CONTOS DE UMA PRIMEIRA JUVENTUDE ENLUTADA
A MINHA HISTÓRIA CNA

O MEDO
Era primavera. Passeava com dois colegas pela zona do campo da Uniao de Tomar. Falávamos do que faríamos durante as férias. Estávamos felizes. Fumávamos os nossos cigarrinhos da praxe. Alargávamos os passos como quem pensa que desta forma alargaríamos o tempo em Liberdade. No entanto, ao fundo, como que saía de uma porta lateral do campo, vislumbramos o prefeito Pinto. Encaminhava-se na nossa direcçao. Os cigarros ardiam; o medo crescia. As nossas caras paralisaram a expressao de bem-estar. Algum de nós atirou o cigarro pelo ar e bateu impetuosamente na perna duma criança que brincava alegremente acompanhada da avó. Os restantes, entre eles, eu, ficámos com os cigarros atenazados. O nosso interior clamava aos céus para que a criança deixa-se de chorar. Mas, nao; cada vez chorava mais e a avó começou a chamar-nos pelos nomes próprios dos habitantes do inferno. O temível prefeito Pinto estava cada vez mais próximo. O cheiro a castigo era mais forte que o cheiro a tabaco. Olhamos uns para os outros. Inqueríamo-nos com os olhos e as ondas emocionais. Como se um raio cintilante cheio de ideias e soluçóns nos abraçasse, saímos a correr a sete pés em direcçón à ponte. Ouvimos unha voz tremebunda que nos chamava e dizia: venham cá !!!! Sei quem vocês saooo !! !! !! !! !! O eco daquelas palabras paralisou-nos os ouvidos e cada vez corremos mais. Paramos no largo da Estaçao. Matamos o tempo a inventar desculpas. Um de nós, com os olhos esbagaçados, exclamou: DIZEMOS QUE ESTÁVAMOS APOSTAR O LANCHE !!!!!!!! Eu -meio derrotado- respondi: boa! Como máximo o castigo é uma semana de estudos da meia-noite… Regressamos ao Colégio. O prefeito Pinto non apareceu. Deitámo-nos inquiétos, mas, meio salvos. Chegou a segunda-feira. Pelas dez da manha, creio recordar, tínhamos um recreio de meia hora. O Pinto apareceu cheio de vigor justiceiro. Apanhou-nos no pátio interior onde fizemos um campeonato de luta. Apurou o passo de tal forma que tememos unha trovoada de estalos. Levantou a mao para o colega que tinha à minha direita, mas ouviu-se unha voz forte, pesada, seca, medida a chamar pelo terror das fugas. O meu colega, encolhido, esperava o impacto. O Pinto olhou e travou o braço. Respondeu: sim, Senhor Doutor… Era o Dr. Raul Lopes que o reclamava. O Pinto deu meia volta e partiu. Nao queríamos acreditar em milagres. Pensamos que voltaria com toda a cavalaria. O tempo passou; o Pinto nao voltou.
JOSÉ LUÍS MONTERO