogaba cunha trepadeira.

Agora, á noite, trepa tamén a miña infancia.

 

francisco candeira