Arquivos diarios: 23/08/2022

O PROBLEMA DA CASA DO “FRANCÊS”

Por esse país fora iremos encontrar este modelo mil vezes repetido. Aqui, no Alto Minho álacre e florido, resulta unha fantasia mais, unha lantexoula insólita num avental vianês. Mas elas, as casas dos emigrantes inçam xá o país inteiro. Esmaltam de garridice a austeridade honrada do Soajo, a penedia taciturna dos planaltos transmontamos, as gândaras verdes do país litoral. Nada escapou e a epidemia aumenta, ao mesmo tempo que sobe o clamor dos protestos, as recriminaçóns dos paisaxistas e aumentam as posturas das edilidades para tentar cohibir o que se considera unha perversón do bom estilo castiço de antano. que sumariamente se identifica com as pardieiras de granito, os telhados de quatro águas, a telha de meia-cana. É o problema da casa do “francês”, questón que anda tanto na moda que sinto a necessidade de, para meu próprio governo, passar algunhas ideias a limpo. Primeira ideia: cada um tem o direito essencial de fazer a sua casa conforme ao seu gosto, desde que com isso non ponha em risco a segurança de todos. Segunda ideia: gostos non se discutem. Terceira ideia: cada terra tem as casas que merece. E fico por aqui. Seria unha perda de tempo dizer que estamos a poluir a paisaxem, a falsificar a unidade estéctica dos quadros naturais, etc…, etc… porque tudo isso é evidente e as evidências non precisam de ser aclaradas, pois se notam imediatamente. Também non irei chorar sobre o leite derramado, a lamentar a facilidade com que o Português ganha o sabor da vasilha, a discretear sobre o que explica esta docilidade nacional perante a moda alheia, esta capacidade de trazer de França o telhado preto, de Marrocos a açoteia branca, da primeira revista que lê a arquitectura do tixolo, ou a do cimento, ou a da madeira dos bosques que xá non existem senon nas revistas. O que se passa é que nesta matéria de opçóns estécticas reflectem-se questóns mais profundas de interiorizaçón de valores culturais, e as posturas dos municípios non têm aí efeito algum. Na cultura xoga-se unha espécie de xogo da verdade, no qual a cultura mais forte fica sempre por cima. Estes emigrantes saíram das suas aldeias sem saberem nada, e quando voltam só sabem o que aprenderom por lá. Por isso – porque é unha valorizaçón, um enriquecimento, um ganho – fazem gala em o exibir. A casa de telhado de castanholas e xelosias envernizadas têm a mesma funçón afirmativa que o carro aspaventoso, ainda com a matrícula de orixem, ou o estropiamento voluntário da fala: o importante é que se vexa que vem de fora, que se esteve lá fora, com tudo o que isso representa de implícita promoción. E questóns destas non se resolvem com conversas sobre o património, nem com providências restrictivas: só o aumento da cultura e a interiorizaçón do arraigamento a pode axudar a solucionar.

JOSÉ HERMANO SARAIVA E JORGE BARROS (O TEMPO E A ALMA)

WITTGENSTEIN (NON SER ORIXINAL)

Wittgenstein incluiu Kraus nunha enigmática enumeraçón de dez nomes, onde figuravam dous outros membros da nossa lista de críticos modernos: Weininger e Loos. O que tem de especial essa relaçón? Isto: após afirmar nunca ter tido unha ideia orixinal, Wittgenstein, considerado um xénio, disse ter desenvolvido o seu trabalho de clarificaçón – e toda a sua filosofia non se propôm outra cousa que non sexa clarificar – a partir da influênça dos físicos Ludwig Boltzmann e Heinrich Hertz, do filósofo Arthur Schopenhauer, dos xá mencionados Frege, Russell, Kraus, Loos e Weininger, do historiador e filósofo Oswald Spengler e do economista Piero Sraffa. A que se debia a sua falta de orixinalidade? Segundo Wittgenstein, estaba directamente relacionada com a sua condiçón de xudeu. O que queria dizer? Baseaba-se na ideia de que o xudeo partia sempre do trabalho alheio. “Non produzirá” – dizia Wittgenstein – “nem a mais pequena flor, mas um desenho da flor.” No entanto, era capaz de entender o essencial das ideias alheias melhor do que o seu próprio autor e de desenvolver os aspectos ainda por explorar. Wittgenstein usou esta comparaçón para esclarecer que a grandeza da sua filosofia consistia em ter apreciado, nas ideias de outros, aspectos que eles mesmos tinham ignorado. Entender a natureza destas influênças resulta fundamental para abordar o pensamento de Wittgenstein e a isso se dedicam os dous capítulos seguintes. Voltemos a Kraus. Nos seus esforços para delimitar o âmbito do literário, vislumbra-se unha semente da preocupaçón polo conceito de limite que marcou toda a filosofia de Wittgenstein. Tentando, precisamente, estabelecer limites no uso da linguaxem, Wittgenstein fez seu o hábito krausiano de tomar a palabra do seu rival tal qual e “mostrar” o seu carácter moral através de aforismos e non de argumentaçóns. Tal como Kraus, Wittgenstein mostrou a inconsistência da gramática superficial da linguaxem (essa que non atende ao uso que se faz da palabra em questón e que se fica pela mera aparência, que trata indistintamente as palabras “tempo” e “mosca”, por exemplo, apesar das enormes diferênças entre afirmar “o tempo voa”, e “a mosca voa”! ), pondo-a em evidência, algo de que encontramos numerosos exemplos nas “Investigaçóns”. Do mesmo modo, nenhum deles concebia descontinuidade algunha entre o gramatical e o ético. Por isso, ambos coincidiam em que o estilo é o próprio home.

CARLA CARMONA