O MITO DO ESTADO
O MITO DO ESTADO
O acorde fundamental veio da filosofia e soou como um começo, “cujas infinitas modulaçoes se fazem ouvir ao longo de toda a história do pensamento ocidental”. Ninguém como Hegel, ao descrever e interpretar a vastidao do drama histórico, fez mais pelo culto do Estado e dos “Grandes homens”. Na sua filosofia da história, o grande actor é o Estado; toda a história é o contínuo progresso dessa Ideia Universal cuja realizaçao constitui a principal aspiraçao das naçoes: “O universal encontra-se no Estado…” “O Estado é a Ideia Divina tal como existe na terra…” “O Estado é a marcha de Deus pelo mundo.” A vida histórica nao existe sem o Estado; ele constitui uma realidade superior e perfeita: é o Estado o primeiro a oferecer uma matéria que nao só é apropriada á prosa da história, mas também porque inclui a produçao da dita história no progresso do seu próprio ser”. Ele faz a história e é, ele próprio, a história. Ele é o “Espírito do Mundo”. Nesta linguagem obscura e recheada de misticismo, a inspiraçao teológica é evidente: “falou de religiao em termos de história e de história em termos de religiao”. De facto, há, na interpretaçao histórica de Hegel, uma teologia política, uma reinterpretaçao histórica de Hegel, uma teologia política, uma reinterpretaçao secular do esquema da encarnaçao. Na versao religiosa, Deus tornou-se homem para morrer e renascer, ligando, desta forma, o divino ao finito. O equivalente da encarnaçao no mundo político acontece quando o Estado (espírito), para se realizar, necessita de ser encarnado em “grandes homens”. O absoluto nao existe se nao conhecer e contiver em si o efémero e o passageiro. Para Hegel, o Estado, que transcende o indivíduo, também nao é nada sem ele – sem ele nao tem condiçoes de concretizaçao de cumprimento, de efectivaçao, de actualizaçao. Ele – o “Grande Homem” que encarna o Estado – é assim o obreiro do Estado e obreiro, portanto, da História. Ele é o corpo finito, mortal, humano que lhe dá expressao. Um ponto fixo e irradiante capaz de estender a sua influência e mexer com o mundo. O próprio Hegel, fascinado com a figura do Imperador, dirá de Napoleao em Iena: “Experimentamos na verdade um sentimento de admiraçao em vista de tal indivíduo, que concentra aqui num ponto, montado no seu cavalo, um poder que se estende sobre o mundo e reina sobre ele”. Este “Grande Homem” histórico de Hegel nao é idealizado – nao sao os sábios, os virtuosos, os justos-, mas o homem como os outros, com as fraquezas e misérias humanas. A sua grandeza nao está em ver para além do seu tempo, mas em ver o seu tempo, agora. O “Grande Homem” vive esse tempo apaixonadamente, apreende a sua essência e, com a sua acçao, desperta as paixoes dos outros. A sua grandeza nao exclui o egoísmo, o interesse, a paixao, porque “nada de grande se realizou sem paixao”. Os Grandes Homens continuam homens e as suas paixoes nao retiram nada de racional ao seu comportamento. Pelo contrário só o ajudam: “poder-se-á dizer que a astúcia da razao reside no facto de pôr as paixoes ao seu serviço”. Para Hegel, a grandeza significa victória e o mérito nao está na boa causa, mas no sucesso. Nada desqualifica a acçao histórica bem-sucedida – nem a cegueira da glória, nem a volúpia do poder, nem a procura de honrarias e muito menos os meios utilizados. Na linha de Maquiavel, virtude significa força; direito é poder. O único critério que conta é o sucesso. Para os indivíduos, mas também para os Estados: Os destinos e as obras dos Estados em suas relaçoes mútuas sao a dialéctica visível da natureza finita dos seus espíritos. Desta dialéctica produz-se o Espírito Universal, o Espírito do Mundo, o Espírito Ilimitado. Este tem mais direito que ninguém e exerce o seu direito sobre os Espíritos Inferiores na história do mundo. A história universal é o juizo final. “Mais direito que ninguém” – nunca ninguém o tinha dito desta forma tao brutal e directa. Nao interessa ao nosso tema fazer a apresentaçao ou a crítica á filosofia de Hegel. O nosso objectivo é apenas sublinhar este ponto-chave da sua filosofia política – a glorificaçao do Estado e do “Grande Homem Político”.
JOSÉ SÓCRATES

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