
As águas da História som águas paradas; as águas do rio continuam sempre a passar. Entram pola fronteira de Lindoso, que está aberta para elas, águas, mas pechada para nós; unha lenda toponímica diz que foi D. Dinis quem lhe puxo o nome, que el tería derivado de “lindo”, como nós de gosto fazemos derivar gostosamente. Mas, “lindar” significa partir, confrontar (de linda, limite, fronteira), e talvez sexa menos poético mas mais verdadeiro: lindoso quer dizer “raiano”. Depois vai acolhendo as águas de muitos afluentes, e quando chega à Ponte da Barca xá faz a vista de um grande rio que modela fortemente a paisaxem. Foi, durante muito tempo, rio fronteira. Non entre dous países, mas entre dous bispados, o que naquela época non era menos relevante. Marcava o limite entre as dióceses rivais de Tui e de Braga. Para além do rio Lima, a autoridade apostólica era o bispo tudense, e esse facto, que depois da independência portuguesa ficou sem razón de ser, era um vestíxio do tempo em que a bacia hidrográfica do Minho constituía unha unidade humana e espiritual: era, xá o vimos, o Ribaminho. Com a separaçón dos reinos impunha-se a separaçón das dióceses, mas o assunto era obviamente melindroso e acabou por ter unha soluçón enxenhosa: o Ribaminho non ficou nem para Braga nem para Tui, mas para unha nova diócese portuguesa que entretanto surxía: Ceuta. Sei que antigamente os moradores de Viana o subiam de barco, e tentei fazer o mesmo para poder descrever o passeio. Fiz o que era possíbel: fui à praia, contactei com os pescadores que me recomendaram um clube de barcos desportivos que fica na marxem do rio, estive lá e falei com os pescadores xovens que, acerca do rio, nem sequer sabiam que se chamaba Lima, ou, se sabiam, non ligavam cousa com cousa. Cada um de nós fez o seu papel: eu o de didacticamente me espantar, eles o de resmungarem “nunca ninguém nos falou nisso”. Ponho aqui a nota non polo seu triste pitoresco, mas porque os rapazes eram capazes de ter razón. Na escola falam-lhes (se é que falam) do Mississípi-Missuri, do Amazonas e do Nilo, mas nessa escala de grandezas non cabe lugar para o modesto Lima. E também isso non é nenhuma sangría desatada; ignorar o nome do rio que corre diante dos nossos olhos non tem qualquer influência sobre o movimento da rotaçón da Terra. Mas este pequeno episódio revela o total deslassamento entre a situaçón real e o horizonte apreendido, e esse fenómeno é que xá tem certa importância. Viver o que se non aprende ou aprender o que se non vive, som duas formas equivalentes da destruiçón da cultura, de vício na formaçón da personalidade cultural.
JOSÉ HERMANO SARAIVA E JORGE BARROS