Arquivos diarios: 08/02/2023

¡¡CONFLICTO!!

Álvaro, nessa noite, viu-se só à mesa da cozinha. Era frequente. A nai non estava. Tinha, porém, o cuidado de lhe deixar o comer xá pronto. Como de costûme, o xantar estava frio, nos tachos de barro. As comoçóns violentas do dia estancaram-lhe a fame. O manto negro da noite descía sobre a cidade, envolvendo-o na cozinha triste. Insensivelmente, deixou-se ficar sentado no banco, braço fincado no tampo, costas em curvatura, olhar perdido na penumbra. Pouco a pouco, o sentido das realidades despertara-o da apatia xeral. A que horas chegaría a nai? Non o sabía. Nai e filho eram dous estranhos. Raramente se viam, frente a frente; só pela manhám, quando o rapaz saía para o escritório, ela lhe falava da cama, onde continuava até tarde. Ao xantar, quando chegava, encontrava a casa deserta. Em cima da mesa os dous tachos de barro com o comer. Quando de inverno, riscava um fósforo, acendia a vela, e mastigava aquilo que encontrava. De verán, comia à claridade fosca dos derradeiros raios solares. Xamais fizera unha observaçón acerca da vida que a nai levava. A complexidade e o angustioso do seu drama de homem era suficiente para lhe ocupar o pensamento. Com o sentido das realidades começaram as perguntas a aflorar-lhe ao cérebro: “Que farei amanhá?” Um dia inteiro à sua frente! E nos seguintes? E Aida? Ao lembrar-se da rapariga invadía-lhe o peito unha onda de desespero. “Nunca mais a verei!” E unha interrogaçón nascía-lhe no espírito: “Ela vai esquecer-se de mím?” Non tocou no xantar. A noite caíra completamente. Sufocado, desceu os dous curtos e estreitos lanços da escada. O ar fresco da noite fustigara-lhe o rosto. Estava na rua -rua de aspecto desolador, mergulhada na noite, aclarada aqui e ali por um ou outro candeeiro público. Casitas velhas constituíam a pobre artéria; dentro, famílias numerosas viviam, aos três ou quatro num só quarto. “Desempregado!” Que antagonismo entre estes dous aspectos da vida de um indivíduo: empregado – desempregado. O empregado recebe ao fim do mês o ordenado, magro embora. Em contra-partida vê no prato da balança os dias preenchidos por essa obrigaçón. Levanta-se da cama, come apressadamente, mete ao caminho mais curto, pois vai xá na hora do patrón. Polo dia fora, se sai, leva os passos contados, do escritório ou da loxa ao destino e volta. E o desempregado? Este, máns nos bolsos, non tem assalariadas as pernas. Caminham ao acaso, em todos os sentidos, consoante o capricho do momento; non procuram as travessas que encurtam distâncias; metem-se, polo contrário, às ruas longas que se afastam sempre do ponto de partida, no prazer de alargar a roda da caminhada, de tomar conta, o pobre diabo, de toda a cidade. Tem um dia inteiro ao seu dispor para essa conquista -um dia, um mês, um ano, quase toda a vida. O desempregado goza a liberdade, aspira a pulmóns cheios o ar das manhás, disfruta as sombras das tardinhas. Passa fame e non ganha salário. Álvaro caminhava sem rumo. Por ele passavam outros seres, indiferentes; tal como ele para com os outros. Em que rua estava? Porque ruas passara? Non sabía. Estas interrogaçóns tán pouco afloravam ao mar revolto do seu pensamento. As duas interrogaçóns que brilhavam à frente de seus passos, como letreiros luminosos em noite escura, eram as seguintes: “E Áida? E o outro?” O outro!

ALEXANDRE CABRAL