O que me leva a revisitar o tema do carisma e a obra de Weber é o regresso do clássico confronto – que me parece evidente na política contemporânea – entre a razao burocrática e a razao política. Na sua trilogia da legitimidade política, o sociólogo identifica três fontes: a tradiçao, a legal/racional e a carismática. A tradiçao foi e é a fonte de legitimidade mais persistente do poder político. Weber nao o esquece. No entanto, parece evidente que a construçao do conceito de legitimidade carismática nao é usada fundamentalmente como contraponto, senao como oposiçao, á racionalidade legal e burocrática que caracteriza o poder típico dos Estados modernos: “… nas administraçoes de massas, é sempre um corpo estável de funcionários dotados de formaçao especializada que forma o núcleo do aparelho e cuja “disciplina” é uma condiçao absoluta de sucesso”. No fundo, é como se estivesse a ver de longe o que o tempo atual nos trouxe: o regresso do velho e clássico combate entre duas forças. De um lado, o poder impessoal dos aparelhos administrativos do Estado; do outro, a vida pública democrática, com o que ela tem de intransigentemente pessoal, quer na seleçao dos dirigentes, quer na sua responsabilizaçao. No espírito do tempo, esta é, sem dúvida, uma questao política central. O que se tem passado nestes anos de crise com o projeto europeu coloca-nos perante o tópico decisivo da legitimidade política exatamente nesta dicotomia: poder burocrático ou poder popular; saber técnico ou decisao política; ou ainda, para usar o dizer de Weber, político de profissao ou político de vocaçao. No fundo, trata-se do regresso a um dos temas clássicos da filosofia política: democracia versus tecnocracia. Quem deve governar? Quem mais sabe ou quem o povo escolhe? O primeiro sinal veio da Grécia e da heterodoxa proposta de Papandreou de convocar um referendo sobre o programa de ajuda ao seu país. Pagaria tal heresia com a demissao. Logo depois, quando o controverso primeiro-ministro Berlusconi, acusado de fragilizar a imagem do seu país junto dos mercados, foi substituído pelo senhor Mario Monti, antigo abridor de portas do banco Goldman Sachs, tudo ficou claro. Afinal, os mercados limitavam-se a dizer aos políticos qual a margem de manobra disponível para o poder público, e aos povos qual o grau aceitável para a escolha democrática. Tudo o que nao caiba neste espaço de “responsabilidade” é classificado como irrealista, ou melhor, como populista, termo preferido pela oligarquia tecnocrática para exprimir a sua desconfiança sobre seja o que for que possa agradar ao povo e deixar claro o seu desprezo por aqueles que nao param de chamar a atençao para a difícil situaçao em que fica o critério da legitimidade democrática com tal subordinaçao do político ao finançeiro. É neste quadro que bem se compreende a desconfiança desses tais mercados sobre o carisma político individual, sempre suspeito de subversivo e iconoclasta e sempre tentado a levar demasiado a sério a vontade e o poder popular. A preferência vai para os homens de aparelho com “competência técnica” e responsabilidade. A estes, Bourdieu traçou, sem condescendência, um perfil cruel: “… têm sucesso nao porque sejam os mais vulgares mas porque nao têm nada de extraordinário, nada para lá do aparelho, nada que os autorize a tomar liberdades para lá do aparelho, a fazer espertezas”. Homens seguros, sim. Sem o perigo da creatividade, da indeterminaçao e da insubmissao que o carisma sempre mantém por perto. Na frente económica, ou mais propriamente financeira, as decisoes parecem ser tomadas por um governo de ninguém – ninguém a quem pedir contas, ninguém a quem responsabilizar. Só quatro anos depois do início da chamada política de austeridade o Banco Central Europeu adota, finalmente, a política monetária expansionista que os Estados Unidos aplicaram desde o início da crise. O rasto de desolaçao económica e de desemprego fica como marca da intransigência alema. A clivagem e o ressentimento norte-sul, centro-periferia nunca foram tao visíveis. Qualquer referência á coesao e á convergência económica é vista como anacrónica e irrealista, apesar de figurar nos Tratados. Para já nao falar no modelo social europeu, outrora motivo de orgulho e que, agora, parece ser encarado como a fonte de todos os males. A impressao que fica é a de um projeto que, em vez de avançar passo a passo como gostávamos de dizer com orgulho, recua agora passo a passo. No entanto, impoe-se perguntar: quem tomou estas decisoes? Quem votou por elas? E talvez mais importante: quem responsabilizar? Na verdade, há muito que as principais questoes políticas foram sendo retiradas aos representantes do povo, aos eleitos, para serem entregues aos aparelhos técnicos de regulaçao – as chamadas “entidades administrativas independentes”. O critério para tal proceder é provocatoriamente claro: deve subtrair-se ao domínio político, e até ao espaço público de debate, tudo o que é verdadeiramente importante. É assim que a política monetária, o regime de concorrência, a regulaçao do mercado de capitais, a política energética, as telecomunicaçoes, e agora até a escolha de dirigentes da administraçao pública têm sido subtraídos á arena política da escolha democrática, para migrarem para o terreno da técnica e serem entregues aos aparelhos administrativos pretensamente independentes. É de certa forma o ideal tecnocrático de uma governaçao sem política que regressa. Para este caminho, muitos têm contribuído, á esquerda e á direita, dada a perversa popularidade de tal ideia: a ilusao de que, para qualquer questao política, há uma só resposta certa que só pode vir dos especialistas e cuja descoberta dependerá do esforço que pusermos em descobri-la. A utopia da verdade tecnocrática foi criticada por muitos, mas talvez ninguém como Berlin tenha denunciado com mais ardor o enraizado vício do raciocínio ocidental, exigindo que para todas “…as verdadeiras questoes haja uma resposta verdadeira e uma só, sendo todas as outras erradas, pois de outro modo nao seriam genuínas questoes”. A profunda demagogia de esconder opçoes políticas atrás da razao técnica burocrática e do saber dos especialistas é tao antiga como enganadora e nao esconde a dificuldade em conviver com a ideia da pluralidade de respostas e de soluçoes. A crítica dos dias de hoje ao chamado “pensamento único” pertence a esse debate tao antigo. Acontece que a maior parte, se nao todas as decisoes que estao em causa, nada têm de técnico, mas envolvem, isso sim, escolhas e juízos sociais da maior importância que ganham em serem objeto de discussao racional no espaço público e em serem decididos com base em escolhas políticas claras. A ideia da ausência de alternativa ou de um saber técnico dominante nada tem de novo e nada tem de inocente: “…enquanto espírito cristalizado, a máquina nao é neutra; a razao técnica é a razao social que em cada época domina”. A fingida neutralidade nao esconde a desconfiança democrática: entregues ao saber técnico, afastam-se asstm das áreas importantes da governaçao as possibilidades de políticas “demagógicas”, próprias de quem representa a povo. Mas, mais uma vez, perante quem respondem esses técnicos e especialistas? A quem prestam contas? Independência, dizem: nem crítica, nem censura, nem reprovaçao. Poder sem rosto e sem controlo. É difícil negar que o que está a acontecer é sinal claro de uma tendência para sobrepor os aparelhos “técnicos” das finanças mundiais á democracia, ou seja, á possibilidade de o povo escolher os seus dirigentes e exprimir a preferência pelo caminho que deseja prosseguir. A questao, uma vez mais, é essencialmente democrática: qual é, afinal, o papel do povo? Como aceitar o papel de mero espetador da açao da nova oligarquia que comunica por press release, por avaliaçoes periódicas, e que, no fundo, entende que nao deve explicaçoes. No final do seu livro sobre a ética protestante, e escorregando do seu próprio princípio de neutralidade axiológica, Weber nao resiste a exprimir os seus sentimentos, descrevendo de forma sombria o que pressente ser o futuro do mundo condicionado pelo capitalismo sem regras e pela impessoalidade burocrática. Diz ele: “O possante cosmos da ordem económica moderna, ligado ás condiçoes técnicas e económicas da produçao mecânica, determina hoje com uma força irresistível obrigatória o estilo de vida de todos os indivíduos que nascem no seio desta maquinaria (…). Porventura essa prescriçao continuará até que o último quintal de carburante fóssil seja queimado.” Mais á frente, num tom fatalista e desencantado de quem já nada espera, fala de destino inexorável, de novos profetas ou de petrificaçao mecânica. Porventura ainda nao tinha visto nada. Um século depois, o sentimento dominante nas sociedades europeias é de uma total submissao a forças impessoais que nao conhecemos e com as quais nao se pode nem dialogar nem responsabilizar. O mercado, a dívida, a finança, a crise e o desemprego impoem-se como um destino inevitável e impiedoso. A célebre fórmula da “jaula de aço”, como símbolo da soberania popular esmagada pela fria e implacável burocracia financeira, prosseguindo, com pretensa superioridade técnica, o seu cálculo e o seu interesse, nunca pareceu, como hoje, tao apropriada e atual. Se vem de longe, a luta entre a tecnocracia e a democracia está também longe de estar acabada.
JOSÉ SÓCRATES
