
O leitor que se aproximasse de “Ser e Tempo” teria de esquecer a aura enganosa da palabra “ser”, elevada na tradiçón como conceito fundamental. O significado filosófico teria de voltar ao seu sentido mais elementar: “ser” é apenas o nome para se referir a cada cousa e non a um conceito. Na verdade, mesmo antes de se definir por um significado, por “cousa” debería entender-se simplesmente “o que é”, e que é o primeiro, o que propriamente delimita unha “cousa” face a qualquer outra: nem sequer a um escudo face a unha espada, mas ao escudo cantado por Homero, quando se encontra no braço de Aquiles ou abandonado nunha esquina da sua tenda, ou até mesmo ao escudo de mísseis apontados a um obxectivo determinado. Na verdade, essa manifestaçón sempre distinta é o fenómeno em cada caso ou, o que é o mesmo, a “cousa”. Por isso, faz sentido falar de um ser universal (substância) e de um nome comum (substantivo), ao qual podemos chamar “ente”, que corresponderia a unha multiplicidade de cousas diversas (“escudo”, “espada”) e que também pretende significar “o que é”? Se fizer, virá sempre depois – recordemos aqui o sentido do irrelevante “antes” – e articular-se-á como algo derivado, a partir daquela “cousa” singular. Sobre o “ente” há, deste modo, unha ambiguidade orixinal: por um lado, constitui esse comum; por outro, na expressón ressoa, sem cessar, o eco daquilo que simplesmente é na sua irrelevância, a “cousa”, que tem lugar no momento exacto em que non reparamos nela, porque quando o fazemos, tal como vimos, se apresenta de outra forma. Imaxinemos os zapatos que trazemos calçados e que, certamente, nos passaram desapercebidos até este momento. Poder-se-ia dizer que o seu ser nada tem a ver com o significado “zapato” e que para nós carece de significado, na medida em que, simplesmente, os trazemos calçados. No entanto, esta situaçón mudará no momento em que, por diferentes motivos, por exemplo, porque se estragam em plena rua, me apertem o pé ou non sexam os adequados para a chuva que acabou de começar a cair, se me apresentam através de outro prisma. Dessa maneira, os zapatos convertem-se noutra “cousa”: nessa nova situaçón, por exemplo, se están estragados, penso neles noutra perspectiva, unha perspectiva que os torna precisamente inúteis para continuarem a ser usados. Os meus zapatos passam a ser assunto do zapateiro, que é quem sabe de zapatos e de como consertá-los. Assím, quem simplesmente calça zapatos, non sabe de zapatos, e quem sabe – o zapateiro ou desenhador de zapatos – non anda, polo menos enquanto exercita o seu saber. Qualquer outro exemplo (a camisa que tenho vestida; o copo que aproximo dos meus lábios para beber, mas no qual só penso como copo quando se parte; o eléctrico em que entro sem parar para pensar no seu funcionamento nem na rede de transportes municipais, excepto quando é interrompida) serviria para ilustrar esta divisón: as cousas “som” precisamente quando non as questionamos, e passam a ser outra cousa, quando, por algúm motivo, interrompemos a nossa relaçón e nos vemos obrigados a reparar nelas. Essa divisón reitera a ambígua questón do ser, xá antes referida. Agora poderíamos completá-la assim: a ontoloxia torna as cousas o seu tema central, mas ao fazê-lo interrompe o seu curso, o seu ser. A ontoloxia começa como interrupçón do ser, como a operaçón que situa as cousas noutro estracto, exactamente naquele em que o seu limite (o seu uso) non é suficiente para diferenciá-las e aparece unha determinaçón acrescida: o seu significado. Agora, o limite deixa de ser o seu para se transformar no que a própria tematizaçón impón. A partir dessa tematizaçón, as cousas podem ser reconhecidas como “entes” e, de passaxem, como conceitos e ideias.
ARTURO LEYTE