Arquivos diarios: 12/05/2017

SOBRE UN EDIFICIO ALTO, DEGRADADO,

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acumúlanse as pombas

entre as bufardas.

Máis arriba, na torre da igrexa,

a campá balancea e toca.

Unha pomba, ou tres ou catro,

ensaian, namentres, un efémero voo.

Voltan a pousar. Outras pombas

se elevan de novo.

(De todo provén a sustancia

do irreal).

A música, que non os toques,

abrangue todo:

é de todas as pombas,

ou de ninguén, nin do poeta,

ou quizais unicamente, neste poema,

do edificio baleiro

e da árbore á retaguardia,

que, contida, só ás veces

se move, trémula, pracenteira, suave

e para min lonxana, tan lonxana

como o edificio baleiro,

misteriosamente ocupado por

unha franxa de sol

e unha faixa de sombra.

 

FRANCISCO CANDEIRA

ERASMI ROTERODAMI

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               Durante o século XIV, as províncias de Frísia e de Groninga, juntamente com a cidade de Deventer, foram os territórios dos Países Baixos mais assolados pela peste negra, com registros que remontan a 1350 e 1351.  De todos os surtos, talvez o mais severo para a ordem dos Irmaos da Vida Comum tenha sido o que decorreu no verao de 1398, ao ponto de muitos dos seus membros, furtando-se aos seus deveres de cuidado a doentes e necessitados, um dos preceitos fundamentais da ordem, abandonarem a cidade para evitar o contágio.  O século XV foi, se isso fosse ainda possível, pior em Deventer.  Os surtos continuaram e em certas ocasioes foram até mais virulentos.  Os anos de 1483 e 1484 foram especialmente difíceis. Basta recorrer aos testemunhos da época para ter uma ideia da intensidade do surto desses dois anos.  Em 1483, dois amigos, ambos contagiados pela epidemia, tentaram encontrar um magistrado em Deventer para se tornarem mutuamente testamentários em caso de falecimento.  Foi em vao.  Todos os funcionários e cargos oficiais tinham abandonado a cidade com medo de contrair a doença.  Em 1484, ano que marcaria definitivamente o destino de Erasmo, o golpe da peste foi tao violento em Deventer, que de um grupo de vinte e cinco estudantes de Sao Lebuíno só sobreviveram cinco,  As aulas, é evidente, foram suspensas e os estudantes que estavam hospedados na residência dos Irmaos da Vida Comum, abandonam-na; no caso de Pieter e Erasmo, aquando do seu regresso a casa encontram a sua mae a agonizar.  Sozinhos numa cidade assolada pela peste, percorreram os 113 quilómetros que separam Deventer de Gouda para se refugiarem na casa paterna.  Ao chegarem lá, descobrem que o seu pai também tinha contraído a doença e que, pouco tempo depois, morreria…    para prosseguirem os seus estudos, ficariam alojados na “domus pauperum scolarium (casa dos estudantes pobres) dos Irmaos da Vida Comum.  Naquela que é conhecida como carta a Grunnius, redigida por Erasmos em 1516 – mas só publicada na sua colecçao epistolar (Opus Epistolarum) de 1529 – recordará este período num tom sombrio que já se torna familiar:  “Se os irmaos, veem um rapaz cuja inteligência é mais elevada e activa do que é habitual – como costuma ser o caso dos rapazes dotados e capazes -, a sua meta é quebrar-lhe o espírito e submetê-lo a castigos corporais, ameaças, recriminaçoes e várias outras artimanhas – discipliná-lo, chamam-lhe eles , até o fazerem encaixar na vida monástica.  Por isso sao tao populares entre os dominicanos e os franciscanos, que afirman que as suas ordens ficariam sem monges se nao fosssem os jovens que os irmaos lhes disciplinam.  Uma “educaçao” de tal calibre, baseada no medo e no doutrinamento, opunha-se diametralmente ao que tinha, atraído Erasmo para o estudo, isto é, o carácter libertador que reside em toda a cultura, na possibilidade de acceder á grandeza da antiguidade clássica através das suas obras mais elevadas – aquilo que ele denomina como “os melhores autores”-,  e a oportunidade de ver o mundo através da lente que estas concedem e, ao imitá-las alcançar uma voz própria merecedora dessa mesma grandeza.  Deste ponto de vista, o mosteiro era para ele pouco mais do que uma fábrica de embrutecimento.

 

JORGE LEDO