SIGMUND FREUD (A RELIGIAO)

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               Propositadamente, reservamos um lugar particular para o comentário ao papel da religiao na cultura.  O seu enorme peso cultural e histórico e a transcendência que a reflexao sobre a religiao tem na obra freudiana exigiam que lhe dedicássemos uma atençao especial.  Assim, neste ponto passamos a abordar a religiao na óptica crítica da psicanálise freudiana.  Querendo ter uma ideia global da visao freudiana da religiao, teremos de nos socorrer de uma das suas obras mais significativas, “O Futuro de uma Ilusao” (1927), um texto do seu último período productivo.  Também se afiguram especialmente esclarecedores alguns princípios anunciados na magistral obra “O Mal-Estar na Civilizaçao”, da qual já nos ocupamos.  Decerto, estes nao sao os únicos textos que Freud dedicou, total ou parcialmente, á questao religiosa.  Poderíamos citar outros dois textos:  em primeiro lugar, um breve estudo, apresentado em forma de artigo e publicado poucos anos antes de “Totem e Tabu”, intitulado “Actos Obsessivos e Prácticas Religiosas” (1907), na qual Freud já estabelecia certas semelhanças entre as cerimonias levadas a cabo pelos neuróticos e as acçoes sagradas do rito religioso;  em segundo lugar, “Moisés e o Monoteismo” (1934 – 1939), uma obra na qual Freud aplica o método psicanalítico para esclarecer as origens históricas do judaísmo.  Apesar do grande interesse que têm muitos destes textos de Freud, aqui nao nos interessaremos tanto pela religiao enquanto fenómeno histórico, mas pela interpretaçao psicanalítica da origem do sentimento religioso.  Portanto, recorremos directamente a “O Futuro de uma Ilusao”, ou ao início de “O Mal-Estar na Civilizaçao”, onde Freud nos esclarecerá.  Uma vez definido o carácter essencial de qualquer sentimento religioso, por intermédio da técnica psicanalítica, Freud tentou mostrar as suas origens psíquicas, isto é, explicar de que forma se concebia tal ideia na mente das pessoas.  Dado que o que caracterizava o sentimento religioso era uma sensaçao de completa ausência de limites, o primeiro objectivo de Freud foi demonstrar o carácter indefinido daquilo a que chamamos “Eu”.  Em geral, Freud afirmou que a religiao era um tipo de ilusao de carácter infantil, uma “ilusao” que radicava num intenso e íntimo desejo de protecçao;  a religiao, como já sucedia com uma infinidade de marcos e expressoes da nossa natureza, manifestava uma dependência absoluta do desejo.  Como podemos observar, para se referir á visao da realidade que era própria do homem religioso, Freud usou o termo “ilusao”, e insistiu que, por “ilusao”, nao se deveria entender uma espécie de “delírio”.  Ambos, “ilusao” e “delírio”, eram, com efeito, fruto do desejo, mas as ideias delirantes, ao contrário das ilusoes, eram absolutamente contrárias á realidade.  A “ilusao” de carácter religioso era, apesar de tudo, verosímil.  Freud tinha a convicçao de que, face a uma natureza cruel e a um destino incerto, o homem adulto se refugiava e revivia aquela situaçao infantil na qual o pai, poderoso e justo, era capaz de dar uma resposta satisfactória ás incertezas, dores e frustraçoes próprias desse estado de falta de defesa e indigência que é a infância.  O filósofo insistia em que se pensasse nos caracteres inequivocamente paternais que os deuses de todas as grandes tradiçoes religiosas adoptam:  os deuses vigiam e protegem, sao fortes e potentes, sábios, bons e justos.  Sem lugar a dúvida, sao os mesmos atributos que a criança, nas etapas iniciais do seu crescimento, atribui ao progenitor.  Estes “deuses-pais” sao vistos por parte do crente como aqueles que terao o poder de os afastar definitivamente dos horrores da natureza e de os reconciliar com a crueldade do destino.  Inclusivamente, como salientava Freud, os crentes nutrem em relaçao a Deus os mesmos sentimentos contrapostos e ambivalentes que a criança nutre pelo seu pai:  o “deus-pai”, é querido e respeitado, mas ao mesmo tempo é temido, e inclusive, em determinadas ocasioes, odiado.

MARC PEPIOL MARTÍ 

 

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