O DEUS MORTAL DOS ORGULHOSOS (XIX)

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               A forma como criamos o Estado é, portanto cedência individual do nosso poder a um soberano e, a partir desse momento, o cidadán deve considerar-se sua propriedade até ao momento em que “se reconheça a si mesmo como autor de qualquer coisa que faça ou prometa” (idid.).  A partir do momento em que assinamos o pacto e o “Leviatan” começa a funcionar, caminhamos com ele e fazemos tudo o que ele faz.  Justamente, na sua definizón, Hobbes realça esta questao da autoria partilhada de súbditos e soberano.  Assim, o Estado consiste “numa pessoa de cujos actos uma grande multidón, por pactos mútuos, realizados entre sí, foi instituída por cada um como autor, com o objecto de poder usar a força e meios de todos, como xulgar oportuno, para assegurar a paz e a defesa comum” (ibid.).  Também realça a artificialidade deste producto humano e chega a equipará-lo, non sem um pouco de irreverência, á criazón divina:  “Os convénios mediante os quais as partes deste corpo político se criam, combinam e unem entre sí, assemelham-se áquele “fiat, ou façamos o homem, pronunciado por Deus na criazón” (Leviatan, introduzón).  No mesmo sítio, apenas unhas linhas antes, Hobbes leva a metáfora biologística ás últimas consequências, descrevendo em grande pormenor, e com unha prosa de tan grande lirismo que merece ser reproduzida aquí em toda a sua extensón, muitos dos orgaos que configuram o “Leviatan”.  Assm, o corpo político “é apenas um homem artificial, embora de maior estatura e robustez que o natural para cuja protezón e defesa foi instituído; no qual a soberania é uma alma artificial que da vida e movimento ao corpo inteiro;  os majistrados e outros funcionários da xudicatura e do poder executivo, nexos artificiais;  a recompensa e o castigo (por meio dos quais cada nexo e cada membro vinculado á sede da soberania é induzido a cumprir o seu dever) son os nervos que fazem o mesmo no corpo natural; a riqueza e a abundância de todos os membros particulares constituem a sua potência; a “salus populi” (a salvaçao do povo) son os negócios;  os conselheiros, que informan sobre as coisas que é necessário conhecer, son a memória:  a equidade e as leis, uma razón e uma vontade artificiais;  a concórdia é a saúde; a sedizón, a doença;  a guerra civil, a morte” (ibid.).  Mas Hobbes non fica por aí.  Bastante á frente, na mesma obra, afirma que este autómato protector possue também a faculdade nutritiva, a motriz e a racional, que correspondem, respectivamente, á capacidade de cobrar impostos, ao poder de coaczón e á actividade legislativa.  O mecanismo do “Leviatan” é posto assim em evidência.  Inclusive o seu próprio movimento depende da capacidade de obrigar as suas partes constitutivas -os cidadans- a orientar os seus movimentos através de leis e ordens.  Apesar de rejeitar o direito divino dos reis (o contracto social é a explicazón alternativa da fonte da soberania), Hobbes atribui a Deus, o de soberano incontestável.  Á semelhança da Biblia, onde o monstro marinho é chamado “rei dos orgulhosos” (Job 41:34), aquí chamámos ao “Leviatan” de criazón humana “o Deus dos orgulhosos”, xá que Hobbes patilhava esta mesma considerazón a respeito do orgulho dos homens.  Esta grande efíxie viva é um corpo artificial composto por cada um dos indivíduos, mas, ao mesmo tempo é um deus (mortal, evidentemente, porque pode ser destruído), um deus que disfruta o poder terrenal ao Deus imortal, aquele a que Hobbes ainda non está em posizón de renunciar completamente na sua teoria política sem ser considerado herexe.  É este o grande poder soberano, que depende completamente do medo que é capaz de causar, como fica patente nas linhas seguintes:  Embora os benefícios desta vida possam aumentar através da axuda mútua, o certo é que se alcançam melhor dominando os nossos próximos do que associando-nos a eles.  Espero, portanto que ninguém ponha em dúvida que se desaparecesse o medo, os homens seriam máis intensamente levados a obter domínio sobre os seus semelhantes do que a estabelecer unha associazón com eles.

ignacio iturralde blanco   

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