
A clandestinidade do “Dicionário” abre um espaço lúdico ao actor que Voltaire traz dentro de si. A sua ironia non ignora o facto de a sua estructura alfabética o tornar particularmente perigoso e pergunta-se o que fazer com ele, xá que sem dúvida “as chamas às quais se condena um libro iluminaram a curiosidade pública”. De facto, o “Dicionário Filosófico” de Voltaire será dilacerado e queimado nas escadas do parisiense “Hôtel de Ville” (Concelho), por ser “temerário, impio e escandaloso”. Como tinha previsto o seu autor, as medidas coercitivas tomadas contra o “Dicionário” atraem a curiosidade do público e as ediçóns piratas multiplicam-se. Nada melhor do que a análise de um detractor para verificar o alcance dos seus conteúdos: “Mistérios, dogmas, moral, disciplina, culto, verdade da relixión, autoridade divina e humana, tudo é ridicularizado pola pluma sacrílega deste autor, desrespeitador do cetro e da coroa”. Víctima da precipitaçón ou de unha confiança excessiva na sua memória, multiplicam-se as imprecisóns, mas Voltaire é movido pola sua curiosidade por descobrir o que se pode aprender com a História e ignora a paixón própria dos antiquários. O passado só lhe interessa como reflexón sobre o futuro, segundo veremos mais à frente. Como outras obras suas, o “Dicionário Filosófico” opta pola arte bizantina do mosaico. Depois de ter identificado as diferentes peças, é preciso apreciar o desígnio do conxunto, os xogos de cores e a forma. Cada páxina do “Dicionário Filosófico” convida a um périplo cultural rico em surpresas, inspirado por um espírito crítico, exploratório e lúdico. As suas pesquisas inéditas na cultura chinesa, por exemplo, están destinadas a confrontar os usos, teorias ou loucuras occidentais, com o obxectivo de que esse choque cultural opte por valores universais e identifique aqueles que non o som. Voltaire non acredita nas criaçóns “ex nihilo”, nem sequer na inspiraçón divina. Descreve-se a si próprio como um artesán das palabras.
ROBERTO R. ARAMAYO