Arquivos diarios: 08/07/2017

INFÂNCIA E FORMAÇAO (V)

.

               Thomas Hobbes nasceu na pequena localidade de Westport, pertencente ao município de Malmesbury, no Sudoeste de Inglaterra, na época isabelina. No poema autobiográfico que mencionámos, explica que “um bichinho” nasceu a 5 de abril de 1588, Sexta Feira Santa, ano em que a temível Armada Invencível estava atracada nos portos espanhóis”.  A senhora sua mae, do susto de saber que aquele ataque ás ilhas estava iminente, deu á luz prematuramente dois “gémeos”: o pequeno Thomas e o medo.  A sua família era humilde e religiosa, embora com alguns matizes.  Do seu progenitor, pastor anglicano, recebeu a água baptismal e o nome.  Pouco mais recebeu Thomas, que era o segundo filho varao,  além da irma mais nova, que lhe arrebatou os privilégios de filho mais novo.  Por outro lado, este pai de família empenhou-se menos no cuidado do seu rebanho que no cultivo dos seus diversos vícios.  Foi truculento, conflictuoso e jogador, nada pouco para o responsável espiritual de duas paróquias.  Segundo o seu biógrafo e bom amigo do filho, John Aubrey,  Thomas Hobbes pai nao foi uma pessoa de inteligência notável, muito pelo contrário.  Thomas Hobbes filho, por outro lado, aprendeu a ler e a escrever ainda muito jovem na escola paroquial.  Segundo Aubrey, “em criança era bastante brincalhao, mas já naquela altura tinha uma melancolia contemplativa e costumava retirar-se para um canto para aprender a sua liçao de cor”, também estudou grego e latim sem sair da sua terra – ao longo da sua vida, acabou por dominar quatro línguas com perfeita fluidez -, mostrando já o grande dominio da palavra escrita que o caracterizaria.  Por exemplo, ainda criança fez uma traduçao de Eurípides, do grego para versos jámbicos latinos.  Aos 14 anos foi enviado para a Universidade de Oxford, dominado na altura pela escolástica de influência aristotélica.  Mais concretamente, Hobbes estudou no Magdalen Hall, um dos centros autónomos da universidade, onde recebeu uma formaçao baseada nos clássicos greco-romanos.  Daí provém a ligaçao ao humanismo manifestada na juventude e que se manterá como base das suas ideias durante o resto da vida.  Quando Hobbes tinha apenas 16 anos, o seu pai abandonou de vez a família e as paróquias que tinha a seu cargo. Segundo explica Aubrey, o clérigo “bon vivant”, protagonizou uma infeliz disputa com outro pároco, que ia substituí-lo, um confronto que terminou numa luta azeda no adro da igreja.  Aquele confronto físico, impróprio de dois pastores, levou a que, por fim, o nosso Thomas fosse criado pelo tio paterno, um próspero fabricante de luvas, solteiro e sem descendência, que também era regedor do município.  A sua juventude foi, por isso, marcada pela ausência da figura paterna. Essa infeliz circunstância deve ter afectado Hobbes de forma profunda e, muito provavelmente, influenciou a sua futura relaçao com os responsáveis eclesiásticos.

 

ignacio iturralde blanco