
Embirrei com este nome: “Combinado Têxtil de Tbilissi”. ¿Porque non se dizia, em linguaxe cristán, que aquilo era unha fábrica de meias? Tadeu Gogoladze, home paciente e minucioso, deu-me explicaçóns, mais ou menos confusas para mim: ali non se trata apenas de indústrias, mas de instituiçóns sociais. Tadeu Gogoladze é director do estabelecimento. Faz unha narrativa sincopada, alargando-se em números. Se o interrompemos, abre um parêntese na exposiçón, larga os papéis; depois continua, devagar, para non nos desorientarmos na escrita. Iniciou-se a construçón em 1939; findou em 1950. Começou a produçón em 1941. Aumento da produçón de 1950 a 1951: 32,8%. Mais de quatro mil operários. Oito horas de trabalho por dia. O salário médio é de oitocentos e vinte rublos, e o trabalhador paga polo aluguer da casa vinte e cinco rublos. ¿Só, perguntei admirado? –Non é pouco, disse o home. O aluguer da casa regula de um a três por cento do salário. Estamos no máximo. Podíamos estar em oito rublos. Há na fábrica sanatório, hospìtal, banhos, lavandaria, estádio, casa de cultura, sala de desportos, escolas de aprendizaxem, biblioteca, teatro. Nunha escola normal nocturna, próxima, os operários estudam sem lesar o trabalho. Recordei-me de um pedido feito dias atrás, na Voks. Unha senhora queria ver creches, xardins de infância, e o presidente embaraçara-se: –“Non é possíbel. Non há casas especiais para isso. Mas em qualquer fábrica a senhora encontrará o que desexa”. Agora, como non se mencionassem asilos infantis, perguntei: –¿O senhor non tem creches, xardins de infância? —Claro, respondeu Gogoladze. Pensei que non fôsse preciso dizer isso. E, com a mán na massa, forneceu-nos algunhas informaçóns complementárias. Mais de trezentos filhos de operários, están em campos vizinhos de Borjômi, a maior parte de graça. A permanência de mês e meio aí custa quinhentos rublos: os trabalhadores pagam de oitenta a cento e oitenta rublos; Nesses lugares existem professores, médicos, dentistas. Ás vezes as crianças ván para sanatórios e balneários, no mar Negro. Para repouso de crianças até oito anos há casas de campo, granxas, onde elas ficam três meses. As cousas vistas no papel começavam a dar-me enxôo. Melhor seria examiná-las. Erguemo-nos. Até que enfim! Xá me sentia com as pálpebras pesadas de algarismos. Enveredámos por um corredor; e achando unha porta meio pechada, marchei para ela, e empurrei-a. Alguém me vedou a passaxem. –Está aí! murmurei a Sinval Palmeira e Arnaldo Estrêla, meus companheiros excelentes desde Praga. Temos aí a cortina de ferro, há unha sala onde non podemos entrar. Mas a prohibiçón referia-se apenas aos barbados. O sexo feminino entrou, saíu. –¿Que é que há? Quási nada: as operárias estavam nas banheiras, lavando-se. –Está ai, seu Sinval. Está aí, seu Estrêla. Ausência de liberdade. Elas entram, nós non podemos entrar. Há discriminaçón, como nos Estados Unidos. E temos aqui perto as mulheres mais bonitas do mundo. Essas idéias foram varridas por unha cadeira funesta, um motor, odiosas vitrinas onde se arrumavam brocas e suplícios hábeis de odontoloxia. Vimos em seguida as aulas, o gabinete de fisioterapia, dous salóns de xinástica. E surxiram-nos as máquinas, abundantes, organismos que venero, porque non os entendo. Operárias áxeis mexiam em ferros complicados, velozes, afeitos à ordem, à disciplina. Giravam fusos, e as maçarocas iam-se tornando cada vez mais finas, eram, depois de inúmeras rotaçóns, fios quási invissíbeis, obras de aranhas. Noutra secçón, mecanismos teciam. E alguns, adiante, manexavam canos, xuntavam peças, enxendravam calcanhares, rápidos, com sabedoria. Quadros nunha parede, cartazes, malícias, caricaturas: indivíduos capazes no serviço e indivíduos ronceiros– avións e tartarugas. À saída, encontrámos duas manicuras afobadas no exercício da profissón, cortando, limando, envernizando. —Que é isso? perguntei. O senhor habitua a sua xente a esses melindres? Tadeu Gogoladze explicou-se: –Non é por luxo. É para que as unhas non estraguem as meias. Lá fora chuviscava. Na friaxem, nos arrepios, diriximo-nos ao xardim de infância. Conduziram-nos ao vestiário. E, arrumados naquelas batas alvas, obrigatórias, fomos ver os setenta pirralhos que ali se educam. Uns vinte, na primeira sala, entregavam-se a um bailado. O amor à dança, que em tôda a parte se revela, enche os teatros, arrouba multidóns, xá despertava naqueles corpos exíguos, de movimentos lerdos, incertos. Non lhes impunham regras, é claro: moviam-se em coreografia orixinal. Dentro de alguns anos apareceriam outras Ulanowas –e “Romeu e Xulieta”, “A Papoula Vermelha”, “A Bela Adormecida no Bosque”, atrairiam aplausos universais. Unha garotinha puxou a manga da professora, cochichou. –Traduza, Mme. Nikolskaya, faça o obséquio. A óptima senhora atendeu-me: –Ela quer dançar com a boneca. Espantei-me. Quer? Entón neste país onde se arrasou o individualismo, as ninharias de cinco anos têm o direito de “querer”? Têm! A menina pegou a boneca e deu-nos unha pantomima cheia de lágrimas e risos. Levantámo-nos. Ao deixar os artistas mirins, veio-me a idéia infeliz de beixar um dêles: oito ou dez me cercaram, esixíndo beixos, cuspiram-me o rosto com muitos carinhos. Um se avizinhou, misterioso, esticou-se; baixei-me para ouvi-lo: –Na sua terra há também xardim de infância? –Há, meu filho. Mas é diferente. Saímos, fomos a outra classe. Garotos de seis anos, curvados em mesinhas, recortavam, modelavam, atentos, e non nos ligaram a mínima importância. Quando nos retirábamos, alguns tiverom a condescendência de notar-nos: ergueram-se, abriram estantes baixas, tirarom delas bichos de barro e ofereceram essa arte miúda às senhoras. Na creche existem cem hóspedes. No compartimento inicial arrumavam-se bebés de um mês a um ano, seres invertebrados, vermelhos, flácidos. Três se sentavam em cadeiras que os prendiam, encerravam em molas complexas os débeis membros cartilaxinosos. Um estranho sorriso nos chamava, luz permanente e fria. Tornava-se afinal incômodo, non conseguíamos livrar-nos dêle. Virei-me da porta, envolví-me ainda unha vez no sorriso imóvel da criança, imóvel como se o tivessem fixado em matéria inorgânica. Na peça contígua repousavam criaturinhas mais fornidas. Andámos entre as camas, nos corredores estreitos, abafando os passos, e os dorminhocos estremunhavam-se, bocexavam, mostrando belas carrancas. Várias inspectoras nos seguiam, deslizando como sombras. Unha, à despedida, quis mostrar-me os seus pupilos, unha dúzia mais ou menos, e apontou um dêles, o mais perfeito da casa, afirmou vaidosa. Saímos, atravessámos o pátio. Os chuviscos engrossavam. Tadeu Gogoladze vestíu unha capa de borracha. Entrámos na sala de teatro, concertos e proxecçóns. Há nela seiscentas cadeiras. Passámos à biblioteca. Literatura francesa e inglesa, traduzida em russo. Peguei um D. Quixote, olhei a ficha incompreenssíbel. ¿Quantas pessoas leram êste libro em 1952? Doze. Número razoábel. Em quatro meses e dias, doze operários de unha fábrica xeorxiana tinham visto e ouvido o cavaleiro de Cervantes. Pessoal de mau gôsto: non se preocupa com os romances policiais, tán difundidos neste hemisfério. Só nos restava apresentar os nossos agradecimentos e partir. Onde andavam as senhoras? Tinham-se retardado na sala de concertos. Apareceram. Tadeu Gogoladze entregou a cada unha delas um par de meias, lembrança das operárias do Combinado Têxtil de Tbilissi.
GRACILIANO RAMOS