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Sartre tratou na sua obra literária a situaçao humana com uma conclusao que poderiamos considerar pessimista: Roquentin e Garcin, duas das personagens recordadas no capítulo anterior, sao dela exemplos inequívocos. Mas, paralelamente, Sartre cultivou uma reflexao filosófica que é a ilustraçao teórica do que os protagonistas vivem, e empenhou-se em desenvolver argumentos filosóficos que garantam a sua abordagem inequívoca. O esforço é orientado para dar uma razao de ser ao comportamento moral, que só pode ser ontológica, isto é, procura um fundamento na análise do real, das coisas do mundo. Por isso mesmo, no seu primeiro grande tratado filosófico Sartre vincula muito acertadamente ontologia e moral. Trata-se de uma tarefa iniciada com a Segunda Guerra Mundial, com as notas e os esquemas escritos no seu posto militar e também mais tarde, durante os meses de internamento. É esclarecedor iniciar este capítulo com a tentativa de resumo de “O Ser e o Nada” levada a cabo pela sua biógrafa Cohen-Solal. Escreve o seguinte: A obra procura, retomar, expor e alimentar várias ideias-chave: o orgulho da consciência face ao mundo e, consequentemente, a liberdade absoluta do indivíduo; a consciência, ao mesmo tempo imersao e ruptura; a liberdade, ao mesmo tempo febre e disciplina; a crítica permanente; a desconfiança em relaçao aos papéis sociais cristalizados e esclerosados. (…) Onde nao havia possibilidade de moral colectiva aborda-se agora o encontro com o outro, e onde havia liberdade absoluta deparamo-nos com uma liberdade que é relativizada pela presença do próximo. Além disso, a situaçao – o mundo em que cada um vive -, que era individualizada em excesso, é agora uma situaçao partilhada. Neste ponto, interessa-nos entrar no cerne da obra. As suas partes estao claramente diferenciadas: há em primeiro lugar, uma reflexao ontológica muito dilatada, ou seja, uma análise da natureza dos objectos do mundo, e de seguida, na quarta parte, uma mais breve mas fundamental introduçao ao que devia ser o projecto moral existencialista. A reflexao ontológica, o assunto a abordar em primeiro lugar, defende-se com base em conceitos e actitudes. Os conceitos fundamentais sao o “em-si” e o “para-outro”. Entre as actividades faremos exclusivamente referência ao olhar desencadeado pela vivência de um mundo habitado por existentes inimizados e nao solidários.
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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A Historia do mundo
enlázase coa historia da memoria
nas regandixas da visión e do soño.
Hai un tabuleiro de xadrez
e nós imos pousando neste ou naquel cadro,
negro ou branco. Ás veces
non chegamos a pousar en todos.
Olvidamos uns, recordamos
malamente outros, e en dous ou tres
establecemos a nosa fixación.
Pode haber unha manta de retallos,
borrosamente ou con intermitencias
lembramos uns, non tocamos
ou non vimos nunca outros,
e recordamos sempre tres ou catro.
Despois introducimos
o tabuleiro de xadrez
e a manta de retallos
en senllas bolas, horizontalmente,
no medio e medio,
xogamos un partido de fútbol, ou dous,
con esas bolas, e os dous equipos
que xogan o partido
son corroborados pola Federación,
a Federación é apoiada polo Estado,
e o Estado remítese a unha Instancia Superior
– Deus, Azar, Destino-
que parece ser rixe todo, o Todo.
?Estará así formado o Mundo, o Reino da Loucura?
FRANCISCO CANDEIRA
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A DESCOBERTA DO PERIGO DE EXISTIR
Sartre conhece a experiência de Nizan, admite que a Guerra Civil Espanhola o deixou abalado e confessa várias veces que a sua vivência da Segunda Guerra Mundial mudou a sua vida. Por tudo isso é realmente estranho que construa uma obra caracterizada, como veremos de imediato, pela indicaçao das extremas dificuldades em culminar um processo pessoal de intervençao que se ajuste ao mundo em que vive e, sobre tudo, que se mostre avesso a aceitar a proximidade do outro para elaborar uma tarefa comum solidária. É verdade que a trilogia de “Os Caminhos da Liberdade” – na verdade uma tetralogia se tivermos em conta que Sartre já tinha practicamente acabado um quarto volume, que aparecerá em “Les Temps modernes” – parece orientar-se para outra perspectiva, a do compromisso e a do encontro positivo com o outro, mas esta mesma circunstância dá lugar á perplexidade. Este capítulo centra-se em três obras literárias que justificam de maneira evidente o surgimento sartriano no mundo cultural françês e internacional a partir das perspectivas literárias e filosóficas. Refiro-me a “A Náusea”, romance que, embora tenha sido publicado em 1938, começou a ser escrito durante a estada do autor em Berlim, em 1933. “As Moscas”, estreada em Paris no início de junho de 1943; e a “A Porta Fechada”, conhecida pelo público no final de maio de 1944. As datas sao reveladoras: o romance é publicado quando Sartre já tem conhecimento da experiência niziana e sofreu o abalo provocado pelo levantamento fascista do general Franco em Espanha. Nas três obras referidas encontra-se uma consideraçao sombria e infernal da existência humana, descreve-se o mundo no qual o homem, esforçando-se por compreender, conclui que todo o esforço está destinado ao fracasso e á ruína. “Já nao posso falar, inclino a cabeça. O rosto do Autodidacta está colado ao meu. Sorri com ar fáctuo, muito perto da minha cara, como nos pesadelos. Mastigo penosamente um bocado de pao que nao me decido a engolir. Os homens sao admiráveis. Tenho vontade de vomitar, e de repente alí está: a náusea.”
J. L. RODRIGUEZ GARCIA
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Di que si, que a vida é bela,
anque demasiado vella
e encarcerada pra calquera,
mais di que si porque pensas
anque non saibas o que digas
anque digas sen pensar
que tés xeito
e podes chegar a ser poeta
se es fino e aprendes
a intelixencia da Cleopatra
de Bernard Schaw:
a súa sintaxe, o seu efecto sorpresa,
o seu truncar a frase e o sentido
maxistralmente: a reviravolta
sen darte conta, con inocencia,
con frescura infantil, case inconscientemente.
Sabe máis ela de poesía
que todos os poetas coma min xuntos.
Di que si, que a vida é bela,
que podes disfrutar lendo a Cleopatra,
que a poesía non é retórica,
nin tontería, nin aburrimento,
nin estúpidas prisións
de verdades, bondades ou Estados ignorantes.
A poesía é a grande virtude,
xunto coa Bondade Sabia (ou Milagre)
a única virtude.
FRANCISCO CANDEIRA
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