Arquivos diarios: 29/03/2017

HA SER TEU CORPO

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Ha ser teu riso turxente ondeando alto en teu peito.

a abrolla-lo breve abrente infindo sorriso afeito.

 

Ha ser teu corpo un olvido por rúas cegas de luz

un corpo esguío, tal bido, coa calor a contraluz.

 

Será unha ra e unha barca

reabre o teu ollar salobre

e nos teus portos, ribeiras

abertas á noite dobre,

 

arribarán quizais fontes

ou trémulas eguas albas

chegadas dos irtos montes

ata este ermo de ondas malvas.

 

francisco xosé candeira

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QUE MUYTO MEU PAGO

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Que muyto meu pago d’este verao

por estes rramos e por estas flores,

e polas aves que cantan d’amores,

por que ando hy led’e sen cuydado;

e assy faz tod omen namorado:

sempre y anda led’e muy louçao.

 

Cand’eu passo per alguas rribeiras

so boas arvores, per boos prados,

se cantan hy passaros namorados

log’eu con amores hy vou cantando.

 

AIRAS NUNES

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INÊS

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No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercibida;

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que nao se arme e indigne o Céu sereno

contra um bicho da terra tao pequeno?

 

Tu, só tu, puro amor, com força crua,

Que os coraçoes humanos tanto obriga,

Deste causa á molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna nao deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e ás ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

 

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que depois de morta foi Rainha.

 

LUIS DE CAMOES